Eis aqui mais um poema tendo o processo criativo como tema, no caso, enquanto forma de vida e de entrega à arte de escrever, metaforizada em uma perigosa viagem marítima levada a efeito com uma carga pesada: nos contratempos da filha e nas lucubrações do pai, muito se resume nas tribulações por que passa um estorninho para sair do aposento em que, voluntária ou involuntariamente, se meteu.
Chocando-se contra janelas fechadas – símbolo das barreiras entre a ideia e sua expressão ou entre o artista e o mundo –, experimentando insucessos reiterados e estafantes, o escritor-pássaro vivencia um substancial desgaste físico e emocional, embora sempre deva manter a tenacidade e a coragem para reiniciar a jornada.
Ao final da viagem, decerto, alcançará o êxito, alçando voo pela justa janela que se abre a um mundo de epifanias, de triunfos e de alívios por haver conseguido vencer essa “questão de vida ou morte”, ou dito de outro modo, a necessidade premente de se expressar, mesmo que a custo de uma refrega, para manter viva a chama do espírito ou de uma visão de mundo.
J.A.R. – H.C.
Richard Wilbur
(1921-2017)
The Writer
In her room at the prow oft he house
Where light breaks, and the windows are tossed with linden,
My daughter is writing a story.
I pause in the stairwell, hearing
From her shut door a commotion of typewriter-keys
Like a chain hauled over a gunwale.
Young as she is, the stuff
Of her life is a great cargo, and some of it heavy:
I wish her a lucky passage.
But now it is she who pauses,
As if to reject my thought and its easy figure.
A stillness greatens, in which
The whole house seems to be thinking,
And then she is at it again with a bunched clamor
Of strokes, and again is silent.
I remember the dazed starling
Which was trapped in that very room, two years ago;
How we stole in, lifted a sash
And retreated, not to affright it;
And how for a helpless hour, through the crack of the door,
We watched the sleek, wild, dark
And iridescent creature
Batter against the brilliance, drop like a glove
To the hard floor, or the desk-top.
And wait then, humped and bloody,
For the wits to try it again; and how our spirits
Rose when, suddenly sure,
It lifted off from a chair-back,
Beating a smooth course for the right window
And clearing the sill of the world.
It is always a matter, my darling,
Of life or death, as I had forgotten. I wish
What I wished you before, but harder.
Uma garota escrevendo
(Henriette Browne: pintora francesa)
A Escritora
Em seu quarto, na proa da casa,
Onde irrompe a luz e as tílias agitam-se às janelas,
Minha filha está escrevendo uma história.
Detenho-me no vão da escada a ouvir,
Por trás da porta fechada, uma comoção de teclas,
Como grilhões puxados sobre uma amurada.
Por mais jovem que seja, o estofo
De sua vida é um grande fardo, em parte, pesado:
Desejo-lhe uma afortunada travessia.
Mas agora é ela que se detém, como se para
Rejeitar-me a lucubração e sua alegoria simplória.
Instala-se um silêncio, durante o qual
Toda a casa parece mergulhar em pensamentos,
Até que ela deflagra novo clamor concentrado
de golpes, para logo sobrevir novamente o silêncio.
Lembro-me do estorninho atordoado
Que ficou preso naquele mesmo quarto, há dois anos;
Como entramos furtivamente, levantamos uma vidraça
E recuamos, para não o assustar; e como,
Durante uma desalentada hora, pela fresta da porta,
Observamos a esguia, selvagem, escura
E iridescente criatura ir de encontro
Aos feixes de luz, cair como uma luva
No piso duro ou sobre o tampo da escrivaninha,
E ali aguardar, arqueada e ensanguentada, pelo retorno
À lucidez para outra tentativa; e como retomamos
O ânimo quando, subitamente segura,
Alçou voo do espaldar de uma cadeira,
Numa rota suave em direção à janela correta,
Logrando transpor o parapeito do mundo.
Como me havia esquecido, minha querida,
É sempre uma questão de vida ou morte. Desejo-te
o que sempre antes te desejei, com mais força porém.
Referência:
WILBUR, Richard. The writer. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 209-210.
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