Cardoso recorre ao mito bíblico para nos falar da crise no íntimo do homem moderno que, “morto” em uma vida inautêntica, enfrenta o terror e a beleza de um necessário renascer, cujos imperativos, nada obstante, exigem o abandono de tudo quanto se conhece e a coragem para aceitar uma fé intensa e abrasadora, engolfando-o em uma liberdade inequívoca que lhe pode suscitar mil temores.
Diante da vastidão da existência, o poeta revela em Lázaro certa nostalgia da paz do sepulcro, da quietude do nada – essa metáfora de prisão existencial, de uma morte em vida –, quando este vem a perceber o resultado do milagre de que foi agraciado: a recuperação da espontaneidade original e da capacidade de sentir, com o consequente pulsar das feridas do passado, não exatamente como dor, senão como prova de que o sangue voltou a lhe correr nas veias.
J.A.R. – H.C.
Lúcio Cardoso
(1912-1968)
A voz de Lázaro
No abismo que se abre em mim uma só voz escuto:
– És tu, Senhor? És tu que sopras o meu nome de tão longe?
Ah! Bem entendo esse ruído que rola como a música no silêncio
de uma nave –
És tu? Responde, ao menos para cobrir de desespero a minha face!
Eis que aqui sozinho e cheio de brancas ataduras,
fechado num sepulcro que apesar do odor das mornas
terras banhadas pela chuva,
conserva ainda no âmago o traço do incenso funerário.
Eis-me Senhor, como no dia em que nasci,
longe do amigo e da mulher que traem o meu ciúme,
longe da casa onde na sala arde a lâmpada para a ceia familiar.
Não disseste ser preciso estar nu como a criança que vem de surgir
das veias maternas,
não disseste ser preciso abandonar as terras, os vizinhos e tudo
o que trouxesse um nome sem som correspondente?
Longe de mim, pois, estão todas as formas que não têm
o seu berço no espaço que dura,
longe os muros em que a alma é prisioneira.
Se é verdade que só aproveitamos na medida daquilo
que atiramos fora,
contempla a minha carne marcada pelos vergões de todas
as correntes com que me aprisionei em vida.
Sinto agora a tua presença porque no meu coração a energia
se renovou como no grão prestes a se transformar em folha,
sinto porque do fundo esquecimento renasceu em mim a aurora
da infância abandonada
e a pele desfeita se uniu e o sangue tornou a borbulhar
nas antigas cicatrizes...
Assim nada morre; tudo o que teve um nome, som ou
pensamento, volta do profundo abismo onde
a cegueira mora –
eu vejo, mas um estranho pressentimento perturba
a perfeição da minha alegria:
se és tu, bate com mais força à porta onde as sombras
do sono me envolvem,
bate, pois que estive tanto tempo sepultado no silêncio
que os meus ouvidos já confundem os sons e os perfumes
se turvam irrevelados.
É verdade, já não é possível duvidar, pois quem, senão tu,
poderia conceder-me a graça de reverdecer como a planta
seca pelos anos,
mas o meu coração é fraco e os meus olhos se obstinam
na quietude da morte.
Dá-me, Senhor, a fé selvagem que cobre de espinhos
o esqueleto das árvores vencidas,
clareia com fogo imperecível as minhas órbitas escuras
que a noite é imensa e eu sinto a vastidão que se dilata
e tenho medo de me perder, como o santo a quem
o desespero envolve nas trevas da danação.
A Ressurreição de Lázaro
(Simon de Vos: pintor flamengo)
Referência:
CARDOSO, Lúcio. A voz de Lázaro. In: __________. Poesia Completa. Edição crítica de Ésio Macedo Ribeiro. São Paulo, SP: Edusp, 2011. p. 250-251.
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