Apesar de falarmos de paixão corriqueiramente como amor intenso, no dicionário o significado primeiro do vocábulo é sofrimento, martírio. Como na Paixão de Cristo — que é inclusive lembrada pelo dicionário Houaiss. O segundo sentido está lá também, mas ocupando esse exato lugar, segundo.
A paixão segundo G.H., um dos livros mais badalados de sua autora — Clarice Lispector — e de toda a literatura brasileira do século XX, há de tratar de qual destes sentidos? A princípio, do primeiro. Correto? Até porque a narrativa da Paixão já existe, e com esse nome estampado! Trata-se de coisa inigualavelmente maior que a de Clarice, maior que qualquer outro livro e por isso mesmo inescapável em instâncias de influência e referência. Dela já falamos no primeiro parágrafo como exemplo.
No entanto, se abrirmos o posfácio — olha que inovadora essa análise que começa pelo final do livro! —, vamos notar que o seu autor, Luiz Fernando Carvalho, mal resvala nesse aspecto. Para ele, G.H. fez um diário sujo, um grito de liberdade, um testemunho após romper as terríveis amarras do mundo.
Livre dos cabrestos sociais e morais que a aprisionavam, restou esta carta imunda — mergulho amoroso no corpo do outro — antes interditada, agora liberada de si mesma e entregue a nós. (p.187)
Uma busca rápida na internet há de sustentar essa visão. Muita gente por aí — inclusive graúda — sustenta firmemente que esse livro é sobre isso mesmo: social, matéria, rebeldia, o imanente sufocando o evidente e constante transcendente.
Alguns estudiosos, como o notável Benedito Nunes, deram bastante destaque ao misticismo de G.H... mas para negá-lo. Em seu trabalho, ele vê a transcendência como ponte e até barreira incontornavelmente necessária para a elaboração da linguagem. Deus entra no romance a serviço da estética, e quem fica com o lugar principal é o estilo.
Outros dirão que ao aproximar Deus, ao falar tanto dele, ao trazê-lo pra tão perto, ela não está abraçando o sagrado, mas negando por meio da anulação. Como se Moisés diante da Sarça Ardente estivesse aproximando-se do inferno.
Curioso raciocínio!
Qualquer um que leia o texto há de ficar no mínimo confuso, sem saber direito a direção que a autora quis tomar. Ela fala de sujeira, de imundície, mas também declara um desejo pela graça, pelo brilho e pela glória. Admira e valoriza o prazer ao mesmo tempo que o repudia e atribui a ele sua perdição. A única certeza possível, aliás, é a constante dualidade, e já voltamos a ela. Antes, porém, cabe perguntar: por que essas pessoas tão inteligentes, eruditas, versadas em grandes estudiosos, reduzem a obra a um comentário político ou social? Por que negam sua profundidade mística e sua transcendência?
A resposta creio que já sabemos e não quero ater-me a isso. Meu foco é a obra, analisá-la, mostrar o meu ponto, e este é bem simples.
Diferente de meus pares letrados, não tenho tara nenhuma pela imanência materialista, por conflitos sociais, por uma necessidade quase vital de ver revolução em tudo. Apesar de meus críticos apontarem minha religião como um viés, sempre prefiro — ao menos em intenção — que o texto fale.
Claro que já li, tenho minha tese e você certamente suspeita qual é. Mas vamos manter a tensão, a expectativa. Fique comigo enquanto passeamos por esse livro.
A obra não abre com palavras, mas com travessões: seis seguidos, inclusive.
Em língua portuguesa, apesar de os analfabetos e apocalípticos especialistas em “texto de IA” acharem que o sinal foi inventado agora, os travessões são usados com algumas funções. A mais notável é indicar diálogo e logo depois separar o aposto.
Começar com um travessão seria, portanto, sinal de diálogo; e tantos assim seguidos (seis) já indicam a profusão de uma única voz dividindo-se em tantas outras, um tipo de monólogo polifônico. Faz sentido.
Porém, vale também destacar que esses travessões não se limitam ao início, porque também os encontraremos lá no final. Os mesmos seis, agora encerrando tudo. Encontrá-los assim no início e também no final aponta para o uso como separador de aposto. Esse termo, sabemos com a gramática normativa — a odiada, pouco apreciada e até pouco entendida (inclusive por mim, mea culpa) — serve para explicar um termo, acrescentar a algo uma definição.
A narradora é a própria G.H. do título e talvez esse livro seja um enorme aposto sobre si. Falta o termo antecedente, eu sei — a gramática aqui vale como alegoria, não como norma. O termo são as duas iniciais que a autora nunca abre; a explicação é o livro inteiro. Meio que sentada em um divã, ela sai tagarelando sobre a própria existência em busca de um sentido, pra pegar emprestado o título de Viktor Frankl.
E a estrutura do divã não é só alegoria de crítico querendo dar cor ao ensaio enfadonho sobre literatura. Realmente é parte fundamental do texto e sem ela a gente pode até julgar errado. Veja o exemplo.
