Quando alcançamos o final de David Copperfield, percebemos que Dickens preparou uma armadilha discreta para o leitor. E fez isso com a paciência de um relojoeiro — meticuloso, silencioso — ao longo de quase mil páginas. Viramos a última página e descobrimos que fomos muito mais que meros espectadores de um processo educativo: estávamos lá, alunos, sentados na primeira fila.
Durante toda a leitura, foi fácil ser implacável com David. Alertávamos previamente sobre Steerforth, condenávamos por ignorar Agnes, repreendíamos por envolver-se tão cegamente com Dora. Apontamos seus vícios como visitantes de um aquário: batendo o dedo no vidro e gritando “não faça isso!”. Estivemos o tempo todo cobertos de razão, é claro! O problema, porém, é que do alto de nossa certeza fomos incapazes de avaliar nossa própria posição — igualzinho ao que aconteceu com o protagonista.
Agnes Wickfield é a grande figura esquecida, quase sempre lateral. Está lá desde muito cedo e deve ocupar facilmente uns dois terços da obra. Na primeira aparição, vemos a jovem carregando um cesto de chaves — a imagem de quem guarda, de quem é constância e também oportunidade. Cada nova aparição traz uma nova camada, com uma gravidade discreta o suficiente para passar despercebida, por David e também por nós — ao menos em sua completude. Agnes sempre foi lateral demais, silenciosa demais, constante demais para competir com todas as crises, os preços cobrados a altíssimos juros e todas aquelas luzes artificiais que o livro acendia o tempo todo em nosso caminho.
As mortes que encerram a história confirmam isso com uma gentileza irônica, como tanto vimos acontecer. Ham morre tentando salvar um náufrago que resistia à furiosa tempestade — e o corpo que a maré devolve à praia é o de Steerforth. Tão cheio de nobreza em vida, agora devolvido pela maré (o mar não o aceitou) — um desfecho que traz o veredito e dispensa explicitação. Dora morre porque não sobraram opções para a mão do escritor: abandono ou resignação perpétua comprometeriam a integridade moral que o texto construiu com tanto cuidado. São fins necessários de ciclo e também aberturas. Portas precisam ser fechadas para que David possa enfim procurar as chaves que abrirão os novos caminhos.
Na Divina Comédia, Dante tem Beatrice. Mencionada, esperada, prometida ao longo de toda a jornada. Até que o poeta se aproxima do Paraíso, onde Virgílio, guia da razão, não pode mais entrar. Ela aguarda por ele porque sabe que a jornada tem um destino, mesmo que antes o viajante precise descer todos os níveis do inferno para poder merecê-la. Agnes é a Beatrice de David: esteve sempre lá, um norte inabalável enquanto David se perdia e nos levava junto de si.
O romance é uma pedagogia dupla. David aprende a viver enquanto o leitor aprende a ler. Os dois chegam à mesma conclusão com o mesmo atraso. A luz mais constante é justamente a mais difícil de ser notada, porque está sempre ofuscada por outras mais brilhantes e reluzentes.
O método de camadas — esse artifício de sedimentação silenciosa que Dickens usou para construir seus personagens e suas revelações — serviu ao protagonista e também a nós. Cada vez que lemos as suas escolhas e analisamos a sua errância, mantendo a distância cruel de quem se acredita acima dos próprios erros, acrescentamos sem perceber uma camada só nossa, da nossa própria cegueira. Quando o livro fecha, a armadilha tão laboriosamente armada é acionada:
”Agora, ao terminar minha tarefa, resistindo à minha vontade de continuar, todos esses rostos se apagam. Apenas um deles, luzindo em minha direção como uma luz divina incidindo sobre todos os objetos, paira acima de tudo e de todos. Ali permanece.”
Ela estava e sempre esteve lá. David a deixou passar e nós também. Percebemos sua importância — nunca sua centralidade. Essa é o preço que pagamos ao romance.
O que pode parecer uma falha nossa é a prova de que Dickens, mais uma vez, fez muito bem o seu trabalho.
