Nestes versos em redondilha maior, Cardozo evoca o encontro com o ocaso, pleno de uma beleza melancólica que se integra ao ciclo eterno do viver e do morrer, digo melhor, ao constante vaivém entre a criação, a decadência e a transformação final do corpo físico em regresso ao primigênio, numa fusão holística e reintegradora com a terra que o viu nascer.

Essa beleza se faz acompanhada pela dor; a ternura – a permear o lado mais sensitivo da existência – convive com a perda (enfatizada, no poema, pela anáfora alusiva ao cerrar dos olhos da amada); e todas as vicissitudes assimiláveis como passagem necessária para que o corpo humano possa recuperar a pureza de suas origens junto à mãe natureza – inelutável depositária de nossos sonhos, nostalgias e despedidas.

J.A.R. – H.C.

Agostinho da Silva: Retrato em preto e branco de um homem idoso usando um cachecol xadrez.

Joaquim Cardozo

(1897-1978)

Canção elegíaca

Quando os teus olhos fecharem

Para o esplendor deste mundo,

Num chão de cinza e fadigas

Hei de ficar de joelhos;

Quando os teus olhos fecharem

Hão de murchar as espigas,

Hão de cegar os espelhos.

Quando os teus olhos fecharem

E as tuas mãos repousarem

No peito frio e deserto,

Hão de morrer as cantigas;

Irá ficar desde e sempre,

Entre ilusões inimigas,

Meu coração descoberto.

Ondas do mar – traiçoeiras –

A mim virão, de tão mansas,

Lamber os dedos da mão;

Serenas e comovidas

As águas regressarão

Ao seio das cordilheiras;

Quando os teus olhos fecharem

Hão de sofrer ternamente

Todas as coisas vencidas,

Profundas e prisioneiras;

Hão de cansar as distâncias,

Hão de fugir as bandeiras.

Sopro da vida sem margens,

Fase de impulsos extremos,

O teu hálito irá indo,

Longe e além reproduzindo,

Como um vento que passasse

Em paisagens que não vemos;

Nas paisagens dos pintores

Comovendo os girassóis

Perturbando os crisântemos.

O teu ventre será terra

Erma, dormente e tranquila

De savana e de paul;

Tua nudez será fonte,

Cingida de aurora verde,

A cantar saudade pura

De abril, de sonho, de azul

Fechados no anoitecer.

Em: “Signo Estrelado” (1960)

William-Adolphe Bouguereau (artista): Pintura clássica de uma mulher nua debruçada sobre um pedestal com flores, ao lado de um pequeno cupido chorando.

Elegia

(William-Adolphe Bouguereau: pintor francês)

Referência:

CARDOZO, Joaquim. Canção elegíaca. In: __________. Poesias completas. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira; Instituto Nacional do Livro, 1971. p. 81-82. (Coleção “Poesia Hoje”; v. 20)