Zendaya: Retrato da atriz Zendaya caracterizada para uma produção cinematográfica, vestindo trajes beges com um manto sobre a cabeça em um cenário que remete a um barco antigo.
Vá agora mesmo ler uma tradução da Odisseia.

Olá, pessoal!

Os dias têm sido bem curiosos para os helenistas e estudiosos de poesia grega.

De repente a Odisseia virou hype: está na moda falar de Homero. Tudo por causa do da nova produção hollywoodiana do famosíssimo Cristopher Nolan & elenco estelar.

Abro o feed das redes sociais e vejo discussões inúmeras de pessoas dizendo como devem ser a aparência de Helena, de Aquiles, etc.

Tem algo de interessante nisso, que só reforça, para mim a ideia de que o poema é um clássico: ele permanece. Às vezes chega até nós primeiro pela sua recepção, pelas leituras e interpretações que ele acumulou. O Clássico persiste. Por esse motivo, ele sempre parece familiar, mesmo quando não o acessamos diretamente.

Esse é uma das definições propostas por Italo Calvino, em Por que ler os clássicos: “Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente a repele para longe”. Daí podemos tirar duas ideias muito interessantes: toda a primeira leitura de um clássico é, de algum modo, uma releitura; e toda a releitura pode ser, sempre e a cada vez, uma descoberta.

A leitura de um clássico pode nos surpreender, fazer que vejamos de outra maneira as coisas que tínhamos como certas a seu respeito e nos levar a perguntar se esses significados que (re) descobrimos já estavam lá, em germe.

O filme de Christopher Nolan, que estreou nesta semana, acrescenta mais uma leitura à longa história de recepção da obra, e tudo indica que será um grande sucesso. Ainda assim, sempre haverá aquele momento em que é só você e o poema de Homero. Seu clássico e os sentidos que só ele fará ressoar em você.

Felizmente, a Odisseia já foi muito traduzida em português. Talvez seja o poema da Antiguidade Clássica mais traduzido no Brasil. A primeira, de Odorico Mendes, foi feita no século XIX e publicada em 1928. A mais recente saiu no ano passado. E há mais a caminho.

É sempre muito legal ver essa diversidade: nunca é demais dispor de várias traduções de um poema, pois isso nos permite escolher aquela mais adequada aos nossos propósitos e gostos pessoais. Elenco aqui em ordem cronológica as principais traduções disponíveis no mercado, com o trecho inicial de cada uma e alguns comentários. Muito do material que aqui apresento retoma e desenvolve observações de outro texto que escrevi anteriormente, sobre a Ilíada.


A tradução de Odorico Mendes (1928)

Capa do livro Odysséa de Homero de Manuel Odorico Mendes

Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
Por segurar a vida e aos seus a volta;
Baldo afã! Pereceram, tendo, insanos,
Ao claro Hiperiônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.

No século XIX, Odorico conseguiu um feito incomparável. Traduziu todo os poemas de Virgílio e, em seguida, a Ilíada e a Odisseia. Em versos decassílabos, criou uma Odisseia poeticamente autônoma, com versos belíssimos. Sua tradução resgata a melopeia do poema original em muitas passagens felizes e produz um poema de dicção solene e elevada (até mais do que o próprio poema em grego, cujos registros são mais variados!).

É uma tradução feita no século XIX, para leitores do século XIX e moldada pela imagem que, naquela época, se tinha de um poema épico. Mesmo assim, ler Odorico hoje é ter uma verdadeira lição de poesia e uma experiência estética do mais alto nível. Além do incontornável valor histórico devemos ver em Odorico uma aula de poesia: sua tradução, atenta à sonoridade e à concisão, consegue ter menos versos que o original grego!

Contudo, um leitor de primeira viagem (seja de Homero, seja de poesia em geral) deve ficar atento: essa talvez não seja a porta de entrada mais simples para o poema.

Onde encontrar: a tradução está em domínio público e pode ser encontrada online, como aqui. Justamente por essa razão, já foi publicada por muitas editoras. Em sebos, você encontra edições antigas da Atena Editora (1955), Edusp (1992), Martin Claret (2000) e Pradense (2003).

Nas livrarias, a Editora Principis também reeditou esta tradução: primeiro em 2021, e depois em 2025, em uma nova versão com capa chamativa:

Capa do livro Odisseia de Homero

É a opção econômica (R$ 49,90), mas o leitor não se iluda: a edição reproduz o texto publicado pela Editora Atena em 1955, sem notas contextuais ou qualquer informação adicional.

Entre todas essas edições, recomendo a da Edusp: uma edição muito bonita, preparada pelo saudoso Prof. Antônio Medina Rodrigues, que lecionou língua e literatura grega na USP. A edição traz o texto anotado e comentado, ao lado de uma rica introdução sobre a história do texto e da tradução.


A tradução de Carlos Alberto Nunes (1941)

Capa do livro Odisseia de Homero

Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia;
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes,
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma,
para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta.
Os companheiros, porém, não salvou, muito embora o tentasse,
pois pereceram por culpa das próprias ações insensatas.
Loucos! que as vacas sagradas do Sol Hiperiônio comeram.
Ele, por isso, do dia feliz os privou do retorno.
Deusa nascida de Zeus, de algum ponto nos conta o que queiras.

A segunda tradução da Odisseia publicada no Brasil saiu na década de 40,realizada pelo maranhense Carlos Alberto Nunes.

