Eu recebo muitos comentários no meu canal, de todos os tipos, cores, sabores e tamanhos. Alguns são bondosos, graciosos, combustível de minha vaidade. Outros, raivosos, escandalosos, destruidores de minha bondade. O melhor deles até agora, entretanto, não foi contra mim, nem contra uma ideia ou mesmo um livro por si. Foi um comentário contra a própria leitura.

Ele veio de um fake, um desses metamorfos que habitam as sombras da internet, com identidade surrupiada de um personagem dos filmes de Hollywood mas cheio de vociferações eruditas para soar inteligente. Antes do argumento, contudo, veio uma justificativa sincera: “não leio por preguiça mesmo. Não tenho saco. Prefiro vídeos ou audiobooks”. Fascinante!

Ele admite a culpa, faz um esboço de expiação dos pecados para logo em seguida, como um pecador nada arrependido, erguer o indicador e começar uma acusação dramática e desmedida da própria leitura.

Screenshot de um comentário em rede social ou plataforma de vídeo sobre o hábito de leitura e preferência por conteúdos audiovisuais.

Veja que beleza! Que belo exemplar de busca desesperada de reforço do próprio viés. E isso, veja só, é documentado onde? LIVROS, sempre eles: especialistas como Peter Wason já sistematizaram que o ser humano tem esse vício de catar argumentos pra justificar uma posição já previamente adotada. Ele é preguiçoso, admite, mas veja bem... o mutatis mutandis.

Aliás, outra pérola! Mutatis mutandis, ou, em bom português, mudando o que tem de ser mudado. As coisas mudam, o mundo muda, a humanidade evolui... pra que desgraça ficar preso ao tempo das cavernas, decifrando código num papel? Hoje temos vídeo, áudio, gráfico, desenho... o mundo mudou!

A leitura, defende nosso amigo, é tecnologia ultrapassada.

Curiosamente, quando traz o latim ao baile, ele está tentando dar um brilho erudito a um argumento frágil. Todo mundo sabe que o latim abriga o saber imortal e universal e que, utilizando-se dele, você mostra domínio desse mesmo saber.

E aqui eu preciso ser honesto antes de dar a bengalada, porque a bengalada fácil não serve. Não há contradição nenhuma em usar o legado de uma tecnologia que se considera superada — ninguém acusa de incoerente quem lê as horas num relógio de algarismos romanos. Ultrapassado não quer dizer que nunca funcionou.

A ressalva é outra, e é pior pra ele. O que nosso amigo tomou emprestado não foi o latim. Foi o prestígio do latim. E prestígio não é ferramenta abandonada num galpão: é coisa viva, que só existe enquanto uma tradição continua conferindo autoridade a quem a invoca. Ele precisou que a cultura escrita estivesse de pé, e bem de pé, para que a sentença de morte dela soasse respeitável. Sem uma plateia que ainda se curva diante da página, o latim dele não seria erudição, seria ruído.

Ou seja, para empolar uma crítica com argumentos que não sabe ao certo nem de onde tirou, usou do inimigo aquilo que deprecia.

Contudo, mesmo com esse tiro de espingarda torta e atirador vesgo, há algo além da troça que merece nossa atenção.

Ele acertou em algo, vamos ser honestos. A leitura de fato é uma tecnologia. Aqui precisamos interromper as aspas e todo deboche.

A escrita tem uns cinco ou seis mil anos. Para a vida na Terra, ao menos segundo registra o consenso sobre o assunto, isso é um piscar de olhos — prazo curtíssimo pra produzir qualquer circuito dedicado. Não existe no ser humano nenhum órgão (ou parte dele) dedicado à leitura. Não existe região no córtex que tenha sido reservada para decifrar marcas em superfícies, do jeito que temos — por exemplo — região dedicada à fala. Enquanto falar é natural, não há escritor ou leitor no mundo que faça isso naturalmente. Sempre e em todo caso é um indivíduo que convoca cérebro e corpo para efetuar funções que não são nativamente dele.

