Ayala nos mostra o quanto o gato tem um lugar único no imaginário poético, com uma presença algo etérea – naturalmente elegante e fluida – a encarnar a verdadeira natureza do noturno – o mistério, o intangível, o que está para além do visível –, como se detentor fosse de um conhecimento, último e silencioso, que as palavras humanas não conseguem expressar.
O gato teria, com efeito, uma natureza sigilosa e não intrusiva, à maneira de um sentimento de remorso, eis que nos costuma assaltar de modo espontâneo e silencioso, porém intenso – e amiúde na solidão da noite: vê-se, no caso, uma associação do felino com a dinâmica da introspecção humana, sitiada por pensamentos que a visitam na escuridão e pousam sobre a consciência.
J.A.R. – H.C.
Walmir Ayala
(1933-1991)
Poema a um Gato
Te encontramos na noite,
e eras maior que a noite,
mais integral e sombrio.
Eras de seda derramada em movimento
e me buscavas sempre com olhar e silêncio
como se quisesses dizer a última palavra,
a única.
Tu vieste na noite
sem luz e sem rumor
como o pensamento de remorso.
E te estendeste esguiamente sobre a minha solidão.
Mulher dormindo com um gato
(Władysław Ślewiński: pintor polonês)
Referência:
AYALA, Walmir. Poema a um gato. In: ___________. Antologia poética. Rio de Janeiro, GB: Editora Leitura, ago. 1965. p. 16.
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