É uma bela tradução, marcada por um projeto notável: Nunes busca recriar em português o movimento rítmico do hexâmetro datílico, verso original do poema, em português.

Aproveito, antes de tudo, para desfazer um equívoco muito difundido em alguns círculos: há quem diga que a tradução de Nunes é a “mais fiel” porque usa o “verso original” de Homero. Esse juízo é impreciso.

O hexâmetro grego não se define por um número fixo de sílabas, mas por uma sequência variável de sílabas longas e breves. Dependendo da combinação, o verso homérico pode ter entre doze e dezessete sílabas. Nunes transpõe essa estrutura quantitativa para um verso acentual mais regular, com dezesseis sílabas. Não é, portanto, o “verso original”: isso seria impossível, sendo o português uma língua de natureza tão diferente do grego. Portanto, o que Nunes faz é uma adaptação portuguesa da moldura rítmica do poema grego.

O resultado é uma Odisseia mais vagarosa que a de Homero, cuja regularidade pode, por vezes, tornar a leitura monótona, mas que tem o mérito de ser a que mais aproxima o leitor da pulsação do hexâmetro.

É uma tradução que convida o leitor a vocalizar o texto, às vezes tendo que forçar um pouquinho para evidenciar o ritmo e assim evitar que o verso soe como prosa.

Em maio de 2026, o Clube de Literatura Clássica enviou aos seus assinantes uma reedição desta tradução. Embora veiculada como uma edição “inédita” e “original” trata-se substancialmente da mesma tradução publicada originalmente em 1941 e disponível em sebos e livrarias por outras editoras.

Onde encontrar: edições da Editora Atena (1941), Melhoramentos (1962, 1964), Tecnoprint e Ediouro, no selo “Universidade de Bolso”, sob o título “Odisseia em versos” (1985, 1987, 2004) podem ser facilmente encontradas em sebos. Edições recentes foram publicadas pela Hedra (2011, R$ 129), pela Saraiva de Bolso (2011, apenas em sebos),pela Nova Fronteira (2015, R$ 74,90), pelo Sétimo Selo (2022, R$ 99) e pelo Clube de Literatura Clássica (2026, apenas para assinantes).


A tradução de Jaime Bruna (1968/2013) e outras traduções em prosa

Capa do livro Odisseia de Homero
Musa, narra-me as aventuras do herói engenhoso, que após saquear a sagrada fortaleza de Troia, errou por tantíssimos lugares vendo as cidades e conhecendo o pensamento de tantos povos e, no mar, sofreu tantas angústias no coração, tentando preservar a sua vida e o repatriamento de seus companheiros, sem, contudo, salvá-los, mau grado seu; eles perderam-se por seu próprio desatino; imbecis, devoraram as vacas de Hélio, filho de Hipérion, e ele os privou do dia do regresso. Começa por onde te apraz, deusa, filha de Zeus, e conta-as a nós também.

A Odisseia teve muitas traduções em prosa em língua portuguesa, sobretudo entre as décadas de 1960 e 1980. Embora a tradução de Carlos Alberto Nunes tenha se consolidado como a principal tradução em versos do século XX (novas traduções em verso só surgiriam no início do século XXI), as traduções em prosa também ocuparam um espaço importante no mercado editorial. Entre elas, está a primeira tradução integral em português feita por uma mulher, a de Neyde Ramos de Assis (em parceria com G.D.Leoni).

Tenho notícia de quatro traduções desse período: a de Eusébio Dias Palmeira e Manoel Alves Corrêa foi a primeira delas, publicada pela Editora Sá da Costa, de Portugal, em 1938; Depois veio a tradução dos já mencionados G.D.Leoni e Neyde Ramos de Assis, então professores de latim na PUC-SP. Infelizmente, essas duas traduções não tiveram reedições recentes e são, portanto, muito difíceis de encontrar.

Em 1960 foi lançada a tradução de Antônio Pinto de Carvalho, ex-professor da Universidade de Lisboa. A versão teve grande grande circulação no Brasil, sendo primeiramente publicada na coleção Clássicos Garnier, da Difusão Europeia do Livro (1960) e depois reeditada diversas vezes em coleções populares, como as da Editora Abril Cultural (1979, 1981, 1986) e da Nova Cultural (2002). Por causa dessas republicações, talvez seja a tradução da Odisseia mais facilmente encontrada em sebos. Por fim, em 1968 a Editora Cultrix publicou a tradução de Jaime Bruna, ex-professor de latim da USP.

Ainda existe hoje certo preconceito contra traduções em prosa dos poemas homéricos, prática muito mais comum no passado. O argumento que vejo por aí é que, sendo o original composto em versos, uma tradução em prosa necessariamente faria concessões e adaptações excessivas. Entretanto, traduções em prosa são interpretações tão válidas quanto as traduções poéticas mais consagradas.

Por um lado, uma boa prosa pode recuperar, até com mais habilidade do que algumas traduções em verso, a clareza, a fluência, o andamento e a agilidade da poesia homérica; por outro, a ausência de metrificação não implica, necessariamente, ausência de poesia. Como já dizia o velho Aristóteles, o simples emprego do metro não basta para definir uma composição poética. Um bom prosador consegue recriar a cadência, os efeitos sonoros e as mudanças de registro do original, enquanto traduções submetidas a esquemas métricos rigorosos podem ser ver obrigadas a sacrificar, em nome da concisão, parte da clareza, da fluência ou mesmo do andamento do poema.

