Nesta quarta-feira, 29 de julho, estarei fazendo uma aula aberta, online, como prévia para divulgação para o curso que vou realizar durante o mês de agosto, tendo por objeto o livro Corpo de Baile, de Guimarães Rosa. É uma produção da “Escrevedeira”, o conhecido e dinâmico centro cultural paulistano. O curso acontecerá online, todas as segundas-feiras (dias 10, 17, 24 e 31 de agosto), das 19 às 21 horas. Inscrições e informações aqui:
https://escrevedeira.com.br/curso/sete-portas-para-corpo-de-baile-uma-introducao-ao-livro-de-guimaraes-rosa/
A idéia deste curso surgiu de um convite da Profa. Noemi Jaffe, e se liga ao fato de que em 2026 estamos comemorando 70 anos da publicação original do Grande Sertão: Veredas e do Corpo de Baile.
Guimarães Rosa fez no ano de 1956 algo que qualquer editor de bom senso desaconselharia nos tempos de hoje: publicou, com poucos meses de intervalo, dois livros gigantescos, ambos com mais de 500 páginas, escritos numa linguagem inesperada, desconcertante, difícil.
Grande Sertão fez um sucesso gigantesco, e merecido. É um dos maiores e mais recompensadores romances de nossa literatura. Mas o pobre do Corpo de Baile ficou numa posição secundária, meio fora de foco, meio na sombra. É um livro magnífico, mas as pessoas que conseguem transpor o Grande Sertão de ponta a ponta soltam um suspiro de alívio, e se dão por satisfeitas. Não é todo mundo que resolve encarar o outro Everest.
Na sua correspondência da época, Rosa (sempre brincalhão) chamava um dos livros de “mastodonte” e o outro de “cetáceo”. Dizia isso sem culpa e sem pompa. Sabia que eram livros enormes e difíceis. E daí? Como ele mesmo alertou, numa carta a sua tradutora norte-americana Harriet de Onís, “acabarão se acostumando”. Acostumamo-nos. Não conseguimos mais viver sem isso.
É
um bom momento para conhecer Corpo de
Baile, ou para reler suas sete novelas, que valem muito a pena. É como se o
Grande Sertão, com sua história una, bem
costurada, implacável, ocupasse o centro desse universo ficcional, e as sete
novelas de Corpo de Baile fossem
prolongamentos, “puxadinhos”, expansões desse centro, mas todas com seu próprio
mundo interno, seu elenco de personagens pitorescos ou góticos, suas situações
bizarras, seu dramas intensamente humanos.
Num
artigo recente na revista 451,
comentei o fato de que esse díptico de obras de Guimarães Rosa constitui uma
espécie de “Guerra e Paz” do sertão mineiro. O Grande Sertão é a história da grande guerra dos jagunços; Corpo de Baile, que tem raríssimas
explosões de violência, é um painel variado e pacífico desse mesmo sertão
quando não é assolado pela violência armada.
São
sete narrativas, que Rosa, com seu típico humor irreverente, classifica como “novelas”,
“romances” ou “poemas”, de modo intercambiável. Pouco importam os rótulos
acadêmicos. Cada leitor encontra em cada texto o que estiver procurando.
Campo Geral
É a primeira
narrativa. Uma história que tem a duração de alguns meses (ou poucos anos) da
infância do menino Miguilim, na fazenda do Mutum, com seus pais e irmãos. Miguilim
é um menino introspectivo, que pensa muito, tem uma relação difícil com o pai,
e uma amizade profunda com o irmãozinho Dito. A família passa por tragédias e
momentos difíceis. Um médico de visita à região percebe que Miguilim é míope,
empresta-lhe uns óculos, vê como a vida do garoto se ilumina. Ele simpatiza com
Miguilim e se oferece para levá-lo para a cidade e pagar seus estudos.
Uma estória de amor (A festa de Manuelzão)
O velho
vaqueiro Manuelzão mora na fazenda Samarra, como capataz e administrador. Solitário,
calejado pela vida de gado, Manuelzão manda construir uma capela na fazenda, e
a inaugura com uma grande festa. Ao longo de dois dias e duas noites, ele recebe
(e o autor descreve com fina percepção social e psicológica) dezenas de moradores
da região. Manuelzão tem um filho adulto e problemático, tem uma nora atraente,
tem um patrão onipresente e distante. Ao longo dessas noites de festa, reavalia
sua vida e suas relações pessoais, enquanto se prepara para sair novamente
conduzindo uma boiada.
