ESTE MUNDO É INDECIFRÁVEL

António Roma Torres

Depois de 33 filmes de longa-metragem anteriores e perto de completar 80 anos (em 18-12-2026) talvez Steven Spielberg queira somente fazer “prova de vida”. O Dia da Revelação é mais um contributo seu para uma mundividência que vive com ele e com os seus fãs desde Encontros Imediatos do 3º Grau (1977) e ET (1982) e a que voltou à boleia do célebre escritor no género, H. G. Wells, numa adaptação de A Guerra dos Mundos (2005) que inspirara outro (Orson) Welles numa adaptação radiofónica que agitou os EUA no dia 30 de Outubro de 1938.

Haverá marcianos? - como se perguntava dantes. Ou doutro modo – o universo será habitado por outros seres conscientes com linguagem que lhes permitirá comunicar um dia com os seres humanos? Chamemos-lhes extraterrestres, porque exteriores ao nosso planeta, eventualmente numa galáxia distante, OVNIS, FANI (Fenómenos Anómalos Não Identificados, nova designação mais abrangente) ou outro nome qualquer – serão amigos ou inimigos?

Spielberg sempre mostrou curiosidade sobre quem nos pode escutar, ou podemos nós escutar, para além de uma parede virtual que nos separa de outro tempo ou outro espaço. O tema não é obrigatoriamente de ficção científica e percorre a arqueologia de Indiana Jones (Harrison Ford), quatro filmes desde Os Salteadores da Arca Perdida (1981), a ocupação de um ícone do cinema britânico como Richard Attenborough no papel de um empresário visionário, John Hamond, que cruza a peleontologia com a bioengenharia, dois filmes com a sua assinatura desde Parque Jurássico (1993), mais cinco produzidos com outros realizadores e duas séries de episódios televisivos, e reaparece noutros contextos que não o das aventuras de um imaginário juvenil, mais próximos da realidade documentada que foi o cataclismo da II Guerra Mundial no meio do século passado, em A Lista de Schindler (1993) e O Resgate do Soldado Ryan (1998), precisamente os dois filmes que lhe valeram o oscar de melhor realização.

Nos seus filmes realizados neste primeiro quartel do século XXI há dois que se podem apontar como inapeláveis falhanços, O Amigo Gigante (2016), na aparência de uma história infantil, e Ready Player One: Jogador 1 (2018), uma fantasia a partir do novo mundo digital. Mas talvez não devam ficar esquecidos ao abordarmos precisamente a atenção aos sinais e a aparente dificuldade de os decifrar que no fundo percorre a filmografia de Spielberg não apenas em filmes com que abriu o século no mítico espírito kubrickiano em A. I. Inteligência Artificial (2001) e Relatório Minoritário (2002), mas também nos mais políticos e ligados aos mistérios do poder e do confronto ideológico, A Ponte dos Espiões (2015), um espião soviético em plena Guerra Fria, e The Post (2017), a imprensa americana no caso o Washington Post, em luta contra a sonegação de informação nos centros do poder militar, entre os quais fez O Amigo Gigante em que a linguagem também pode ser indecifrável, e Ready Player One, tomando por realidade os jogos virtuais que interferem no ambiente da humanidade.

A boa notícia é que Steven Spielberg mantém as suas qualidades intactas e O Dia da Revelação não é de todo mais do mesmo. Pelo contrário é numa grande produção a continuação do balanço de uma autobiografia que esboçara, em forma íntima ficcional, no anterior Os Fabelmans (2022). Revisita sim, alguns dos seus temas, mas amplia-lhes o sentido fazendo pontes entre várias das suas referências mais relevantes.

O filme abre ao bom estilo do já longínquo Tubarão (1975), mostrando-se como um excelente herdeiro do espírito hitchcockiano. Ainda não consciencializamos ao que vimos e somos já condicionados, pelo domínio da narrativa e da montagem, a ficarmos em estado de alerta, atentos aos mais anódinos sinais. É o chamado suspense, sem sabermos ao certo que perigo nos espreita. Claro que se nos habituámos a recusar um cinema que nos manipula e parece querer tolher-nos a liberdade de escolha, como nos ensinaram os tempos neorrealistas, ficaremos certamente de pé atrás. Mas se ainda concedermos ao cinema o podermos gozar do genuíno prazer de nos deixarmos levar, daremos por bem empregue o tempo, e aceitamos o risco evidentemente.

Logo de entrada o mundo está à beira de uma guerra nuclear (quem diria?) e um génio matemático, ex-presidiário e especialista em cibersegurança, Daniel Kellner (Josh O’Connor) rouba décadas de documentos acumulados em discos rígidos que provam que o poder estabelecido tem sonegado ao público em geral informações sobre contactos com extra-terrestres e refugia-se com a namorada, Jane Blankenship (Eve Hewson) num convento católico onde ela fora noviça antes de abandonar a vocação por uma crise de fé.