Entre astraduções em prosa, recomendo especialmente a de Jaime Bruna, um verdadeiro fenômeno editorial, reeditada por décadas (a edição mais recente de que tenho notícia é de 2013). É uma tradução sóbria e elegante. Bruna foi um professor e tradutor erudito que verteu muitas obras da literatura clássica para o português, sempre com o intuito de difundir e tornar acessível a literatura antiga. Se você quer uma tradução ágil, confiável, feita diretamente do grego, e quer conhecer, antes de tudo, a narrativa do poema, eu não hesito em recomendar a versão de Jaime Bruna.

Uma ressalva: talvez você encontre em sebos uma Odisseia - em forma de narrativa, publicada pelo selo “Universidade de Bolso”, da Ediouro. Trata-se da tradução de Fernando C. de Araújo que, embora seja anunciada como uma tradução em prosa (“forma de narrativa”) é antes uma adaptação muito livre do poema homérico.

Ainda em 2026, na esteira do lançamento do filme, chegam ao mercado duas novas traduções em prosa: uma publicada pela editora Atlantis, sem indicação do tradutor.

Onde encontrar: nas livrarias, a edição de Jaime Bruna, da Cultrix (R$ 71,90); outras edições, em sebos.


A tradução de Donaldo Schuler (2003)

Capa do livro Odisseia de Homero
O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado, que muitos
males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra.
Viu cidades e conheceu costumes de muitos mortais. No
mar, inúmeras dores feriram-lhe o coração, empenhado em
salvar a vida e garantir o regresso dos companheiros. Mas
não conseguiu contê-los, ainda que abnegado. Pereceram,
vítimas de suas presunçosas loucuras. Crianções! Forraram
a pança com a carne das vacas de Hélio Hipérion. Este os
privou, por isso, do dia do regresso. Das muitas façanha,
Deusa, filha de Zeus, conta-nos algumas a teu critério.

Em 2003, Donaldo Schuler, professor de língua e literatura grega da UFRGS e tradutor, publicou pela L&PM sua tradução da Odisseia, em 3 volumes. Em 2021, essa mesma tradução foi republicada em volume único, mas sem o texto grego que acompanhava a primeira edição.

Schuler defende que a linguagem de Homero é fluente e que a tradução deve procurar reproduzir essa fluência. Por isso, ele evita construções sintáticas arrevesadas e vocábulos demasiadamente eruditos. Esse princípio, por si só, já confere valor ao trabalho: apesar de ser altamente artificial e formada por uma tradição poética oral antiquíssima, a linguagem homérica possivelmente não oferecia grandes dificuldades para seu público original.

Donaldo cria, assim, um texto repleto de expressões cotidianas, que surpreendem seu leitor pela ousadia. Por esse motivo, a sua tradução não encontra paralelos em língua portuguesa: pela atualização radical da linguagem, talvez o trabalho que mais se aproxime do seu seja a tradução em inglês de Emily Wilson, embora a versão de Schuler seja extrema.

O leitor vai encontrar um Homero que fala por meio de expressões populares. No Canto IV, verso 397, por exemplo, Schuler traduz ἀργαλέος γάρ τ’ ἐστὶ θεὸς βροτῷ ἀνδρὶ δαμῆναι por “Dominar um imortal não é sopa”. Ao pé da letra, o verso diria: “É difícil, para um homem mortal, dominar um deus imortal”. No Canto V, verso 211, Calipso afirma a Odisseu: “não sou de se jogar fora”, tradução de οὐ μέν θην κείνης γε χερείων εὔχομαι εἶναι, isto é: “afirmo que não sou inferior a ela”, referindo-se a Penélope.

A tentativa de fazer um Homero plenamente oralizado e fluente é digna de nota; mas é preciso observar que fluência da poesia homérica está longe de ser um sinônimo de coloquialidade. Sua linguagem é simultaneamente elevada, distanciada e elaborada, por serem o resultado de anos de tradição poética oral. Em alguns momentos, Donaldo perde um pouco isso de vista e rebaixa o registro até o baixo calão, como na fala do Ciclope para Odisseu (Canto IX, versos 273-276):

“‘Deixa de ser burro! Vê-se que não sabes nada
daqui. Queres que eu me dobre, puxe o saco dos
deuses? Que Zeus vá à merda. Nós, os ciclopes, 
cagamos no poder dele. Um peido na fuça dos
 lá de cima”

Em uma tradução mais literal:

“És tolo, estrangeiro, ou chegaste de longe
 tu que me ordenas temer ou evitar os deuses.
 Pois os Ciclopes não se preocupam com Zeus, o portador da égide
 nem com os bem-aventurados deuses, uma vez que somos muito mais fortes”.

Para alguns leitores, essa atualização tornará a cena mais imediata e divertida; para outros, apagará parte da dimensão histórica e poética de Homero.

Por essa radicalidade, a tradução de Schuler é, ainda hoje, única. Quem procura uma dicção solene ou uma reprodução rigorosa do estilo homérico, pode se frustrar. Mas não deixa de ser uma opção para quem busca uma tradução ágil e irreverente, algo totalmente distinto de todas as versões em português que dispomos.

