Tenho uma amiga francesa que foi professora no Liceu Francês de Lisboa durante anos e que me manda de vez em quando pelo Whatsapp artigos curiosos e divertidos. Um dia destes enviou-me um texto do jornal Ouest-France sobre a razão por que os mealheiros das crianças têm frequentemente o formato de porquinhos. Ora, fiquei surpreendida quando li que estes mealheiros remontam já ao século XVIII, altura em que não eram usados apenas por crianças, mas também por adultos. Na verdade, possuir um porco nessa altura era sinónimo de não correr risco de passar fome; quem tinha um porco tinha com que se sustentar e o porco era sinónimo de abundância para as pessoas do campo e uma reserva de alimento nos anos mais difíceis (um porco está cheio de partes comestíveis). De sinal de abundância a sinal de riqueza foi um passo: no século seguinte criar porcos tornou muitas pessoas ricas, uma vez que o porco cresce incrivelmente depressa e, numa economia rural, é um investimento seguro e eficaz (excepto se houver alguma praga que afecte os suínos). Conta-se ainda no texto que muitos camponeses ricos escondiam o ouro que possuíam dentro dos porcos, fazendo-os engolir moedas e outras peças, para não terem de pagar impostos sobre elas, mas isto já me parece um tanto improvável, pois imagino que o que entra sai e, francamente, não estou a ver os criadores de porcos a chafurdar no cocó das bestas diariamente à procura de cordões e luíses de ouro. De qualquer modo, ainda hoje o porco é um animal com forte dimensão simbólica em muitas culturas, entre as quais a chinesa, na qual incarna nada mais nada menos do que a fortuna. Um porquinho mealheiro é, por isso, um objecto simpático para as crianças... e os adultos... se habituarem a poupar, o que é um bom costume em tempos de consumismo desenfreado.
Mealheiro
Texto originalmente publicado em Horas Extraordinárias