Somos seres em cuja estrutura coexistem, em precário equilíbrio, o amor e a dor, partes inseparáveis da condição humana: para fazer frente à solidão, que nos derrota de forma insidiosa, apostamos reiteradas vezes no amor, somente para que, fortuitamente, este se nos revele como mais uma ilusão vazia, exibindo, então, a sua natureza paradoxal – uma espécie de “chama que nos alenta”, mas que nos pode minguar as forças.

 

Beber essa dor “de um só trago”, com valentia e dignidade, ainda que em silêncio e em solidão, implica aceitá-la sem diluí-la nem prolongá-la desnecessariamente, assumindo-a individualmente, sem testemunhas ou consolo externo, com o que a alma vai aos poucos se tornando resiliente aos desenganos da vida, ou melhor, às cruciantes ironias perpetradas pelo amor.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gonçalo M. Tavares: Retrato em preto e branco de um homem usando óculos.

Jorge Gomes Miranda

(n. 1965)

 

De um só trago

 

De todas as maneiras que a solidão

escolhe para nos derrotar

nenhuma tão lenta e cruel

como a que nos faz acreditar

de novo no amor, ao mesmo tempo

que nos retira as forças para injuriá-lo

quando as promessas se revelam vãs

e percebemos que a chama que nos alenta

é a mesma que nos extingue.

 

E de nada serve pelos restantes dias

mostrarmo-nos compassivos

de nós mesmos, com a certeza de que

em todas as praças há um corpo apedrejado,

em todas as casas uma janela opaca,

em todos os quartos uma boca sem voz,

em todas as palavras a lembrança de outras

mais amadas e que um dia nos pertencerão.

 

A dor deve ser bebida em silêncio

de um só trago, ao balcão de um bar,

depois de todos haverem já partido.

 

Pintura de um homem com cabelos longos sentado num balcão com uma garrafa e taça de vinho, cercado por figuras sombrias.

Homem num bar

(Fabián Pérez: artista argentino)

 

Referência:

 

MIRANDA, Jorge Gomes. De um só trago. In: __________. Este mundo, sem abrigo. Lisboa, PT: Relógio d’Água, nov. 2003. p. 44.