Onde encontrar: edição em 3 volumes da L&PM (atualmente, o Volume 1 encontra-se esgotado); edição integral da L&PM (R$ 79,90)


A tradução de Trajano Vieira (2011)

Capa do livro Odisseia de Homero

O homem multiversátil, Musa, canta, as muitas
errâncias, destruída Troia, pólis sacra,
as muitas urbes que mirou e mentes de homens
que escrutinou, as muitas dores amargadas
no mar a fim de preservar o próprio alento
e a volta aos sócios. Mas seu sobre-empenho não
os preservou: pueris, a insensatez vitima-os,
pois Hélio Hiperiônio lhes recusa o dia
da volta, morto o gado seu que eles comeram.
Filha de Zeus, começa o canto de algum ponto!

As traduções de Trajano Vieira são asumidamente transcriações poéticas do original. Herdeiro da visão de poesia desenvolvida por seu mestre, Haroldo de Campos, Vieira é um tradutor prolífico e premiado. Sua transcriação da Odisseia, vencedora do Prêmio Jabuti em 2012, busca sempre criar um poema dotado de força e autonomia em português.

É importante ressaltar, aliás, que cada projeto tradutório de Vieira adota uma estratégia diferente: enquanto sua Ilíada busca um equilíbrio entre a instigante melopeia homérica e um andamento sintático que remete à prosa, sua Odisseia é mais radical e inventiva.

Seguindo a solução de Haroldo de Campos na sua tradução da Ilíada, Vieira adota o dodecassílabo para verter o hexâmetro datílico homérico. A escolha se deve ao fato de este metro ser um dos mais longos e consolidados da tradição poética em português, capaz de acomodar uma quantidade significativa do conteúdo do hexâmetro homérico e, ao mesmo tempo, preservar a expressividade e a concisão próprias da linguagem poética.

O resultado recupera muito da sonoridade do poema grego. Não se pode negar que Trajano está atento a cada reincidência vocálica, às aliterações, aos jogos de palavra e às mudanças de tom do verso homérico. Vejam o trecho abaixo, em que Atena descreve a Zeus o sofrimento de Odisseu na ilha de Calipso (Canto I, versos 55-57):

Ela retém o herói em lágrimas na ínsula
com afago na fala que enfeitiça, a fim
de que deslembre Ítaca, mas Odisseu,
saudoso da fumaça que o terreno pátrio
exala, quer morrer. Teu coração não vibra
de comoção?  Acaso o itácio descumpriu
rituais na vastidão troiana junto a naves
argivas? Odisseu instiga o ódio teu? 

A sequência “afago na fala que enfeitiça”, marcada pela recorrência dos sons de “f”, produz uma musicalidade que recria o caráter e o tom encantatório do grego, que diz, num verso também aliterativo, μαλακοῖσι καὶ αἱμυλίοισι λόγοισι (malakoîsi kai haimylíosi lógoisi, “com falas suaves e sutis”). A alternância dos apoios rítmicos também confere rapidez e fluidez, enquanto soluções como “deslembre Ítaca” condensam o conteúdo do grego de maneira clara e inventiva.

Para recriar ao máximo os efeitos do poema grego, Vieira não se furta a usar neologismos ( a influência de Haroldo e de Odorico Mendes são declaradas) nem mesmo a vernaculizar palavras gregas ou simplesmente mantê-las na forma original. Isso gera soluções bonitas; muitos falam, por exemplo, da expressão “mar talássio”, em que “talássio” é apenas a vernaculização da palavra grega para o mar, thálassa, recuperada sobretudo por sua riqueza sonora.

O mesmo expediente também rende soluções curiosas, que parecem condicionadas apenas pelo preenchimento das exigências métricas e rítmicas do dodecassílabo, como por exemplo o verso 451 do Canto IV, no qual o simples sintagma “focas bem nutridas”(φώκας ζατρεφέας) se transforma em um curioso “o grupo obeso dos focídeos”. Igualmente inesperada é a convocação da deusa Atena para que os Feácios conheçam Odisseu, recém-chegado a suas terras, nos versos 11 e 12 do Canto 8: “Hegêmones, feácios conselheiros, ide/conhecer o alienígena recém-chegado”.

Além disso, a concisão demandada pelo dodecassílabo impede Vieira de manter sistematicamente os epítetos convencionais da poesia homérica, um dos traços fundamentais de sua dicção. Em alguns momentos, os epítetos são simplesmente omitidos (mesma lição seguida por Haroldo e Odorico Mendes) em outros, são adaptados conforme a conveniência métrica. Atena, por exemplo, pode ter olhos ora “azuis”, ora “glaucos” ou “blaus”.

Tudo somado, a Odisseia traduzida por Trajano é indicada para um leitor que deseja uma Odisseia sonora, concisa e verbalmente ousada — ainda que esta ousadia aponte, às vezes, primeiro para a engenhosidade do tradutor do que para a cena narrada e se sobreponha à clareza do poema. Ao leitor disposto, contudo, é uma experiência poética das mais divertidas e estimulantes em português.

Onde encontrar: A Editora 34 publicou esta tradução em dois formatos: em uma edição bilíngue, com o grego e o português (2011, R$ 157) e em uma edição monolíngue de bolso (2013, R$ 82).


