Enquanto você estiver lendo este texto, estarei planejando alguma aula, ou algum vídeo. Posso estar também corrigindo tarefas ou revisando roteiros, talvez em plena aula — a depender do dia e do horário ou talvez até esteja falando sozinho diante de uma câmera para aquilo que no futuro será “ração” de Youtube.
Monstro Youtube, dirão alguns. Eu chamo de Vila mas melhor talvez seja chamá-lo de Reino. Afinal, lá cabem muitas vilas. E enquanto eu estou preso em minhas tarefas, permita-me contar uma fábula para preencher esse vazio que surge enquanto não chega um vídeo novo do seu criador favorito, que pode ser eu ou outro qualquer e tá tudo bem: tem vila pra todos. Mas como eu pretendia dizer…
Era uma vez um reino muito diverso, composto por todo tipo de vila. Tinha de porcos, de tucanos, de estrelas, de soldados e até vila de gente. Nossa história no entanto ocorre numa vilinha pequenina, lá pelas bordas do reino. Uma vila que ninguém sabe muito bem o que a constitui, mas que ganhou fama de composta por flores. Flores amarelas, vermelhas, vistosas, rosas, cravos, margaridas… flores, muitas flores!
Apesar da pouca relevância dentro da economia do reino, todos falavam muito bem desse lugar. Ali todos são felizes e fofos. Uma alegria, uma fofura!
Dizem os cronistas e historiadores, entretanto, que as coisas não são bem assim. Pra começar, acontece lá dentro uma espécie de governo autoritário das flores. Quem não quiser ser flor tem de sair do campo. É bruto, cruel e impiedoso! E nem precisa ser autodeclaração… basta a suspeita, uma denúncia, mesmo que sem prova qualquer. Depuseram a prefeita assim. Ela era flor, nunca declarou não ser, nunca houve indício de tal… Um dia, porém, alguém desconfiou sei lá por qual motivo. Um adubo errado, talvez. Muitos cronistas dizem que foi por conta das abelhas que se reuniam excessivamente ao redor dela. Mas as abelhas são livres, certo? Que culpa tinha essa flor em concentrar tantas? Aliás, ela podia até ter culpa… mas as outras flores também estão aí, nos seus espaços, tem abelha pra todo mundo. Enfim, isso dizem os cronistas e dizem também que tentaram arrastar a coitada para fora dos limites territoriais, mas não conseguiram. Mesmo na borda do mapa ela ainda continuou atraindo a maioria das abelhas e ocupando o status de uma espécie de “prefeita emérita”. Se ela amanhecia meio inclinada, todas as outras fariam o mesmo na manhã seguinte. Um padrão silencioso, floral.
De todo modo, mesmo sem tanto sucesso no remanejamento, o recado foi dado. Flores são cheirosas, flores são fofas, flores são felizes. Ninguém ouse sair minimamente do padrão que será imediatamente deposto ou até mesmo arrastado pra fora: melhor ficar quietinho aí, sejam fofinhos e cheirosos.
Os historiadores mais responsáveis deixam claro que não é um padrão absoluto e livre de desvios. Há uma flor ou outra ali que ousa feder um pouco, ser mais carrancuda… mas tem tão pouca abelhinha em volta que ninguém liga.
Um dia porém, surgiu um bicho. E nem me pergunte que tipo era porque as fontes são pouquíssimo confiáveis a respeito do tipo. Importa saber que era um bicho mesmo, nada de abelha, joaninha, esses insetos de planta. E pela confusão nas fontes, podemos dizer que era um sapo, um jacaré, algum mamífero até. Alguns cronistas mais ousados falam sobre ser um animal selvagem e perigoso como uma onça ou leão. Enfim… pouco importa! Basta saber que era mesmo um bicho.
E ele chegou sem pedir licença, abrindo espaço… não que precisasse porque a vila era bem espaçosa, cada flor ocupando grandes campos, embora variassem muito na atenção das abelhas e isso eu já falei… melhor não ficar me repetindo, mas quero que lembre como flores gostavam de seguir um padrão. O bicho chegou já do seu jeito, fazendo questão de se mostrar enquanto tal e ignorando completamente se devia amanhecer inclinado pra direita ou pra esquerda. Imagine o incômodo que isso causou. Mas ainda assim… tranquilo demais. Ninguém vai ocupar-se de bicho que nunca atrai abelha.
Até que chegaram as primeiras abelhas e depois as outras… aos poucos, tinha abelha rodeando o danado do bicho de modo que já começou a chamar a atenção de muita flor por ali, principalmente daquelas que viram seu posto ameaçado. Não que as abelhas dele fossem delas, tinha pra todo mundo e os cronistas são muito claros nisso. Mas as flores se perguntavam como isso era possível. Como que um bicho podia atrair tanta abelha… e aquele fedor? E a fofura? As flores se queixavam para suas abelhas, reverberavam suas opiniões entre si e alimentavam impressões e boatos aterrorizantes. Viram? Dizem que ele devora outras flores. Tá sabendo? O bicho pensa que é melhor por ser bicho. Como pode, né? Aquelas abelhas lá rodeando ele… que absurdo, abelhas burras, devem pensar que são moscas. Só pode!
E nisso ficou, por um tempão… flores ressentidas e um bicho sem noção querendo também suas abelhas ao sol.
Tudo bem que isso não é um final, que não é justo acabar esse texto aqui. Contudo, ainda estou em fase de pesquisa… lembra que falei sobre como estou agora, enquanto você lê, provavelmente trabalhando em aulas ou em vídeos? Pois é… E quando paro pra fazer a pesquisa, por vezes me perco entre um cronista e outro, uma fonte pouco precisa, um relato confuso. Não é nada fácil… ainda mais quando alguma abelha entra pela janela e o zumbido dela atrai de alguma forma minha atenção. Que coisa, né?
