Depois que li o “Caderno proibido”, de Alba de Céspedes (e esse nome parece muito um pseudônimo, mas não é), escrevi: “A partir do momento em que Valéria compra um caderno e começa a anotar os seus dias, ela também começa a se perceber, a tomar consciência de si, e os acontecimentos cotidianos passam a ter peso, quando antes não eram relevantes.

E percebi como tenho deixado de anotar. Gostava de anotar os dias todos. Fiquei relapso. Os dias estão perdidos. E percebi que livros para os quais não faço anotações – resenhas, talvez – ficam menos na minha memória.

Tem tempos em que não estou com paciência para livros “sérios”. Li três vezes o “Ulysses”, James Joyce, na tradução de Caetano Galindo. A primeira, isolada. A segunda e a terceira seguidas. A terceira com o acompanhamento do guia de Caetano Galindo, “Sim, eu digo sim”, e com muitas vistas no “Ulisses” de Antônio Houaiss. Posso considerar que conheço bem o Ulysses. E gosto do livro, da história de um dia na vida de Bloom.

Quando não estou com paciência para livros “sérios”, leio ficção científica. FC tem muito de “sério” visto que muitos desses livros trazem questões relevantes sobre o presente e sobre futuros possíveis.

Os livros “Justiça ancilar” e “Espada ancilar”, Ann Leckie, demonstram como somos pequenos temporalmente pois os humanos se espalharam pelo Universo há milhares de anos – e eles começaram em um planetinha remoto do qual ninguém mais se lembra. “Língua nativa”, Suzette Haden Elgin, é excelente: mulheres submetidas ao domínio masculino que criam uma língua própria para combater a opressão (tenho que reler). “O problema dos três corpos”, Cixin Liu, mostra que a gente deveria ficar quietinho e caladinho aqui no planetinha azul, em lugar de estar chamando a atenção de possíveis predadores melhores e maiores do que nós. “Nós”, Evgueni Zamiátin, precursor e provável inspirador de “1984”, uma história desesperada em uma utopia distópica na qual o Benfeitor cuida da felicidade de todos.

Outros de FC são leves, apenas divertimento, como “Mickey 7”, Edward Ashton, um clone descartável para missões perigosas no espaço, e “O pardal”, Mary Doria Russel: quando chegam à Terra as primeiras transmissões de uma civilização inteligente – na forma de música – os jesuítas realizam uma missão espacial para conhecer e “amar” aqueles filhos de deus. Dá tudo errado.

Livros “sérios” para os quais não fiz anotações me parecem cair em um limbo de memória e nem sei se gostei ou não. “A vegetariana”, Han Kang, livro esquisito, talvez precise reler; “Sobre minha filha”, Kim Hye-Jin, me pareceu meio previsível. Tantos outros sem qualquer anotação de minha parte… Perdidos.