A tradução de Frederico Lourenço (Companhia das Letras, 2011/2023)

Capa do livro Odisseia de Homero
Fala-me, Musa, do homem versátil que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu;
e foram muitas no mar as dores que sofreu em seu coração
para salvar a vida e o regresso dos companheiros.
Pereceram devido às suas próprias loucuras,
tolos, que o gado de Hiperíon, o Sol,
comeram; e este lhes negou o dia do regresso.
Destas coisas, a partir de um ponto qualquer,
ó deusa, filha de Zeus, fala-nos também a nós.

Talvez a tradução mais difundida de Homero no Brasil seja uma tradução portuguesa. Publicada originalmente em Portugal, em 2003, chegou ao Brasil em 2011, pela Penguin-Companhia. Em 2019, Lourenço publicou pela Quetzal uma versão inteiramente revista, acompanhada por um vasto conjunto de notas e comentários, que foi lançada no Brasil pela Companhia das Letras em 2023.

O projeto de Lourenço não é propriamente métrico. Seus versos são livres e ficam muitas vezes próximo da prosa. No entanto, procuram respeitar a divisão do original: na maior parte dos casos, cada hexâmetro grego corresponde a um verso português. Quando isso não é possível, o tradutor desdobra o conteúdo em uma segunda linha, identificada pela letra “b”, mantendo assim uma correspondência visual muito útil entre original e tradução sem precisar comprimir ou expandir sistematicamente o texto.

É importante notar que Lourenço não tem um projeto de emular a sintaxe homérica: quando o português pode resultar em uma frase muito estranha, ele reorganiza seus elementos em prol da clareza. Basta observar os primeiro verso do proêmio: “Fala-me, Musa, do homem versátil”; comparando com a solução de Christian Werner, “Do varão me narra, Musa, do muitas-vias”, podemos notar que Lourenço reorganiza a frase para que ela se apresente ao leitor com naturalidade. “Homem versátil”, sua tradução de ándra polýtropon, mantém, ao mesmo tempo, certa naturalidade, sem se valer de neologismos ou paráfrases.

Outro verso esclarecedor do método é o terceiro do Canto I: “De muitos homens viu as cidades e a mente conheceu”. Esse verso explica o equilíbrio e a sobriedade do projeto de Lourenço: seria mais fácil ele dizer que Odisseu “conheceu as cidades e a mente de muitos homens”. Mas ele conserva a ordem das palavras e as ênfases do verso homérico sem dificultar a compreensão. Ele aproxima o leitor da estrutura do grego, desde que essa aproximação não ameace a fluência.

Isso não significa que sua linguagem seja neutra ou sem elaboração. Há expressões que conservam ornamentações próprias da dicção épica: “morte escarpada”, “mar nunca vindimado”, “palavras apetrechadas de asas”, “Aurora de róseos dedos” e “Atena de olhos garços”. Entretanto, ao contrário de Werner, Lourenço geralmente integra essas fórmulas a uma sintaxe convencional.

Lourenço também mantém muitas das repetições do poema: Calipso é reiteradamente “divina entre as deusas”, Atena tem, quase sempre,“olhos garços” e os discursos são introduzidos por “palavras apetrechadas de asas”. No entanto, de novo, ele não é tão rigoroso quanto Werner: aqui e ali, Lourenço parece preferir variações quando elas favorecem a naturalidade do português.

É, assim, acima de tudo, uma tradução transparente. Raramente você vai precisar parar a narrativa para decifrar uma construção ou procurar o sentido de uma palavra. Os discursos fluem com naturalidade, as cenas de ação são diretas, e as transições também.

Mas como os versos não seguem um metro regular nem são tão sonoros como os de Trajano ou Odorico, algumas passagens se aproximam bastante de prosa recortada em linhas: o ritmo depende mais da sintaxe narrativa. É uma tradução que recupera com grande eficiência a fluência e o encadeamento de Homero, mas não necessariamente sua sonoridade.

Cada canto é acompanhado por notas extensas sobre a estrutura narrativa, o sentido das palavras gregas, as variantes dos manuscritos, a geografia do poema e suas relações com a Ilíada. Os comentários não se limitam a explicar nomes e referências mitológicas: discutem contradições, possíveis interpolações e diferentes fases de composição da Odisseia. Em alguns momentos, essa perspectiva analítica pode orientar demais a interpretação do leitor; ainda assim, o aparato constitui um verdadeiro curso de leitura do poema.

É provavelmente o melhor primeiro contato para quem não está habituado à poesia, mas deseja uma tradução em versos feita diretamente do grego, clara e acompanhada por instrumentos que permitam aprofundar a leitura. Lourenço não oferece a invenção poética de Trajano, a condensação de Odorico ou a dicção formular de Werner. Sua grande virtude é outra: permite que o leitor atravesse os mais de doze mil versos da Odisseia com a impressão de estar sempre próximo do original e, ao mesmo tempo, diante de um texto plenamente legível em português.

Onde encontrar: edição brasileira da Penguin-Companhia das Letras (R$ 59,90); edição portuguesa da Quetzal (2019), edição comentada da Companhia das Letras (R$ 159,90).


A Tradução de Christian Werner (Editora Ubu, 2018)

Capa do livro Odisseia de Homero

Do varão me narra, Musa, do muitas-vias, que muito
vagou após devastar a sacra cidade de Troia.
De muitos homens viu urbes e a mente conheceu,
e muitas aflições sofreu ele no mar, em seu ânimo,
tentando garantir sua vida e o retorno dos companheiros.
Nem assim os companheiros socorreu, embora ansiasse:
por iniquidade própria, a deles, pereceram,
tolos, que as vacas de Sol Hipérion
devoraram. Esse, porém, tirou-lhes o dia do retorno.
De um ponto daí, deusa, filha de Zeus, fala também a nós.