Dehaene, autoridade absoluta no assunto, descreveu esse mecanismo no livro “Os neurônios da leitura”, num processo que chamou de “reciclagem neuronal”. A área da forma visual das palavras, que fica no lado esquerdo, é território convertido. O que é feito para reconhecer objetos e rostos, para delimitar contornos e simetrias, nós usamos para reconhecer letras. Nenhuma criança, repito, nasce com essa habilidade. Nós precisamos treinar!

Steven Pinker, outro estudioso da linguagem, nos dá mais munição sobre isso. A fala é um instinto, ele diz. Instala-se em qualquer criança que a ela é exposta. Não precisa de aula, método, cartilha, de alguém que sente com o moleque e explique o que é um verbo ou substantivo. A escrita, por outro lado, nunca funcionou dessa forma. Ninguém aprende a ler por osmose, ninguém deduz o sistema alfabético sozinho. Sociedades inteiras viveram milênios sem isso, inclusive. A leitura precisa ser aprendida, treinada, desenvolvida e — principalmente — intencionalmente transmitida entre gerações. Precisa-se de professor, de material, de tempo, insistência, paciência.

E olha que fabuloso! É justamente esse o procedimento para desenvolvimento e manutenção da TECNOLOGIA!

A conclusão óbvia advinda disso é: dá pra aprimorar.

Não é porque começamos a fazer contas complexas com ábaco que precisamos utilizá-lo em tempos de supercomputadores. Não é porque começamos cavando cunhas numa tábua de barro que precisamos guardar essas tábuas até hoje: olha só o tanto de papel. O próximo passo chegou e hoje temos os audiolivros.

O autor de The Reading Mind, Daniel T. Willingham responde à pergunta “ouvir audiolivro é trapaça?” com um não qualificado. Quando se trata de um adulto já habituado com a leitura, o processamento da linguagem é substancialmente o mesmo pelos olhos ou pelos ouvidos. O experimento que sustenta isso é de Rogowsky, Calhoun e Tallal, de 2016: três grupos, um lendo, um ouvindo, um fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, e nenhuma diferença significativa de compreensão.

O que precisa ser ressaltado, porém, mora abaixo da superfície do dado agradável. Adultos que leem! Os estudos empreendidos na área falam sobre adultos que já têm o hábito, cujo aparato já está pronto, sólido e em funcionamento.

E além disso, o mais importante: quem disse que leitura é só obtenção de conhecimento?

Pra começar esse papo, chamamos o mesmo Willingham: enquanto lemos, 10 a 15% dos movimentos do olho são regressivos. Enquanto lemos, nós voltamos, recompomos. O leitor está em constante processo de revisão, mesmo que nem perceba. O audiolivro não permite isso. E nem falamos da prosódia, de como o locutor resolve sozinho toda a transformação do sinal em som, de como resolve com uma entonação todas as ambiguidades possíveis e ocupa todos os espaços de vazio que um texto guarda.

Repare, porém, que tudo isso ainda mede a mesma coisa que mede nosso comentador: o que sai de uma sessão. Até aqui só mostrei que, mesmo no terreno dele, a troca não sai limpa. A pergunta que interessa é outra, e ela pode ser respondida à partir do ábaco. Porque o ábaco saiu de cena por um motivo bem específico: o que importava era o resultado da conta. Ninguém jamais se perguntou o que o ábaco fazia com as mãos e com a cabeça de quem passou trinta anos operando um. A pergunta soaria idiota, e a resposta seria provavelmente nada de mais. Pois com a leitura essa pergunta idiota é a única que importa.

Apenas a lógica bastaria, mas num mundo cientificista a ciência fala mais alto.

Na conceituada Nature Reviews Neuroscience, em 2015, foi publicado um artigo assinado por gigantes no assunto: Dehaene, Cohen, Morais e Kolinsky.

Neste artigo eles expõem os efeitos da alfabetização: melhora o processamento visual; reorganiza a comunicação entre áreas do cérebro; modifica a percepção da língua falada; liga regiões inteiras e então separadas do cérebro.

Isso demandaria sozinho páginas e páginas de explicação e desdobramento, mas quero pular pra algo que acho até poético: aprender a ler desloca o processamento de rostos para o hemisfério direito.

O espaço do cérebro é limitado. Cada nova habilidade aprendida, quando não é natural, quando não tem uma área dedicada para tanto, precisa achar seu lugar, abrir caminhos.

