LIGHT-COCK-SONG
só para gênios, tímidos
e alguns porcos chauvinistas
desses que o padre vem me
benzer todo dia, e que quando
não vem ele cá vou eu lá:
Leva este caralho compra-me um maço
de cigarros Continental, umas cem
gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.
E se o dinheiro render, um lacinho de fita
de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,
vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se
esqueça que o alho é para um aglio-olio.
DEZENOVE DO OITO DE MIL NOVECENTOS E SETENTA & QUATRO
Não entendo nada desta janela fechada
que me aperta a culpa
Doer não faça mais,
nem sangra –
Consegui o que queria:
ser despedido, ficar perdido
falida e sozinha
olhando o pálido da Comedia.
Sei que eu me chamo Bel
Mel de paixão
doce da boca louca
de onde sangra o coração
e chora a hora
do leito vazio
da falta de peito
do jeito do beijo
fácil, difícil, sutil.
A verdade é que vivo a mil
sonhando a morte em azul-anil.
HORA SAGRADA
Te espero.
Sob o travesseiro
uma tesoura segura
o ouro
o Trigo
o abraço ligeiro
de quem tem cheiro
das coisas pagas
anãs sob o linho fino
o vinho rastreiro.
Faço a feira
vivo beirando a beira
da Orgia
que pia, escorrega,
cortando ligeiramente
a noite do dia que me alivia.
E aí só cria
meu mundo de fantasia
Agora vê se não chia
Você não é minha tia.
LENÇÓIS
Aos domingos se vai ao longo…
Lavam-se panos brancos e os
denominamos roupas de cama:
Roupas de baixo
Roupas de cima –
Coisas da Casa
Aos Domingos todos se cansam cedo:
há links matutinos
e muitos hinos.
Aos domingos há missa, música
entreveros. Há quem chore
nalguma hora e há também
possibilidades novas:
Há pares, bares, porres.
Aos domingos semeia
como lavadeiras
seus lençóis azuis/brancos
lúcidos dos dias de semana.
Para elas lençóis
Prata da Casa
Lençóis louça de porcelana
PECADORA
Devoro teu voo ó pássaro pleno
comendo tuas asas
Teu Deus
me absolve
Devoro este pássaro
em cujas asas me apreendo Plena
Deus de tantas lousas & dos que
não tenho olhos não os tenho para ver
E todos sabem é plenilúnio
é plena pele amaciando outra coisa pele
Teus olhos sejam meus olhos ó pássaro Deus.
Minha poesia não vale nada
minha fé se perde a todo instante
e passo contente feito não tivesse nada
com o passado o futuro sequer o presente.
Meu português não é de todo ruim
maldosa é a palavra labutada
dando quase em nada.
O pior português
foi aquele meu avô que pisava feliz suas vindimas
e se o vinho era meio azedado foi quando tomei
meu primeiro porre na adega de sete chaves
numa bela manhã tricordiana.
Quem nasceu para ferreiro tem o ditado:
espeto de pau. Fiquei tão feliz em ser bêbada
na adega do ferreiro seu Miguel.
O forte em mim no entanto são cordas de celos
e o de menos é tudo que acho saber.
Sou um arremedo arretado trespasse de espadachim
cheio de espirros acorrentados.
É que respirar faz tão bem aos pulmões!
2
Sou farta em tripés
e cheia de tripas sangrando
feito veias. Sou plena em Maomés
e conhecer faz-me doer tanto que esqueço o mistério.
Já fui carregada nua no meio da rua nua
arrombaram-me a casa
arrombaram-me a castidade (desde mocinha)
e chega.
Ser tão vulgo é um visgo.
Porém não o ser é perder-me de mim e morrer antes da hora.
Que foram antes tantas.
Gostaria de amar mas desaprendi.
Como todo tolo faço-me de poeta
P’ralegria não ficar triste e morrer de saudade ou pena.
Os suicidas merecem nada mais que o céu?
Isto devia ser escrito ou questionado?
Perigoso demais.
No mais a mais et coetecera
que de coleira nascemos.
Ai os que de nós houver, ver, vir e por amor não perecer
ROLANDO TOPOR (França, 1938-1997). Pintor, ilustrador, poeta, cançonetista, dramaturgo, encenador, cineasta e fotógrafo, artista impossível de catalogar, começou por destacar-se com os desenhos grotescos que publicou na revista satírica Hara-Kiri. Vencedor do Grand Prix de L’Humour Noir em 1961, bebeu dos surrealistas e respondeu-lhes com o movimento Pânico, que fundou com Fernando Arrabal e Alejandro Jodorowsky, entre outros. Em sua obra, Topor nos leva para um mundo do avesso, e a crueldade animalesca, o erotismo, a escatologia e a tétrica ironia das suas obras valeram-lhe o desprezo de críticos, vários projetos ruinosos e ameaças de morte quotidianas. Graças a uma sempre amável sugestão de João Antônio Buhrer, Rolando Topor agora está conosco como artista convidado desta edição da Agulha Revista de Cultura.
Agulha Revista de Cultura
Número 264 | março de 2026
Artista convidado: Rolando Topor (França, 1938-1997)
Editores:
Floriano Martins | floriano.agulha@gmail.com
Elys Regina Zils | elysre@gmail.com
ARC Edições © 2026
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