Christian Werner é um dos mais respeitados especialistas de Homero do Brasil. Seu trabalho, publicado originalmente em 2014 pela Cosac & Naify, transpõe rigorosamente para o português um dos principais expedientes da linguagem homérica: Werner recupera a dicção homérica, mantendo, quando possível, a parataxe, a repetição de fórmulas, a posição das palavras no verso. Nada fica de fora em sua tradução: cada palavra do poema é vertida com rigor e precisão, com especial atenção para a recorrência de fórmulas e a expressividade gerada por elas.

Diferentemente de Vieira e Antunes (ver abaixo), Werner não busca reconstruir o hexâmetro por outro verso específico da tradição lusófona. Em geral, faz cada verso grego corresponder a uma linha da tradução, preservando, sempre quase sempre, a distribuição de seu conteúdo. Isso lhe permite reproduzir o desenho sintático do verso homérico, inclusive quando uma palavra essencial para completar a frase é adiada para o verso seguinte. É o que já aparece na abertura do poema: “Do varão me narra, Musa, do muitas-vias, que muito / vagou após devastar a sacra cidade de Troia”. A separação de “muito” e “vagou” recupera uma suspensão já presente no grego.

Mostro de novo a passagem em que Atena descreve a Zeus o sofrimento de Odisseu na ilha de Calipso, apresentada anteriormente na tradução de Trajano Vieira. Werner traduz:

Sua filha segura o desgraçado, lamentador,
e sempre com moles e solertes contos
tenta enfeitiçá-lo para Ítaca olvidar. Mas Odisseu,
ansiando somente mirar fumaça irrompendo
de sua terra, deseja morrer. Para ele nem assim
aponta teu coração, Olímpio? Acaso Odisseu,
junto a naus argivas, não te agradou com caros sacrifícios
na larga Troia? Por que contra ele esse ódio, Zeus?

O trecho serve de exemplo para mostrar a natureza do projeto dο Christian: vocábulos como “solertes”, “olvidar”, “mirar” e “naus argivas” elevam o discurso, ao passo que construções como “tenta enfeitiçá-lo para Ítaca olvidar” aproximam o português da ordem sintática do grego. “Enfeitiçar”, aliás, não é uma escolha isolada: a tradução reserva a palavra para todos os compostos do verbo grego thélgo, que tendem a sinalizar no poema momentos em que o canto e o discurso produzem uma espécie de encantamento mágico.

Essa coerência lexical resulta num dos efeitos mais bacanas da tradução do Christian, pois permite que a tradução mostre temas e relações que estão presentes no grego, mas que podem ficar menos evidentes em traduções com critérios mais aclimatadores.

Nesse sentido, chamo a atenção para a tradução das fórmulas: muitos tradutores modernos (Odorico, Haroldo Trajano, Jaime Bruna e Schuler) evitam repetir a mesma expressão, mas, em Homero, as repetições são produtoras de sentido. Werner preserva fórmulas como “Atena olhos-de-coruja”, “Penélope bem-ajuizada”, “Odisseu muita-astúcia”, “Aurora dedos-róseos” e “palavras plumadas”. Na tradução, “Penélope bem-ajuizada” aparece dezenas de vezes, inclusive durante a longa conversa em que a rainha interroga o marido disfarçado. O epíteto recorda continuamente ao leitor a inteligência e a prudência de Penélope, justamente quando ela está sendo posta à prova, bem como a aproxima do epíteto de Odisseu, “juízo-paciente”.

O tradutor cria também uma série de compostos que não pertencem ao português cotidiano: “Zeus junta-nuvens”, “Posêidon treme-solo”, “Calipso belas-tranças”, “Odisseu juízo-paciente”, “nau face-púrpura”, etc.

Algumas causam maior estranhamento, como “o sacro ímpeto de Alcínoo”, “medo amarelo”, “deusa divina” e “bem femininas mulheres”. Com elas, Werner abertamente busca recriar em português a artificialidade da linguagem homérica. Perceba que são palavras familiares, porém aglutinadas de maneiras inesperadas.

É nesse sentido que sua tradução talvez seja a mais bem-sucedida tentativa de “helenizar” o português. O grego de Homero nunca foi falado. Antes foi uma linguagem poética composta por elementos de diferentes épocas e dialetos, preservados e transformados por uma longa tradição oral. Werner procura produzir uma combinação semelhante de familiaridade e distância. Reconhecemos cada palavra individualmente, mas nem sempre reconhecemos de imediato a língua formada pelo conjunto.

A comparação com Donaldo Schuler deixa clara a diferença entre como os dois projetos concebem a oralidade homérica. Na fala do Ciclope, para a qual Schuler emprega gírias e expressões de baixo calão, Werner traduz:

“És tolo, estrangeiro, ou vieste de longe,
tu que me pedes aos deuses temer ou evitar.
Os ciclopes não se preocupam com Zeus porta-égide
nem com deuses ditosos, pois somos bem mais poderosos.”

