Um
dos grandes estilistas da literatura fantástica partiu o cordão e foi-se embora.
John Crowley era professor de literatura (Yale), roteirista premiado de
numerosos documentários. E foi, principalmente, um autor que ao invés de tentar
se apequenar para caber num gênero, ele expandiu o gênero para se ajustar aos
horizontes-de-expectativa da literatura contemporânea.
Escrevia
aquilo que a imprensa dos EUA chama de “ficção científica literária”, que para
alguns é uma contradição, um oxímoro; mas para mim é uma redundância tão grande
quanto escrever “samba musical”.
Tinha
uma imaginação imprevisível, e atravessava as fronteiras dos gêneros literários
como um automóvel passa através da chuva.
Meses
atrás terminei a leitura de Little Big (1981),
um romance imenso e seu livro mais famoso, aquele que Harold Bloom considerava
extraordinário. É um dos livros que aos meus olhos definem o gênero de
“fantasia urbana”: um tipo de narrativa fantástica que pode incluir magia,
entes sobrenaturais (elfos, ou outras coisas), mas que está ancorada numa
realidade urbana contemporânea, moderna.
Como
dizia um autor: “é aquele tipo de história em que as fadas viajam no metrô”.
Little, Big é a história da família
Drinkwater, uma família excêntrica que mora numa gigantesca casa de campo no
interior do Estado de Nova York. A família se relaciona com criaturas do reino
das fadas, peixes falantes, cartas de Tarô, pássaros e insetos inteligentes;
mas a história não tem nada de juvenil ou ingênua. É a história de uma família
em vagaroso envelhecimento, de poderes sobrenaturais que vão se esvaindo, e de
pessoas que se consideram reais até o momento em que começam a pensar que
aquilo é apenas uma grande Estória sendo contada por alguém.
Escrevi
mais longamente sobre este livro, aqui:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2025/01/5145-little-big-e-fantasia-urbana.html
Ele imaginava, às vezes, se existiriam diferentes nomes para diferentes tipos de sonho. Este sonho de agora pertencia ao tipo em que você parece estar contando uma história a alguém, e ao mesmo tempo vivenciando a história que conta.
(“In Blue”, trad. BT)
Crowley
começou sua carreira com romances de ficção científica, curtos e densos (The Deep, 1975; Beasts, 1976; Engine Summer, 1979),
propondo universos surpreendentes que tinham de ser decifrados passo a passo.
Isto o marcou como um “autor difícil”, e ele nunca pôde ser escritor em tempo
integral, teve que recorrer a outros empregos para se manter.
Compensou
parcialmente isto com o sucesso de Little,
Big, que ganhou o “World Fantasy Award” e o “Mythopoeic Award”, tornando-se
imediatamente um cult book nos EUA.
Talvez
sua obra mais ambiciosa seja o quarteto de romances “Aegypt”: Aegypt / The Solitudes (1987), Love & Sleep (1994), Daemonomania
(2000) e Endless Things (2007). Seu
tema é a magia Renascentista (de magos-filósofos como John Dee), aplicada ao
mundo moderno.
Tenho
um carinho especial por The Translator (2002),
a estória de um misterioso poeta russo (será ele um ser sobrenatural?) que vai
morar nos EUA e começa uma amizade com a jovem norte-americana a quem cabe
traduzir seus poemas para o inglês.
Comentei
aquilo este belo livro:
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/01/1590-o-transleitor-1742008.html
Outra
de minhas obras crowleyanas preferidas é a noveleta de viagem no tempo Great Work of Time (1989). Uma máquina
do tempo é inventada e um homem tem a chance de viajar para o passado, sabendo
que não vai poder carregar nada muito volumoso na volta. O que faz ele? Volta à
Guiana Inglesa em 1856 e se apossa de um exemplar do “selo magenta” emitido
naquele ano, e que agora é o mais raro e valioso do mundo.
O
cara quer apenas enriquecer, mas sua máquina do tempo acaba caindo nas mãos de
um grupo determinado a evitar a queda do Império Britânico. Viagens no tempo e
escaramuças entre grupos rivais se multiplicam. É uma grande aventura, e uma
reflexão sobre a História e o determinismo.
Não era apenas um mundo habitado por raças inteligentes de tipos distintos: era algo mais difícil de racionalizar. As vidas daquelas raças constituíam diferentes universos de significado, diferentes construções da realidade; Era como se quatro ou cinco diferentes romances, romances diversos escritos por autores com diferentes limitações, estivessem se penetrando uns aos outros e se confundindo. Dentro de um gigantesco romance russo brotava uma novela policial seca e cortante, e no interior desta algo que vagamente lembrava Charles Dickens, algo repleto de enredos e humor e excentricidade. Um tal entrelaçamento de universos mutuamente excludentes podia ser até cômico, como uma tirinha da revista semanal; e podia ser trágico. E podia também não ser nada disso, podia ser apenas a vida do jeito que era, aquele estado de coisas de encontro ao qual todas as imaginações viriam a ser medidas: a realidade.
(“Great Work of Time”, trad. BT)
Falei
que Crowley era um grande estilista, ou seja, “um cara que escreve bem”. No
mundo de hoje, “escrever bem” é visto muitas vezes como escrever de maneira enfeitada,
com palavras difíceis ou longos períodos intrincados, Convencionou-se que
escrever bem é escrever parecido com Machado de Assis; ou com Guimarães Rosa;
ou com Marcel Proust. Ora, escrever bem é como dançar bem: é conseguir o melhor
resultado possível com o corpo que se tem.
Aqui,
dei exemplos comentados do “escrever bem” de John Crowley. Um autor que deve
dar gosto de traduzir.
https://mundofantasmo.blogspot.com/2010/02/1602-eyeball-kicks-152008.html
Pensando
nisso, fui catar sua bibliografia no portal do ISFDB. Há apenas duas obras dele
traduzidas em português. A noveleta O
Manuscrito Perdido de Lord Byron, publicado em 2008 em Portugal pela Saída
de Emergência (trad. Isabel C. Penteado); e o belo conto “Snow” (“Neve”) que traduzi e incluí na minha
antologia Contos Fantásticos de Amor e
Sexo (Rio, Ímã Editorial, 2011).