A estória de Lélio e Lina
Lélio é um
vaqueiro jovem que chega para trabalhar na fazenda do Pinhém. Ele curte uma
desilusão amorosa e procura se consolar apaixonando-se sucessivamente por
várias moças da fazenda, cada uma delas com suas seduções e seus
inconvenientes. Fica amigo de uma senhora, D. Lina, com idade para ser sua mãe.
A fazenda é vendida para novos donos. Lélio e D. Lina acabam indo embora dali
para morar juntos, numa relação que o autor descreve à distância, sem revelar
muita coisa, mas mostrando como na vida real um rapaz de 25 anos e uma mulher
de 70 podem estabelecer o que Shakespeare descreveu como “um matrimônio de
almas sinceras”.
O Recado do Morro
Uma expedição
científica percorre uma região de Minas. O guia, Pedro Orósio, é um rapaz
hercúleo e simplório. A certa altura, perto do Morro da Garça, um velho eremita
diz ter escutado o morro falando, mandando um recado para eles. Durante o resto
da viagem, esse recado meio absurdo vai sendo repetido, deformado e passado de
boca em boca. Na volta, ele é transformado em canção e acaba servindo de aviso
a Pedro Orósio, revelando um plano para matá-lo, e isto salva sua vida. Guimarães
Rosa descrevia este conto, um dos mais vívidos e enigmáticos de sua obra, como
uma ilustração do processo pelo qual uma canção é composta.
Dão-Lalalão
A estória em
si dura menos de 24 horas, indo de uma tarde até a manhã seguinte. O fazendeiro
(ex-vaqueiro) Soropita mora como rei e senhor em sua fazenda num local remoto;
sua esposa, Doralda, é uma ex-prostituta pela qual ele se apaixonou quando a
encontrou num bordel de Montes Claros. Num dia comum, Soropita está voltando a
cavalo para casa quando encontra na estrada um grupo de vaqueiros, entre eles
seu amigo Dalberto. Convida Dalberto para pernoitar em sua fazenda. Sente
ciúmes da esposa, devido à presença de Dalberto. Na manhã seguinte desabafa sua
fúria e insegurança fazendo ameaças aos amigos deste. Este conto é uma das
melhores ilustrações do ciúme masculino em nossa literatura.
Cara-de-Bronze
Numerosos
vaqueiros se encontram na fazenda do velho Cara-de-Bronze, um fazendeiro riquíssimo
e recluso, meio paralítico. Estão juntando várias boiadas para viajarem juntas.
Comentam o fato de que o fazendeiro vive trancado num quarto, mas tem um
emissário, o Grivo, que viaja pelo sertão e lhe traz informações de todo tipo.
Nesta história, Guimarães Rosa usa um surpreendente arsenal de formas
narrativas: roteiro de cinema, peça de teatro, diálogo, versos de cantadores,
listas de plantas e de coisas da natureza do sertão.
Buriti
O veterinário
Miguel (o menino Miguilim de “Campo Geral”, agora adulto) visita duas fazendas
vizinhas e conhece seus donos: Nhô Gualberto, casado com uma mulher doente, e
Iô Liodoro, viúvo, que tem duas filhas e está hospedando uma nora, abandonada
por um dos seus filhos. É a história mais longa de todo o livro, e seu foco
narrativo passa por vários personagens. É contada do ponto de vista de Miguel,
e depois se transfere para o ponto de vista de duas moças, Glorinha (uma das
filhas) e Lalinha (a nora). Um personagem, Mestre Ezequiel, é um homem
excêntrico que de noite náo consegue dormir porque sente estar escutando todos
os barulhos das criaturas do mato, o que lhe dá a impressão de ser ameaçado por
inimigos invisíveis.
O sertão que
Guimarães Rosa descreve em Corpo de Baile
está mais próximo do universo variado e surpreendente de Sagarana (1946), o livro de estréia do
autor. Ali estão os enredos aparentemente simples mas cheios de labirintos e
sutilezas; os personagens rurais dotados de uma psicologia inesperadamente complexa,
num tempo em que a chamada “literatura regional” requentava retratos de
caipiras simplórios ou abrutalhados. E, acima de tudo, a linguagem
inesgotavelmente inventiva do autor, tirando um coelho novo da cartola a cada
frase.
Corpo de Baile era um
livro enorme, tanto que o próprio autor o subdividiu depois em três volumes que
podemos encontrar hoje nas livrarias: Manuelzão
e Miguilim (que inclui “Campó Geral” e “Uma estória de amor”), No Urubuquaquá, no Pinhém (“O Recado do
Morro”, “Cara de Bronze” e “A estória de Lélio e Lina”) e Noites do Sertão (“Dão-Lalalão” e “Buriti”).