O Ciclope continua brutal e arrogante, mas não abandona a dicção épica. Enquanto Schuler aproxima a personagem do leitor contemporâneo, Werner preserva a distância que separa o mundo heroico da linguagem cotidiana, mas ao mesmo tempo sem criar um português excessivamente empolado.


Com esses recursos, Christian logra criar uma tradução poética muito própria, que ao mesmo tempo consegue soar arcaizante e familiar, artificial e ornamentada, mas intelígivel, como é o grego de Homero.

Alguns leitores podem ter dificuldade com essa tradução no início: algumas inversões da ordem e compostos inesperados podem soar muito duros ou literais se lidos isoladamente. Em alguns momentos, a atenção do leitor pode se voltar mais para a construção da frase do que para o andamento da narrativa. Entretanto, Werner é extremamente coerente e uniforme em suas soluções. Pouco a pouco, o que soa demasiadamente artificial vai se tornando familiar, pelo uso regular dos procedimentos: ao longo da leitura, o leitor “entra no clima” e se apropria dessa linguagem tão única e homérica.

Onde encontrar: edição da Cosac&Naify (2014); edição da Ubu, R$ 189 (2018)


A tradução de Leonardo Antunes (Mnēma, 2025)

Capa do livro Odisseia de Homero

Sobre o guerreiro de muitos encontros, 
musa, me conta — que muitas e tantas 
voltas trilhou, depois de ter pilhado 
a cidadela sagrada de Troia. 
(Muitas cidades de seres humanos 
ele viu; conheceu seus pensamentos. 
Muitos foram também os sofrimentos 
que no alto-mar seu coração sofreu,
 tentando resguardar a própria vida 
e a volta à casa para os companheiros. 
Mas nem assim foi capaz de salvar 
os companheiros, por mais que tentasse,
 pois eles foram todos destruídos 
por causa de sua própria petulância.
 Tolos! Eles ousaram devorar
 os bois sagrados do filho de Hipérion,
 os bois do Sol, que por isso os privou
 do dia do retorno para casa.)
Sobre essas coisas, de algum ponto, deusa,
 filha de Zeus, agora nos reconta! 

Esta é a tradução mais recente da Odisseia, publicada no ano passado pela Editora Mnēma. O critério de Antunes é essencialmente métrico: sua tradução busca recriar cada verso homérico em dois decassílabos. O resultado é um verdadeiro tour de force formal: dobrando o poema de tamanho, Antunes ganha espaço para dar conta do conteúdo semântico de cada verso e, ao mesmo tempo, imprime ao texto um ritmo regular, ausente nas traduções em prosa. Costuma ser também bastante coerente em suas soluções, buscando sempre que possível manter a mesma tradução para as palavras centrais do poema. Com isso, consegue muitas soluções bonitas e atentas à arquitetura do verso grego.

Mostro um trecho do Canto I, os versos 56-59, agora na versão de Antunes, versos 111 a 117:

Usando de palavras bem suaves
e de discursos sempre sedutores,
ela o enfeitiça para que ele esqueça
a sua Ítaca. Mas Odisseu,
de tão saudoso, só de perceber
a fumaça voando bem ao longe,
de sua terra, já deseja a morte.

A técnica de Antunes salta aos olhos: ele divide cada hemistíquio do verso grego exatamente onde o grego o divide, e o verso 57 começa com as mesmas palavras que abrem e fecham o primeiro hemistíquio original: “ela o enfeitiça” corresponde a thélgei, e “esqueça” a epilésetai. Com isso, Antunes preserva as mesmas ênfases que Homero dá a cada palavra, já que é estratégia típica do verso grego posicionar os termos mais importantes no início e no fim do verso.

Esse mesmo mérito, porém, é também o calcanhar de Aquiles da tradução. Constrangido ao rigor de sempre verter cada hemistíquio do hexâmetro datílico em dois decassílabos, de variação rítmica mais pobre, Antunes é obrigado a inflar boa parte dos versos com palavras que não têm outra função além de fechar a métrica, tornando o texto mais monótono e repetitivo.

O recurso mais visível, ao menos no Canto I, é o uso de “próprio” e “mesmo” como enchimento: já nos primeiros trinta e cinco versos do Canto I (pouco mais de setenta linhas em português) o par ocorre treze vezes: “tentando resguardar a própria vida” (v. 5), “por causa de sua própria petulância” (v. 7 e 34), “Ousaram mesmo devorar” (v. 9), “diva mesmo entre as deidades” (v. 14), “à própria casa” (v. 17), “nem mesmo assim” (v. 18), “nem mesmo entre” (v. 19), “semelho aos próprios deuses” (v. 21), “à própria terra” (v. 21), “famoso mesmo ao longe” (v. 30), “são eles mesmos“ (v. 33). A recorrência, quase um verso a cada três, mostra que não se trata de tique isolado, mas de um recurso sistemático ao qual o tradutor recorre sempre que sobra espaço métrico e falta conteúdo para preenchê-lo.

