Mais que um ofício capaz de dar vazão ao gosto pelo manejo da pena, a escrita consiste numa espécie de travessia íntima e reveladora, com potencial para transformar tanto o escritor quanto o leitor, ao expor as aspirações, as contradições e os mundos internos que conformam a experiência humana: não se trata, obviamente, de um ato tão apenas mecânico, mas algo visceral que, convertendo-se em ideias, impõe transfiguração às palavras jungidas ao peso de nossos passos pelas sendas deste mundo.

 

Os versos do poeta comportam certa dinâmica inquietante, pois que despertam sensações entre o selvagem e o espontâneo, entre o perturbador e o remansado, entre o manifesto e o obscuro, entre o pulsar das palavras e o abismo por elas iluminado, como rebentos que guardam dentro de si tanto a quietude da terra quanto o estalo da semente ao romper-se.

 

J.A.R. – H.C.

 

Casimiro de Brito

(1938-2024)

 

O ofício

 

Escrevo para sentir nas veias

o voo da pedra.

 

Antecipação da paz

neste país de granadas

moldadas

no silêncio dos frutos.

 

Escrevo como quem escava

no bojo da sombra

um mar de claridade.

 

Pedras vivas de possibilidade,

as palavras levantam

o crime, os pássaros do pântano.

 

Escrevo

no grande espaço obscuro

que somos e nos inunda.

 

Em: “Jardins de Guerra” (1966)

 

Paisagem com árvore, pássaros e lua cheia

(Imagem sem créditos)

 

Referência:

 

BRITO, Casimiro. O ofício. In: COSTA E SILVA, Alberto da; BUENO, Alexei (Seleção, organização e introdução). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 325.