Se antigamente isso era especulação, hoje tornou-se visível. O estudo sobre o cérebro passou por uma verdadeira revolução nas últimas décadas e isso é tema de um excelente livro de Eric R. Kandel, Em Busca da Memória. Kandel levou o Nobel do ano 2000 por demonstrar que aprender alguma coisa altera fisicamente o neurônio — que a memória não paira sobre a máquina, ela a modifica. O trabalho dele foi feito com lesmas do mar e no interior de uma única célula. O que a leitura faz acontece um andar acima, na escala grossa que a ressonância enxerga, e é dessa escala que vou falar agora. O princípio, porém, é o que Kandel fixou: aprender deixa marca no tecido.

Visualize comigo o cérebro! Entenda que ele possui, entre outros, dois tipos de composições visíveis nos aparelhos de imagem: massa branca e massa cinzenta. Sendo bem rasteiro para ajudar na didática, a gente pode dizer que a massa cinzenta são os centros de processamento; já a massa branca é o conjunto de cabos que ligam esses centros.

O mágico do nosso cérebro, o que acontece quando aprendemos alguma coisa, é que essa massa cinzenta — o centro de processamento — é capaz de prolongar seu corpo, criar um cabo e conectar-se a outro centro de processamento. E esse cabo, quanto mais usado, mais revestido fica, mais grosso, mais veloz. É esse revestimento que aparece branco na imagem. Imagine que você precisa aprender violão. Você precisa então usar neurônios que controlem seus dedos, neurônios que controlem seus ouvidos e neurônios que codifiquem tudo isso em duas vias: de ida e vinda. Conforme aprende, esses cabos são criados e conectados entre esses neurônios.

A poesia ganha intensidade quando entendemos que essas conexões não são exclusivas da habilidade que você aprendeu para desenvolvê-la. Um cabo estabelecido enquanto aprendeu a tocar violão pode ser usado em inúmeras outras tarefas ao longo da sua vida.

Sabe uma cidade que vai ficando grande... grande... e só tem uma estrada? Pra sair da praça até a padaria você precisa sempre enfrentar longuíssimos congestionamentos porque a única via está abarrotada. A praça é uma área do cérebro e a padaria, outra. Quando você desenvolve uma habilidade, quando aprende algo, novas estradas são criadas.

O que os pesquisadores demonstram no artigo é, entre outros dados, que o cérebro de um adulto analfabeto não construiu essas estradas. A vida dele não tem menos informações, não há menos carros transitando por suas ruas, mas as vias que a leitura pede não estão lá. Quando esse adulto começa a ler, a imagem de seu cérebro é tomada por mais branco e também mais cinza. Várias praças, padarias, farmácias e mercados são erguidos. Várias estradas e rodovias são inauguradas.

E nem esgotamos ainda toda a poeticidade.

O aprendizado da leitura e escrita mexe nessas áreas de um jeito que quase nenhuma outra atividade humana documentada mexe — e é, disparado, o caso mais estudado que temos. Mas lembra do que falei sobre o deslocamento do reconhecimento dos rostos? Repare no que aquela frase esconde.

A região que perde os rostos fica no lado esquerdo, e é uma região de primeiríssima linha. É o córtex que usamos naturalmente para reconhecer o particular concreto: aquele rosto, aquele objeto, aquilo que está ali na sua frente e que você precisa identificar em milésimos de segundo pra saber se abraça ou se corre. A alfabetização chega e requisita esse terreno nobre para outra coisa. Para marcas que não são nada em si, que não se parecem com aquilo que nomeiam, que existem única e exclusivamente para apontar o ausente. O rosto sai, a letra entra. E os rostos vão trabalhar do outro lado.

Pense no tamanho disso. No lugar mais nobre do reconhecimento do concreto, o cérebro alfabetizado instala uma operação de referência ao que não está presente. Ele desaloja a coisa para alojar o símbolo da coisa.

E o que vale pro rosto vale pra tudo.

Um humano alfabetizado consegue transferir do concreto para o abstrato. Consegue pensar e avaliar aquilo que não necessariamente tem à sua frente ou que existe em forma pura. Pode agora relacionar essas categorias, ponderar, avaliar, comparar.

