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O xtinto lançou Em sonhos, é sabido, não se morre e, tal como referi nesta publicação, cativou-me a coesão entre faixas, a parte instrumental que as une, sem perderem identidade e autonomia, o som das guitarras e do saxofone e, sendo ele um homem de palavras, de caneta afiada, a perícia de determinados versos, que ficaram a ecoar no meu peito. Portanto, desligar o leitor de cd’s e ir escutar cada um deles ao vivo era tudo aquilo que precisava para estreitar o vínculo.
As expectativas para o concerto não estavam modestas, admito, e o melhor de tudo foi sair do Auditório CCOP a sentir que as superou a todas. Aliás, foi daqueles casos em que os detalhe se alinharam na perfeição, porque o xtinto tem uma presença em palco contagiante, o alinhamento ficou incrível, a entrada dos convidados foi na altura certa, o público entregou tudo e o próprio espaço contribuiu para que o espetáculo, embora bastante enérgico e dançável, não perdesse a sua componente intimista, quase familiar.
Naturalmente, fizemos uma paragem mais extensa pelos temas do novo álbum, porém, foi de coração a transbordar que pudemos ir aos clássicos como Pentagrama, Marfim e Éden. E se esta seleção já mexeu por dentro, sobretudo quando começaram os acordes da Pentagrama, nem quero imaginar se ele incluísse a Berço no reportório: era capaz de ter mais dificuldades para recuperar emocionalmente. Faço só a ressalva de que isto é uma observação pessoal, porque gosto muito do tema e seria incrível escutá-lo ao vivo, não uma crítica, até porque a história que ele contou em cima do palco ficou perfeita com a sequência que escolheu. Por outro lado, para além de confirmar que a Cidade, a Sofá e a Vento têm o meu coração por inteiro, foi excelente perceber como a Prisma e a Kintsugi crescem neste formato e como precisamos que lance aquele verso da Interlúdio.
Não conhecia as pessoas que tinha à minha volta, mas senti a pele eriçada ao longo da noite, porque é mesmo arrebatador o poder da música e a capacidade de nos alicerçar às palavras de um artista, reproduzindo-as a uma só voz. A forma como cada um viveu a interpretação dos diversos temas, não duvido, foi particular, única, mas não solitária e isso é especial, é sinal de que a mensagem ecoa e permanece. Parafraseando o xtinto, os clichés só o são porque os tornamos verdadeiros e não há dúvidas sobre o quanto a música nos une e serve diferentes propósitos. Ali, gritou pela liberdade e sarou feridas.
Assentamos os pés na terra e levantamos voo. Num assunto que é de todos nós, foi um privilégio tremendo assistir de perto ao seu talento e a esta noite de absoluto sonho.