O título deste poema ecoa o seu marco filosófico, tradicionalmente centrado na busca de um conhecimento espiritual ou secreto, em frequente confrontação com este mundo material, percebido como ilusório ou corrompido: a voz poética empreende, sob tal perspectiva, uma viagem até algo transcendental – simbolizado nos versos por um pássaro – que está enredado em escuridão, tensão física e bulício.
Nessa jornada entre o humano e o celestial, entre o tangível e o abstrato, entre a vida instintiva e as sendas espirituais, cada qual usufrui de uma experiência particular, individualizada, uns encontrando beleza e significado no divino, outros a dele receber tão apenas uma crua e fragmentada impressão, marcada por ambivalência ou ambiguidade (“isto”).
J.A.R. – H.C.
Anne Carson
(1950-2019)
Heaven’s lips! I dreamed
of a page in a book containing the word bird and I
entered bird.
Bird grinds on,
grinds on, thrusting against black. Thrusting
wings, thrusting again, hard
banks slap against it either side, that bird was exhausted.
Still, beating, working its way and below in dark woods
small creatures
leap. Rip
at food with scrawny lips.
Lips at night.
Nothing guiding it, bird beats on, night wetness on it.
A lion looks up.
Smell of adolescence in these creatures, this ordinary
night for them. Astonishment
inside me like a separate person,
sweat-soaked. How to grip.
For some people a bird sings, feathers shine. I just get this this.
Pássaro em voo
(Ona Lodge: artista holandesa)
Gnosticismo I
Lábios celestiais! Sonhei
com uma página de um livro contendo a palavra pássaro e eu
entrei no pássaro.
O pássaro persiste,
obstina-se, investindo contra as trevas. Impelindo
suas asas, impelindo-as reiteradamente, com rígidas
barreiras a fustigá-lo de ambos os lados, esse pássaro
acabou por afadigar-se.
Mesmo cansado, debate-se, forçando o seu caminho,
enquanto lá embaixo, nos bosques escuros,
pequenas criaturas
saltitam. Despedaçam
o alimento com descarnados lábios.
Lábios sob o véu da noite.
Sem nada a lhe guiar, adeja o pássaro, e sobre ele o orvalho
noturno.
Um leão ergue o olhar.
Há um odor de adolescência em tais criaturas, nesta noite
trivial para elas. Dentro de mim
um assombro, como se uma outra pessoa eu fosse,
empapada de suor. Como apreendê-lo?
Para algumas pessoas um pássaro canta, brilham as suas penas.
De minha parte, capturo somente este isto.
Referência:
CARSON, Anne. Gnosticism I. In: __________. Decreation: poetry, essays, opera. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2005. p. 87.
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