The Wall, de Marlen Haushofer, é um dos melhores livros que li nos últimos anos.
Estou super feliz por editoras várias (Vintage, Antígona) estarem a continuar a editar a sua obra. Entretanto já li o Killing Stella e quero vir escrever sobre essa novella aqui em breve (a edição da Antígona terá mais que apenas a novella).
Mas, apesar de ser um dos meus favoritos, está longe de ser uma leitura agradável. A premissa é especulativa: uma protagonista, mulher de meia idade, que dá por si encurralada no meio dos Alpes (ou outras montanhas?) austríacos, encerrada pelo que aparenta ser uma muralha/parede transparente que encerra a casa de férias onde se encontrava e a paisagem em seu redor. Está sozinha com uma vaca, um cão e uma gata; a sua prima e o marido, que estavam com ela na casa, tinham pernoitado fora. Do que ela consegue ver (porque a parede é transparente), não há vida do outro lado.
O conceito é aterrador. A esta mulher, que está numa situação completamente desconhecida, resta-lhe sobreviver nestas circunstâncias, e descobrir como. E, ainda assim, ocasionalmente, consegue sentir alegria.
Esta mulher sem nome vai mantendo relatos e diários dos seus dias, com algumas memórias dos seus dias pré-parede; a sua vida era convencional, com um marido, duas filhas já adultas, uma vida na cidade, e nas entrelinhas lemos que nunca se sentira particularmente realizada, que sente mais falta de artes e de café do que dos humanos da sua vida, e que tem satisfação nos trabalhos mais físicos que faz agora que vive na natureza.
On the long walk back I thought about my former life and found it unsatisfactory in all respects. I had achieved little that I had wanted, and everything I had achieved I had ceased to want.
A nova forma de vida não parece ser recebida por esta mulher como sendo pior que a anterior: apenas diferente. Tanto a sua vida pré-parede como a sua vida pós-parede têm muita monotonia, mas a protagonista surpreende-se a si mesma com o seu planeamento e resiliência.
Ainda assim, há momentos profundamente tristes neste livro - a vida desta protagonista pode já não ter humanos, mas continua a ter animais, e estes dão-lhe propósito e ajudam ao seu instinto de sobrevivência. O final surpreendeu-me e chocou-me muito.
I often look forward to a time when there won't be anything left to grow attached to. I'm tired of everything being taken away from me. Yet there's no escape, for as long as there's something for me to love in the forest, I shall love it; and if some day there is nothing, I shall stop living.
The Wall lembrou-me um pouco do Moi qui n’ai pas connu les hommes, de Jacqueline Harpman, pela solidão e isolamento da protagonista, e por levantar algumas questões semelhantes sobre a vida sem ninguém em redor; porém, sendo que uma protagonista conhecia a vida “normal” e a outra não, as questões levantadas e as respostas (ou a sua ausência) acabam por tomar rumos diferentes.
Tradução de Shaun Whiteside
Se estiverem em Portugal, podem comprar esta edição via wook, ou a edição em português
No posts