Esse processo não para. Apesar de ter sua explosão no processo de alfabetização, a mera prática da leitura é um exercício constante de malhação do cérebro.

Sempre que você olhar pra realidade e pensar em reclamar da estupidez humana, pensar no quanto temos regredido, no quanto escolhemos péssimos políticos ou nos perdemos discutindo bobagens enquanto o mundo desaba, pense nisso.

Uma pessoa sem leitura não avalia mal a realidade porque “deixou de obter conhecimento”, mas porque a maquinaria que esse tipo de avaliação exige não foi construída nela.

Abstração é mesmo muito importante. Comecei a seção anterior falando como a lógica bastaria. Trouxe a ciência e ainda pode haver quem diga não bastar.

Como sei que muitos aqui podem não ler tanto assim e, portanto, ter certa dificuldade no encadeamento da realidade, vamos apelar para a História. Adianto que ela não vem aqui provar de novo o que a ressonância já mostrou — História não mede tecido.

O que cientistas de jaleco fotografando cérebros descobriram sobre a leitura já é sabido, em outros termos, há ao menos um milênio.

Hugo de São Vítor, cônego da abadia de São Vítor em Paris, escreveu no século XII um tratado chamado “Didascalicon”, sobre a arte de ler. Em seu trabalho, concebe a leitura como disciplina fundamental. Trata como um exercício ordenado, com direito a método, progressão, efeito. Uma entidade abstrata que deriva do pergaminho e modifica quem lê.

Marrou, em História da Educação na Antiguidade, aprofunda. A educação antiga, explica, foi concebida como formação integral da pessoa. A Paideia grega era um projeto de construção do indivíduo que tinha as letras no centro do processo. O estudo existia para tornar o sujeito alguém. A informação que vinha junto era uma consequência, sequer digna de ser mensurada.

C. Stephen Jaeger, em A Inveja dos Anjos, descreve as escolas catedrais dos séculos XI e XII, as que vieram antes das universidades, e a máxima que as organizava: formar em “letras e costumes”. Conhecimento teórico e postura, modos, eloquência, portar-se. O ser humano integral proporcionado pelo acesso e contato com as letras. E há no livro uma ironia que vale registrar, porque ela vai reaparecer mais à frente neste texto: esse ideal não sobreviveu à chegada das universidades. O que veio depois foi mais rigoroso, mais técnico, mais organizado — e deixou pelo caminho justamente a formação do sujeito.

Ou seja, por mil anos a cultura ocidental entendeu a leitura como um processo de formação.

E aqui é preciso um cuidado, senão o argumento vira mágica. Substância branca no corpo caloso e a Paideia grega não são a mesma afirmação dita em dois vocabulários. Uma mede tecido, a outra descreve o que acontece com um homem ao longo de uma vida inteira, e nenhuma das duas prova a outra. O que impressiona é o encontro. O cônego com seu pergaminho e o pesquisador com sua bobina magnética partiram de pontos opostos, separados por oitocentos anos, por línguas diferentes, por tudo — e apontaram para o mesmo lugar. Ler faz alguma coisa em quem lê, e essa coisa não é o conteúdo do que foi lido.

Por isso o comentário do querido seguidor incomoda tanto. O autor traz uma noção capenga de leitura, incapaz sequer de acompanhar os rastros de um cônego do século XII. No entanto, jura que está na crista da modernidade. Concebe o livro como um recipiente, como um pote onde alocamos conteúdos. Essa é sem dúvida uma ideia nova, moderna, mas nem tudo que é novo e moderno é também mais valioso.

Falta ainda explicarmos por que alguém instruído em 2026, que tem na palma da mão mais informação do que toda a biblioteca de Alexandria foi capaz de abrigar, não consegue ver o que um homem do século XII via. Fica comigo e conto com sua carga de leitura — e, portanto, abstração — pra entender isso. Afinal, o menor dos culpados é quem digitou o comentário.