É sabido que a terapia psicanalítica consiste, muito grosso modo, numa cura pela fala. O sujeito fala e percebe a si e ao mundo enquanto é obrigado a verbalizar. É também entendido que esse processo de fala não é banal, que demanda tempo e por vezes um paciente pode levar inúmeras sessões até finalmente alcançar um estado ideal de abertura.
Até lá, ele pode contornar a timidez mentindo, ou melhor, criando, como diz a própria G.H.:
Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. (p.19)
Daí essa constância nas primeiras páginas de uma metanarrativa, dum sujeito olhando para o próprio discurso, percebendo a bagunça que é a sua mente e tentando justificar para o terapeuta o que está encontrando, tentando mostrar que não é maluco, que aquela bagunça toda faz parte do plano ou de sua natureza.
Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. (p.9)
E eu falei da possibilidade de julgar errado porque é essa estrutura do divã que dá luz à divisão tão demarcada (embora invisível) do livro em dois blocos. No primeiro trecho, G.H. é mais didática, explica tudo, tenta elucidar até suas alegorias, tem uma exagerada consciência de sua confusão... uma contradição interna, então, já que estar confusa implica a ausência dessa autoconsciência. Exceto se for tudo invenção! Se for tudo um processo inicial de terapia em que a paciente inconscientemente busca montar as peças de seu Ser. Um processo lento porque envolve o abandono da inescapável timidez:
Ah, perdi a timidez: Deus já é. Nós já fomos anunciados, e foi a minha própria vida errada quem me anunciou para a certa. (p.153)
E que trecho importante este que trago! Ele não só demarca essa virada, da protagonista solta, abandonando amarras e mergulhando no seu mistério da existência, como declaradamente traz pra cena Deus: o transcendente, que já aparecia timidamente ao longo das páginas, agora surge como “já sendo”. O erro do passado, antes contornado e declaradamente pouco compreendido, surge reconhecido e assumido enquanto ponte para o divino, para a vida certa. Parece contraditório, e de fato é.
Como apontei em nosso imenso preâmbulo, muitos críticos afastam o transcendente desse texto. Benedito Nunes é o mais notório, e reduz a presença incontestável de Deus a um jogo linguístico. Uma bela pirueta, ao menos. Um passo adiante do autor do posfácio, que prefere somente ignorar e apontar todos os canhões para a matéria. Traduzindo pras minhas palavras: estes nobres autores reduzem o livro a um panfleto político, um artefato do século XX, um grito contra as injustiças sociais.
Trata-se de uma obra confusa, prolixa. O fluxo de consciência cria um labirinto produtivo para a trama e desafiador para o leitor. A jornada psicanalítica da narradora seria menos palpável se não nos perdêssemos junto com ela em suas errâncias pela existência. Isso é ótimo, mas também é porta de entrada para leituras enviesadas que atravessam o bosque e querem lá de fora dizer o que se passa dentro, como poderia facilmente explicar Umberto Eco.
O Divino surge em citações, em evocações diretas, amores e rejeições. Surge também no contar, no estilo, no foco empolgado em criar. No princípio, era o Verbo, nos diz São João, a quem se atribui o mais poético dos evangelhos. O Logos, a palavra criadora, que encarna para redimir a humanidade.
G.H. também tem seu Logos, sua palavra criadora, seu ato de criação que, verbalizando, encarnando em palavras sentimentos e pensamentos, passeia pela própria história enquanto lista máculas a serem lavadas pelo sangue do cordeiro. O cordeiro, aqui, é ela mesma: se oferece pelo bem do mundo, do seu próprio mundo ao menos.
Naquilo que o leitor consegue perceber de ambiente, nas escassas demarcações de espaço, há um quarto de empregada e um armário. Camadas do Ser habitando sua própria casa, sua caverna de Platão, seu deserto particular. E surge também a barata, odiosa, asquerosa, insossa barata que conseguimos perceber quando é provada, sob nossa angústia e nojo.
Há tantos elementos realmente imanentes, tantas referências materiais, sujas, que caímos fácil na tentação de acompanhar Luiz Fernando Carvalho em sua leitura do livro como se fosse mesmo um diário imundo. Mas seria um profundo engano justificável apenas pela estreita visão de que o divino e o profano nunca se tocam. Que o espírito em nada toca a matéria, que elas são inconciliáveis e incomunicáveis.
A realidade, entretanto, vai além. Seja na percepção factual das coisas, na senhorinha que reza todos os dias pros netos enquanto retira da lista os mais birrentos; ou até na mais alta teologia. Santo Agostinho, o célebre autor de Confissões e um dos santos mais unânimes entre católicos e protestantes, admite ali — como reflexão de percurso, longe de tese central — que o pecado também leva (ou pode levar) à salvação.
Há uma dualidade natural na existência. Camille Paglia, que nos anos 1990 nos presenteou com um estudo inigualável (Personas Sexuais), passeia por grandes obras da humanidade enquanto nos demonstra a onipresença da dualidade em tudo que é humano e principalmente naquilo que busca tocar os céus. A Bíblia é dual: com suas leis, com suas restrições, seus destaques repetidos e reiterados para atos grotescos e suas palavras de amor e paz.