O inverso também acontece, e é sintoma da mesma rigidez: Antunes por vezes é obrigado a acrescentar informação ausente do grego para fechar o decassílabo. No verso 11 do Canto I, Homero fala simplesmente dos que já tinham voltado para casa, alloi mèn pántes, “todos os outros”, e Antunes verte “Todos os outros líderes guerreiros”. No verso 238 do Canto XXII, onde o grego apenas justapõe os dois nomes, μὲν Ὀδυσσῆος ἠδυἱοῦ κυδαλίμοιο, “tanto de Odisseu quanto do filho glorioso”, a tradução expande para “tanto as do próprio herói, as de Odisseu, / quanto as de seu rebento glorioso”, introduzindo um “próprio herói” para exclusivamente servir à métrica. A folga que o decassílabo duplo oferece, portanto, não se distribui igualmente verso a verso: onde sobra, vira enchimento semanticamente vazio ou acréscimo de conteúdo. São duas faces do mesmo problema de fundo: a imposição de uma forma fixa sobre uma matéria verbal que, no original, não obedece a essa regularidade.

Essa mesma lógica de preenchimento talvez ajude a explicar a escolha mais discutível da tradução: verter a primeira palavra do poema, ándra (”homem”), por “guerreiro”. É uma acepção possível, mas restritiva no contexto da Odisseia: marido, pai, senhor, guerreiro são todas funções que ándra pode designar em grego, e só a última se impõe de fato (e ainda assim excepcionalmente) no Canto XXII, o do massacre dos pretendentes, quando o poema assume um tom mais iliádico. A solução entra em tensão direta com o modo como esse mesmo poema constrói a identidade de Odisseu: adiando-a, disfarçando-a, reservando-a para o reconhecimento final. Além disso, convive mal com o fato de “guerreiro” ser a palavra de preenchimento predileta do tradutor ao longo de toda a obra: mais de cento e cinquenta ocorrências nos vinte e quatro cantos, já reaparecendo logo dois versos abaixo do proêmio (v. 11, “líderes guerreiros”, onde, repito, o grego só tem “todos os outros”) e mais adiante, por exemplo, qualificando Pólibo no Canto XXII (”o guerreiro experiente”).

A tradução de Antunes é uma das experiências métricas mais ambiciosas já realizadas com Homero em português. Sua forma fixa produz soluções belas e atentas à organização do verso grego, mas também repetições, expansões e certa lentidão. Para o leitor interessado em técnica e recriação métrica, é uma tradução fascinante; para quem procura antes de tudo fluência e rapidez narrativa, outras versões talvez ofereçam uma entrada mais imediata na Odisseia.

Onde encontrar: edição da Mnēma (R$ 198)

A tradução de Adriel Teixeira, Christiano Sensi, Leonardo Augusto e Raquel Siphone (no prelo)

A Editora Excelsior deve lançar, até o final de julho, uma nova tradução da Odisseia, feita a oito mãos. Como me informa meu amigo e colega Rafael Frate, os autores desta versão são estudiosos de poesia e profissionais de tradução. Também será uma tradução em versos decassílabos, que não seguirá exatamente a sequência dos versos originais, aumentando o número de versos (ao que parece, contudo, sem o mesmo rigor formal de Antunes, em que um hexâmetro sempre corresponde a dois decassílabos). Trata-se de uma tradução indireta, feita a partir do inglês: a base é a inventiva e premiada versão de Robert Fagles.

Onde encontrar: edição da Excelsior (R$ 149)


Não há, enfim, uma única Odisseia mais fiel ou definitiva. Cada tradução ilumina um aspecto diferente do poema: a condensação de Odorico, a moldura rítmica de Nunes, a fluência de Bruna e Lourenço, a oralidade radical de Schuler, a invenção poética de Trajano, a dicção homérica de Werner ou o rigor métrico de Antunes.

A tradição mítica nos conta que, depois de chegar à Ítaca, concluída a sua Odisseia, Odisseu precisou sair em uma nova jornada, rumo a terras desconhecidas. Assim como ele, nada impede que, para você, uma primeira Odisseia leve, mais tarde, a muitas outras (até, quem sabe, em grego).


Extra: O Guia de Leitura da Odisseia, de Giuliana Ragusa (Editora Mnēma, 2025)

Capa do livro A Odisseia de Homero: Guia de Leitura de Giuliana Ragusa

A Odisseia de Homero: Guia de Leitura, de Giuliana Ragusa, também publicado pela Mnēma, é o resultado de um trabalho feito ao longo dos anos. Docente de língua e literatura grega na USP, Ragusa oferece ao leitor uma leitura acompanhada, canto a canto da Odisseia. É uma obra útil tanto para os iniciantes, que estão prestes a ter seu primeiro contato com o poema, quanto para leitores mais experientes.

Ragusa reconta os principais episódios do poema sob a perspectiva de uma especialista com ampla experiência no ensino e no estudo da literatura grega. Ao longo desse percurso, explica conceitos fundamentais, contextualiza aspectos históricos, sociais e mitológicos e discute a interpretação de passagens importantes, muitas das quais apresenta em traduções de sua própria lavra. Em alguns casos, expõe diferentes interpretações de um mesmo episódio.

Por esse motivo, o Guia é um livro valioso não só para os iniciantes, mas também para estudiosos que desejam revisitar o poema. Trata-se de uma obra importante, que sintetiza, em linguagem acessível, clara e envolvente, os longos debates sobre a Odisseia. A meu ver, é um companheiro indispensável para a leitura do poema.

Uma observação prática: Giuliana Ragusa cita as passagens de acordo com a numeração dos versos do original grego; portanto, o Guia funciona melhor quando utilizado ao lado de traduções que preservam uma correspondência próxima com essa numeração, e funciona particularmente bem com as traduções de Christian Werner e Frederico Lourenço.