Inspirado nas cenas marcantes do filme neorrealista italiano – como o título o sugere –, o poema de Miguel põe-nos à frente da dura realidade de um trabalhador ciclista, um operário que, pelo correr dos versos, sabemos trata-se do próprio genitor do falante, cuja vida transcorre entre rotinas esgotantes – perpetuadas por estruturas sociais assentes na exploração laboral –, e sonhos modestos.
Vê-se um pedalar incansável até um rumo incerto, sem que se abra mão da dignidade no trabalho: se o progresso material segue como pauta para tornar os dias futuros menos árduos, não chega ele a anular completamente a essência do labor humano, tampouco as circunstantes tensões existenciais, pois que esforços são necessários em qualquer que seja o mister a que nos dediquemos. Afinal, como diz aquela máxima das academias: “No pain, no gain”!
J.A.R. – H.C.
José Miguel Silva
(n. 1969)
Ladrões de Bicicleta - Vittorio de Sica (1948)
Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde
a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica
de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da Primavera, a poalha do suor em cada mão.
Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veículo de sombra,
solitário trepador pela encosta de Avintes. Não
trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,
onde tudo, depois, será muito mais plano.
Em: “Movimentos no Escuro” (2005)
Cartaz do filme “Ladrões de Bicicleta”,
de Vittorio de Sica (1948)
Referência:
MIGUEL SILVA, José. Ladrões de bicicleta - Vittorio de Sica (1948). In: REIS-SÁ, Jorge; LAGE, Rui (Selecção, organização, introdução e notas). Poemas portugueses: antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI. Prefácio de Vasco Graça Moura. 1. ed. Porto, PT: Porto Editora, 2009. p. 2071.
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