Comecemos com Santo Agostinho. Em A doutrina cristã ele separa signum e res, o signo e a coisa — e o interessante da separação é ela não ser estanque: há coisas no mundo que, sendo coisas, funcionam também como signos e apontam para além de si. O mundo é passível de ser lido, legível. Ler a Bíblia e ler o mundo, para Agostinho, são a mesma operação — e um monte de gente aí achando que Paulo Freire inventou a leitura de mundo. Sob essa premissa, a leitura é exercício sobre o ser e o símbolo participa do que ele próprio significa.

Ockham (o autor da famigerada navalha de Ockham), séculos depois, dá o passo que nos interessa. Os universais — “homem”, “justiça”, “árvore” — perdem qualquer estatuto na realidade e viram nomina, nomes, termos lógicos que a mente usa para agrupar particulares. Tudo bem, estou simplificando mas a gente não tem espaço pra uma aula completa sobre os universais. Entendamos o princípio. Ockham, sejamos justos, não era um materialista, não pretendia ou imaginava que seu pensamento fosse desembocar no que desembocou. Não estou dizendo que ele intencionalmente nos traz o estado atual das coisas, apenas alego que seu passo foi uma abertura. Se o universal não é real, o signo que antes participava da ordem real passa a apenas rotular.

O Romantismo em sua magnífica confusão dá o passo seguinte, e aqui é preciso dizer com cuidado porque é fácil errar. O símbolo não perde força — ganha, e ganha muita. Torna-se máxima expressão do gênio incontestável do artista. A questão é de onde essa força passa a vir. Ela deixa de vir do real, que seria ele próprio simbolicamente estruturado, e passa a vir do sujeito, que carrega o símbolo de sentido pela força de sua experiência. O símbolo sobrevive como sinceridade, tendo abandonado totalmente qualquer pretensão sobre o ser. E aquilo que só vale porque alguém quis que valesse torna-se, por consequência, descartável.

Marx alarga a passada. Diz ele que as relações de produção constituem a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas determinadas de consciência social. A cultura perde realidade própria e passa a ser um efeito. Torna-se reflexo do que abaixo dela é erguido. O signo torna-se acessório... ou ferramenta!

O autor do comentário não precisa conhecer disso tudo, não precisa ter lido Marx ou sequer ter ouvido falar em Santo Agostinho ou Guilherme de Ockham. Porém, quando classifica a leitura como uma tecnologia e depreende disso, por comparação, a conclusão de que está ultrapassada, trata o ato simbólico como transporte de informação. A substância torna-se o conteúdo, a forma torna-se mera embalagem. Se o livro é apenas um enredo, uma trama, e o audiovisual entrega isso em uma única tarde, o livro perde seu espaço. Dada a premissa, a conclusão se arremata sozinha. É a mesma premissa que nos engole lentamente à espera de engolir o próprio mundo.

Embora tenham vulgarizado o termo, este é um genuíno caso de ignorância estrutural. Trata-se de coisa rasteira, difusa, sem autor e sem leitura — a premissa solta de que só a matéria é real e todo o resto é efeito dela. Se o homem é um arranjo do material, formação é apenas um rearranjo e não existe um interior a ser cultivado ao longo das décadas e até gerações.

Se ampliarmos do indivíduo para a sociedade, o estrago torna-se mais visível. Uma cultura montada sob essa premissa constrói sistemas de entrega. Otimiza transmissão, mensura engajamento, reduz durações. Despreza a formação porque o ato de formar implica a suposição de que exista alguém sendo formado. É a antítese perfeita das escolas catedrais descritas por C. Stephen Jaeger, que gastavam anos focadas em “letras e costumes”, sem preocupar-se com qualquer métrica de eficiência. E olha que interessante: quem enterrou aquelas escolas foram as universidades, que eram mais eficientes. O processo é velho e ele nunca se anuncia como perda.

O irônico, no fim, é que a posição materialista seja desmentida justamente por evidências materiais. É a tecnologia, a ressonância magnética, que defende Hugo de São Vítor. Com chapas e imagens que mostram exatamente aquilo que a premissa do materialista o impede de ver. Ele não nega por teimosia, nem por má-fé. Ele não enxerga porque herdou, sem escolher e sem perceber, um par de óculos que filtra o mundo e, por consequência a própria concepção de si.

Como resolver isso?

Seria eu um cego se abrisse mão de letras garrafais para dizer: LEITURA!