Com spoiler total.
“Língua Nativa” é um livro muito interessante, recomendo, vale a pena ler.
A história se passa entre os anos de 2180 e 2205, aproximadamente. “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, de 1985, apresenta algumas semelhanças com “Língua Nativa”. Neste, as mulheres em todo o mundo perderam seus direitos. A humanidade estabeleceu contato e comércio com diversas comunidades de humanóides da galáxia e a comunicação com as línguas extraterrestres é feita por famílias de linguistas extremamente dotados para o aprendizado de línguas. Existem 13 famílias de linguistas no mundo todo e muito trabalho a ser feito em tratados de comércio e de diplomacia. Por isso, as mulheres linguistas, apesar de terem pouquíssimos direitos, trabalham da mesma forma que os homens linguistas. O chamado “povo leigo”, os não-linguistas, odeiam os linguistas por preconceito e por inveja da riqueza que eles acumulam. As mulheres do “povo leigo” são donas de casa, em geral, e mais algumas poucas profissões como enfermeiras e cuidadoras. As donas de casa mais valorizadas são aquelas que passam por uma “escola de esposas”.
Cada família de linguistas vive toda junta, em um mesmo terreno e, principalmente, em uma enorme casa principal. Os homens se ocupam com as traduções e com as negociações com os governos, com os contratos deles e das mulheres, com o controle do dinheiro. As muitas mulheres se ocupam com o trabalho de tradução e o cuidado com a casa, com as crianças e com as mulheres mais velhas. O dinheiro que se recebe do trabalho delas vai para o fundo comum da família e elas recebem um pouco para as despesas pessoais. As crianças dos linguistas são preparadas desde bebês para o aprendizado de diversas línguas terrestres e alienígenas. Esse aprendizado se dá por convivência: desde bebês, elas convivem durante algumas horas com um alienígena humanóide. Quando se tornam proficientes em uma língua alienígena, elas já começam a trabalhar. Não há tempo livre para as mulheres e crianças linguistas. As mulheres linguistas devem procriar a cada dois anos pois a necessidade de novas crianças linguistas para o mercado é constante e crescente. As mulheres velhas e as estéreis não vivem na casa principal e sim em uma “Casa Estéril” no mesmo terreno. Os homens, linguistas ou não, desprezam as mulheres que são vistas como seres inferiores.
O enredo acompanha algumas situações paralelas. Thomas Chorniak é o chefe da família Chorniak e também o “diretor-geral” de todas as 13 famílias. Apesar de ser “do mal” e partilhar a mesma visão geral sobre as mulheres, ele é um personagem simpático – para mim – às voltas com problemas das famílias e do governo. Em certa medida, ele é um contemporizador. Entretanto, decide casar uma das filhas, Nazareth, aos 15 anos, para que ela possa procriar mais – e ela é uma das mais inteligentes linguistas – e casá-la com um excelente reprodutor de outra das famílias linguistas, para que eles possam ter bebês da melhor qualidade. E Nazareth odeia o rapaz escolhido. Thomas Chorniak também trata com um grupo do governo que busca aprender línguas de alienígenas não-humanóides. Os linguistas afirmam que não é possível aprender tais línguas, mas o grupo testa as experiências mais bizarras com bebês e sempre dá errado – a maior parte dos bebês morre de forma terrível ao ter contato com o alienígena não-humanóide; daí, vez em quando eles consultam Thomas, a quem, naturalmente, odeiam.
As mulheres da Casa Estéril estão distantes das vistas dos opressores e são um pouco mais livres – embora presas ao trabalho e à família. Essas mulheres se comunicam entre as Casas das várias famílias por meio de códigos em receitas. Elas também estão secretamente ocupadas em criar uma língua própria, da qual os homens não terão conhecimento nem compreensão. Para iludir os homens, elas trabalham em um projeto inútil e sem fim de língua, que chamam de linglês e é super-complicada. No segredo, desenvolvem a língua mulheril verdadeira que chamam de láadan. Nazareth, desde adolescente, desenvolve elementos relevantes para a língua mulheril – mas sem saber que a real é o láadan. As mulheres da Casa Estéril ficam ansiosas para que Nazareth seja, um dia, recolhida à Casa para colaborar com a finalização do láadan.
