A voz lírica emite, num grito desesperado, os seus mais ardentes intentos de se conectar com Deus – talvez, com o Amor Absoluto ou mesmo a Verdade –, mediante esta que é, nada obstante, uma confrontação honesta e crua com as dificuldades da fé, em um mundo onde a presença divina parece-lhe nada tangível, longe de ser colmatada pelo conhecimento racional ou pela arte.

No coração do poema jaz a ideia de que a verdadeira conexão não se encontra na abstração ou na evidência, mas no “ato de sangrar”, de entregar-se por completo à busca, pouco importando o resultado: a solidão resulta ser o preço da consciência, quer esta aponte para a existência de um ser superior, quer para a sua ausência.

J.A.R. – H.C.

Patricia Highsmith: Retrato em preto e branco de uma mulher jovem com o rosto iluminado lateralmente, usando um lenço com padrão de leopardo.

Hilda Hilst

(1930-2004)

Estou sozinha se penso que tu existes

Estou sozinha se penso que tu existes.

Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhança.

E igualmente sozinha se tu não existes.

De que me adiantam

Poemas ou narrativas buscando

Aquilo, que se não é, não existe

Ou se existe, então se esconde

Em sumidouros e cimos, nomenclaturas

Naquelas não evidências

Da matemática pura? É preciso conhecer

Com precisão para amar? Não te conheço.

Só sei que desmereço se não sangro.

Só sei que fico afastada

De uns fios de conhecimento, se não tento.

Estou sozinha, meu Deus, se te penso.

Em: “Poemas malditos, gozosos e devotos, XII (1984)

Innocentia (de William-Adolphe Bouguereau): Pintura a óleo de uma mulher jovem com cabelos loiros longos, vestindo uma túnica branca, com uma mão no peito e a outra apontando para cima.

Pense em Deus

(Hugues Merle: pintor francês)

Referência:

HILST, Hilda. XII: Estou sozinha se penso que tu existes. In: __________. Da poesia. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2017. p. 417.