Na visão do poeta pernambucano, longe de ser um objeto perfeito que se dá por acabado, assim que finalizada a sua confecção, a obra de arte – seja ela uma pintura, seja a própria escrita de um texto em prosa ou poema –, encerra um processo infinito de elaboração, metaforizado nestes versos como uma porta que dá para um corredor e, daí, a outras portas.
Em sua linguagem notoriamente precisa no plano da racionalidade, alçada a uma precisa imagística arquitetural, Melo Neto sugere ao leitor que a arte é um processo, um caminho, não um destino, aberta em suas potencialidades, sobretudo conceituais, para evocar algo mais além de seus limites materiais.
Tenha-se em mente que uma obra de arte não existe de forma isolada, pois que se conecta com outras que a precederam, a inspiraram ou mesmo a contestaram, numa cadeia de significados que evolui no transcurso do tempo. Ou em outros termos: o artista há de plantar a semente do incomensurável em sua obra, sem saturar a tela de tons (ou a página de palavras), deixando assim espaços vazios (ou “portas ocultas”), que convidem o espectador (ou o leitor) a completar-lhe o sentido, a seguir em frente por essa trilha.
J.A.R. – H.C.
João Cabral de Melo Neto
(1920-1999)
A lição de pintura
Quadro nenhum está acabado,
disse certo pintor;
se pode sem fim continuá-lo,
primeiro, ao além de outro quadro
que, feito a partir de tal forma,
tem na tela, oculta, uma porta
que dá a um corredor
que leva a outra e a muitas outras.
Em: “Museu de tudo” (1974)
Hall com várias portas
(Imagem sem créditos)
Referência:
MELO NETO, João Cabral. A lição de pintura. In: __________. Poesia crítica: antologia. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio Editora, 1982. p. 8.
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