Paralelamente, um homem do povo leigo se casa com uma mulher formada na escola de esposas – claro que a família pagou uma fortuna por ela. Michaela, belíssima, é perfeita, tudo que ele queria. Todavia, depois que eles tiveram um bebê, Michaela passou a dar mais atenção ao bebê do que ao marido. Daí, o rapaz vendeu o bebê para o grupo governamental que faz os testes com alienígenas não-humanóides. Michela se comporta como se nada tivesse acontecido, mas, dias depois, prende o marido em um cômodo com vespas, ele era alérgico, o cara morre e ela fica livre, sem qualquer suspeita. Michaela vai trabalhar como cuidadora de velhos linguistas e depois de um tempo é contratada por Thomas para ajudar com os cuidados para as velhas linguistas da Casa Estéril – as mais velhas, quase acamadas, são tratadas pelas outras mulheres e pelas crianças. Michaela percebe que há um segredo referente a uma língua de mulheres, mas não entende bem o que é. O tempo vai passando, Michaela passa a cuidar do velho pai de Thomas e passa a ser amante dele – ela se torna necessária a Thomas e continua na casa principal depois da morte do velho.
Nazareth, aos quarenta e poucos anos, já pariu uns sete filhos para o trabalho da família, e surge com um tumor; faz uma cirurgia e resulta estéril. O marido que a ignorava e que ela odeia, a envia para a Casa Estéril e se casa com uma mais nova da mesma família Chorniak. Na Casa, as mulheres contam a Nazareth sobre a láadan; ela analisa a documentação da língua e declara que, mesmo imperfeita, a láadan está pronta para ser posta em prática – as mulheres estavam com medo de iniciar o uso e o ensino da língua. As mulheres das Casas Estéreis das famílias linguistas passam a usar a láadan e a ensinar as meninas mais novas; a língua vai se tornando comum às mulheres e sendo aperfeiçoada com o uso. As linguistas planejam passar a língua para as mulheres leigas.
Tempos depois, no aniversário de setenta anos de Thomas, os principais líderes de todas as famílias se reúnem na casa dos Chorniak para a comemoração. Entre as conversas, todos concordam que as mulheres estão diferentes: não há mais discordâncias, reclamações – por outro lado, estão distantes, indiferentes. Mas concordam que mulheres que não reclamam de nada é muito bom. Entretanto, Thomas investiga e percebe que as mulheres estão se comunicando entre si e percebe as ameaças de tal fato, até mesmo uma possível revolução das mulheres. Thomas se retira ao final da festa e chama Michaela ao seu escritório. Ele passa um bom tempo discorrendo raivosamente para Michaela sobre o que descobriu e que vai tomar medidas imediatas: vai acabar com as Casas Estéreis de todas as famílias, trazer as mulheres para o teto principal e mantê-las sobre estrita vigilância. Michaela concorda com ele e o incentiva – mas percebe, enfim, que a língua mulheril vai morrer. Quando Thomas dorme, ela aplica nele uma injeção que o mata; ela não foge, sabe que será presa, mas salvou o esforço das mulheres.
Posteriormente, o filho de Thomas assume a liderança de todas as famílias. Em assembleia, os líderes discutem o que fazer com o novo comportamento das mulheres: o lado positivo é bem-vindo, mas o distanciamento, a indiferença os incomoda cada vez mais; parece que as mulheres se transformaram em autômatos. Eles não perceberam os perigos antevistos por Thomas. Então decidem que as mulheres das casas principais irão residir em uma Casa Mulheril, o mais próximo possível das Casas Estéreis – é um verdadeiro presente para as mulheres e uma possibilidade de revolução no futuro.
As falhas do enredo. A falta de desenvolvimento da vida de Rachel, mãe de Nazareth, esposa de Thomas, personagem marcante que desaparece. Nem mesmo quando Nazareth vai para a Casa Estéril, Rachel é mencionada – visto que deveria estar lá também. A morte abrupta de Thomas que conduza ao final abrupto do romance. A espera de mais de trinta anos – dos dezoito de Nazareth até os quarenta, quando ela vai para a Casa – para que as mulheres se decidam a divulgar a láadan, como se somente Nazareth pudesse reconhecer o momento adequado.