Eu me sentia imunda como a Bíblia fala dos imundos. Por que foi que a Bíblia se ocupou tanto dos imundos, e fez uma lista dos animais imundos e proibidos? por que se, como os outros, também eles haviam sido criados? E por que o imundo era proibido? Eu fizera o ato proibido de tocar no que é imundo. (p.69)
Enquanto recolhe os cacos de seu Ser, G.H. passa a entender a dualidade, passa a perceber que o divino não é um conjunto de regras. Ou melhor, lembrando o que diz Paglia, ela entende mesmo é que são regras, restrições, e que é justamente disso que ela precisa.
Eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. (p.11)
A caverna de Platão também pode ser lida como imagem dual, embora a gente só ouça costumeiramente sua alegoria pela necessidade de conhecimento da realidade. O mundo, contudo, é confuso e hostil, violento. A caverna pode ser alienação e também segurança.
O quarto da empregada, o armário, o mergulhar no ventre de sua alma: tudo isso traz essa imagem gravada em suas paredes. Enquanto olha a barata, reflexo de si em sua sujeira — com cascas que ela também tem e mostra ao mundo, cascas que podem ser asas porque voar também é um pavor — ecoa Santo Agostinho clamando a Deus: “Dai-me a castidade, mas não hoje!”
Reconhecer suas falhas, a podridão de sua alma, leva tempo como leva tempo soltar-se da timidez e entregar-se ao processo de anamnese.
Também eu, que aos poucos estava me reduzindo ao que em mim era irredutível, também eu tinha milhares de cílios pestanejando, e com meus cílios eu avanço, eu protozoária, proteína pura. (p.58)
E nesse processo, uma queda é necessária. Pascal, nos Pensamentos, diz que é a grandeza do remédio que mostra ao homem o tamanho da própria miséria. Vale o contrário também: só levanta quem foi ao chão.
O deserto tem importância simbólica demarcada na mitologia bíblica. É no deserto que o povo judeu permanece quando foge do Egito, numa espécie de limpeza necessária antes de chegar à Terra Prometida. Também é num deserto, não gratuitamente, que Jesus cumpre seus 40 dias de jejum, com fome e tentado pelo diabo. O quarto da empregada é esse deserto em escala doméstica: seco, branco, vazio, o lugar onde não sobra nada além do que ela mesma levou pra dentro.
A barata é o diabo, mesmo que também seja imagem da própria G.H. O diabo, nessa cosmogonia que transita da Bíblia à protagonista, não é o outro, mas nós mesmos.
Mais uma vez como Santo Agostinho, G.H. precisa olhar pra si e entender que “tornou-se um problema para si mesma” (como diria o Santo). O confronto com o mal que habita dentro de si é fundamental. Reconhecer sua falha é porta para a transformação. E isso só pode ser feito isolando-se, fugindo para a caverna profunda, onde “distante de Deus” (mais uma vez no sentido de Santo Agostinho) o mal pode manifestar-se. E, confrontando-o, reconhecendo nele sua própria face, libertar-se do que a apodrece.
E via, com fascínio e horror, os pedaços de minhas podres roupas de múmia caírem secas no chão, eu assistia à minha transformação de crisálida em larva úmida, as asas aos poucos encolhiam-se crestadas. E um ventre todo novo e feito para o chão, um ventre novo renascia. (p.73)
A aceitação de suas falhas, reconhecimento de seus pecados, permite a reintegração de seus pedaços e a reconstrução do seu Ser. Antes, nada parecia adequado, justo, limpo. Agora, mesmo manchado, é seu pedaço, só seu, e ela pode finalmente reconhecer-se não apenas na sujeira, no profano, mas no divino.
— Então — então pela porta da danação, eu comi a vida e fui comida pela vida. Eu entendia que meu reino é deste mundo. E isto eu entendia pelo lado do inferno em mim. Pois em mim mesma eu vi como é o inferno. (p.119)
E antes que condenem minha leitura, antes que ergam os indicadores apontando meu viés torpemente cristão, antes de tudo, inclusive, convido ao papel. Não acredite cegamente em mim.
Leia o livro, novamente se for preciso! Perceba suas nuances, mergulhe na dualidade transcendente proposta por Clarice.
Eu poderia passar mais tantas e tantas páginas aqui explicando cada ponto, remoendo, citando, mas seria tudo repetição, uma justificativa quase psicanalítica buscando aprovação. Além disso, resta a certeza de que mesmo mil citações não seriam tão poderosas quanto uma só, justamente no final. Justamente na frase que antecede os seis travessões que fecham esse aposto imenso.
Após toda a sua Via Crucis, quando atravessou sua única e ao mesmo tempo tão universal Paixão, é como se olhasse lá do alto e proclamasse, de um corpo coberto de sangue: “E então adoro”.
