Ayala nos mostra o quanto o gato tem um lugar único no imaginário poético, com uma presença algo etérea – naturalmente elegante e fluida – a encarnar a verdadeira natureza do noturno – o mistério, o intangível, o que está para além do visível –, como se detentor fosse de um conhecimento, último e silencioso, que as palavras humanas não conseguem expressar.

O gato teria, com efeito, uma natureza sigilosa e não intrusiva, à maneira de um sentimento de remorso, eis que nos costuma assaltar de modo espontâneo e silencioso, porém intenso – e amiúde na solidão da noite: vê-se, no caso, uma associação do felino com a dinâmica da introspecção humana, sitiada por pensamentos que a visitam na escuridão e pousam sobre a consciência.

J.A.R. – H.C.

António Variações: Retrato em preto e branco de um homem apoiando a cabeça na mão, com olhar pensativo.

Walmir Ayala

(1933-1991)

Poema a um Gato

Te encontramos na noite,

e eras maior que a noite,

mais integral e sombrio.

Eras de seda derramada em movimento

e me buscavas sempre com olhar e silêncio

como se quisesses dizer a última palavra,

a única.

Tu vieste na noite

sem luz e sem rumor

como o pensamento de remorso.

E te estendeste esguiamente sobre a minha solidão.

Pintura de uma mulher ruiva dormindo em almofadas verdes com um gato preto ao lado.

Mulher dormindo com um gato

(Władysław Ślewiński: pintor polonês)

Referência:

AYALA, Walmir. Poema a um gato. In: ___________. Antologia poética. Rio de Janeiro, GB: Editora Leitura, ago. 1965. p. 16.

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