A poetisa portuguesa empreende, neste poema, um sugestivo juízo metapoético comparativo entre o ato de tecer e o de escrever poesias, insinuando que a criação poética não se restringe meramente à técnica, senão que também demanda do poeta um fluxo emocional e intuitivo, tanto mais em razão de que a poesia não corresponde a algo estático, mercê de sua transformação através do tempo e do engenho fecundo das incontáveis vozes poéticas.
Enredado em seus propósitos de perfeição na arte a que se dedica, o poeta, contudo, pode incorrer num processo de desfazimento mais ou menos reiterado (ou deliberado) de seu “tecido” lírico, mormente quando desintegra as palavras numa busca contínua por apreender uma poesia que não se deixa sujeitar assim tão facilmente pela linguagem, tornando-se então – especulemos – uma espécie de Sísifo no embate para recompor o seu poema a cada vez que algo, nele, se desfaz.
J.A.R. – H.C.
Fiama H. P. Brandão
(1938-2007)
Rosas
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Admiro a tecedora porque tem consentido
que a assemelhem à poesia.
Mesmo com os cílios a perturbar-lhe
o movimento dos fios e os dedos
tocados por uma estranha resignação,
ela tece os caudais líquidos
que escorrem na sensibilidade do poeta
desde que era criança. Aqueles
que não imaginaram na ceifeira de uhland
o cântico mais remoto da nova
ceifeira de fernando pessoa podem
agora começar a imaginá-lo. Mas eu admiro
sobretudo a injustiça para com
a tecedora, a de atribuir
aos seus dedos esfacelados
a incipiência do poema. Ela soube
ser responsável pela perdição
ou a desaparição dos homens nas palavras,
até estes voltarem a emergir
dessas palavras alteradas e inalteradas.
A poesia iludira-se ao pensar
que a alteração que atingira os objectos
deixara ser idêntico, até nova comparação,
o poeta. O próprio termo poesia
pudera orientar a sua sombra
no sentido de manter cintilante
a metáfora da tecedora, até terminar
e recomeçar a teia, com o ritmo
passando a tempos regulares
os fios obliquados pela luz.
Toda a crítica tem exaltado o poema
como uma produção da mecânica manual
oposta à idade do amor espontâneo,
os jorros do lirismo.
Eu abjuro da tecedora porque
muitas vezes tem correspondido
a quem lhe diz que a harpa produz
estopa. Se nem um tecido
é rigoroso com traços e sombreados
quando muito harmoniosos, nunca simétricos,
como o pode ser a soldagem
dos termos lexicais ligados
continuamente por espaços brancos.
Como evitar que o fim da página
se ligue ao cosmos materialmente
e, em vez de tornar-se um tecido
tranquilo, o poema se desagregue,
repetindo assim o movimento
de que nascera e fora contrariado
pela escrita. Ao chocalhar
todas as frases, os versos
caem uns dentro dos outros,
e o poeta vê-se perante a impotência
de os refazer sílaba a sílaba.
Só a tecedora tem o privilégio
de romper os fios pelo fogo.
In: “Área Branca” (1978)
Buquê de Rosas
(Pierre-Auguste Renoir: pintor francês)
Referência:
BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Rosas [10]. In: __________. Obra breve: poesia reunida. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2006. p. 289-291.
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