Este poema de Benedetti expõe o absurdo de se depender de um papel para se provar o óbvio – a existência humana –, reduzindo-a a um trâmite mediado por registros estatais: se equivalente o nomeado “certificado de existência” ao nosso RG, à Prova de Vida do INSS ou a outro documento assemelhado, pouco importa, o que o poeta busca satirizar, a sério, é a necessidade recorrente de uma validação burocrática para se convalidar o que, de si, é algo autoevidente.
Parece-lhe paradoxal a ideia de que a ausência de tal reconhecimento oficial possa equivaler, no plano social, à não-existência, implicando a desumanização de todos aqueles que o sistema não certifica e que, por conseguinte, ignora, lançando-os num processo de exclusão e de invisibilização social, numa censurável inversão de valores em favor de uma realidade “certificada”, em detrimento do sentido intrínseco de uma realidade de fato “vivida”.
J.A.R. – H.C.
Mario Benedetti
(1920-2009)
Cerificado de existencia
Ah ¿quién me salvará de existir?
(Fernando Pessoa)
Dijo el fulano presuntuoso /
hoy en el consulado
obtuve el habitual
certificado de existencia
consta aquí que estoy vivo
de manera que basta de calumnias
este papel soberbio / irrefutable
atestigua que existo
si me enfrento al espejo
y mi rostro no está
aguantaré sereno
despejado
¿no llevo acaso en la cartera
mi recién adquirido
mi flamante
certificado de existencia?
vivir / después de todo
no es tan fundamental
lo importante es que alguien
debidamente autorizado
certifique que uno
probadamente existe
cuando abro el diario y leo
mi propia necrológica
me apena que no sepan
qu estoy en condiciones
de mostrar dondequiera
y a quien sea
un vigente prolijo y minucioso
certificado de existencia
existo luego pienso
¿cuántos zutanos andan por la calle
creyendo que están vivos
cuando en rigor carecen del genuino
irremplazable
soberano
certificado de existencia?
En: “Las soledades de Babel” (1990-1991)
O cidadão
(Richard Hamilton: pintor inglês)
Certificado de existência
Ah, quem me salvará de existir?
(Fernando Pessoa)
Disse o fulano presunçoso
hoje no consulado:
obtive o costumeiro
certificado de existência.
Consta aqui que estou vivo,
de modo que basta de calúnias.
Este papel soberbo, irrefutável,
atesta que existo.
Se me encaro no espelho
e meu rosto não aparece,
aguentarei sereno,
imperturbado.
Não levo na carteira, porventura,
meu recém adquirido,
meu flamante,
certificado de existência?
Viver, afinal de contas,
não é tão fundamental.
O importante é que alguém,
devidamente autorizado,
certifique que um sujeito
comprovadamente existe.
Quando abro o jornal e leio
meu próprio obituário,
entristece-me que não saibam
que estou em condições
de mostrar em qualquer lugar,
a quem quer que seja,
um vigente, prolixo e minucioso
certificado de existência
Existo, logo penso.
Quantos beltranos andam pela rua
acreditando que estão vivos,
quando a rigor carecem do genuíno,
insubstituível,
soberano,
certificado de existência?
Em: “As solidões de Babel” (1990-1991)
Referência:
BENEDETTI, Mario. Certificado de existencia. In: __________. Antología poética. Introducción de Pedro Orgambide. Selección del autor. 4. ed., 8. reimp. Madrid, ES: Alianza Editorial, 2017. p. 291-292.
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