Pouco depois acompanhamos uma meteorologista apresentadora na televisão, Margaret Fairchild (Emily Blunt), que nos procura dar segurança mostrando o tempo que fará amanhã e como podemos protegermo-nos do que se espera. O domínio é o da imprevisibilidade ou de como podemos ganhar confiança e prevenirmo-nos? Agora não é uma questão de fé, mas talvez um puro raciocínio científico. A imprevisibilidade torna-se ameaçadora quando ela inopinadamente se expressa numa língua que não conhece ou de repente apercebe-se de uma forma extrassensorial de dados sobre pessoas que está a conhecer pela primeira vez. Acresce que Margaret tem um discreto namorado, Jackson (Wyath Russell), um loiro WASP (acrónimo em inglês de Branco, Anglo-Saxónico e Protestante), que Margaret perde de vista em fuga de um hospital a que tinha recorrido pelos estranhos fenómenos físicos e comunicacionais que intersectam a sua continuidade vital.

Com estes protagonistas em fuga começamos a perceber como os seus passos são monitorizados à distância por duas entidades, aparentemente opostas, mas com uma génese comum, por um lado Noah Scanlon (Colin Firth), chefe do WARDEX cujo acrónimo sugere tratar de um sector Waived Reporting, Development, and Extraction (dispensado de relatórios, desenvolvimentos e extrações), onde se arquivava os contactos com suspeitos extraterrestres que Daniel furtara com a intenção de os poder tornar públicos, e no polo oposto Hugo Wakefield (Colman Domingo) também quadro superior da organização que se rebelara contra o secretismo que estava a ser imposto sobre informações a que toda a humanidade deveria ter direito de aceder e a quem esses materiais deverão ser entregues.

Spielberg não procura repetir gratuitamente efeitos especiais em que ele tem sido aliás pioneiro, mas consegue criar um cenário de ubiquidade digital, onde o espaço e o tempo permitem ultrapassar alguns limites que a realidade física ainda impôs a gerações precedentes e assim atingir um plano de formulação teológica ou filosófica que toca questões pertinentes sobre o que cada ser humano no plano existencial é, por assim dizer, levado a acreditar e chamado a responder, glosando afinal a crise com que Janice é confrontada, abandonando no princípio do filme o convento, antes de professar os votos definitivos.

Ao fim da primeira hora o turning point narrativo é a cena da passagem de nível e o embate do comboio que abalroa o carro “sem piedade”, cena obviamente referida ao inicial Duel – Um Assassino Pelas Costas (1971) ou, dez anos depois, Os Salteadores da Arca Perdida. A partir daí já não é uma pura perseguição, mas um confronto de uma lógica binária, mas que nem por isso se quer maniqueísta.

Quem deve prevalecer? O Mark Rylance, que interpretou Rudolf Abel, o espião soviético metódico e modesto em Nova Iorque em A Ponte dos Espiões, que lhe valeu aliás o oscar de interpretação coadjuvante, o BFG que “ouve todos os sussurros secretos do mundo” em O Amigo Gigante e o James Halliday, guardião póstumo do destino do mundo digital em Ready Player One: Jogador 1, podia ter servido de modelo ao desempenho de Colin Firth, mas em vez de alguma fleuma e serenidade que o retrato de Noah Scolan permitia associar, expressa melhor num estado de exaustão e de entrega convulsiva o contacto atento com os seus agentes ou aqueles que quer influenciar. Isso também é neste lado um conceito de que a humanidade precisa de protecção e não pode ter na sua mão as alavancas do seu destino porque se dividirá e procederá de uma forma autofágica. É o sacrifício da livre escolha e da autonomia como desígnio individual, de certa maneira num ponto de origem. A escolha para o papel do actor, aliás premiado no filme com o oscar de melhor interpretação, que personificou Jorge VI em O Discurso do Rei (2010) de Tom Hooper de certa maneira valoriza o dever de Estado que um príncipe que não estava fadado para o trono por várias circunstâncias aceitou com dignidade.

Mas há um outro ponto de atracção para onde gravita a acção. E ele é Hugo Wakefiel, outrora um quadro superior da WARDEX, mas neste momento o mais qualificado dos dissidentes. Do mesmo modo não parece inocente a escolha de Colman Domingo, negro, caloroso na expressão de emoções mas contido, como o Divine G. de Sing Sing (2023) de Greg Kwedar, encarcerado por um crime que não cometeu mas que o sistema judicial não corrige que se consegue libertar nos diferentes papéis de um grupo de teatro com outros presos.

O interessante é a forma como Spielberg cria uma articulação correspondente a uma espécie nova de ubiquidade que o mundo digital e informático parece abrir à consciência da humanidade onde a comunicação se estabelece encurtando distâncias e criando uma rede fluida onde a individualidade se expande, mas pode ao mesmo tempo estar ameaçada. Neste contexto tecnológico avançado é com algum humor que surge o telefonema old style de Janine agora depositária dos segredos roubados à Irmã Maura (Elisabeth Marvel), sua antiga superiora no tempo de noviciado, querendo saber se será legítimo ligar-se à divulgação da existência de outros seres conscientes não humanos no nosso universo podendo ameaçar a fé de quem o vier a saber. A verdade nunca é nociva é a resposta que resolve o dilema da responsabilidade e da liberdade.

Nesta parábola magnificamente moral com que Spielberg nos parece querer brindar numa súmula de quase todos os seus filmes parece que o difícil foi conseguir pôr-lhe um ponto final. Se um dos seus reconhecidos mestres que foi Stanley Kubrick, de quem aliás Spielberg realizou em A. I. Inteligência Artificial (significativamente de 2001) um seu projecto não concretizado, soube rematar 2001, Odisseia no Espaço (1968) com uma sequência onírica, uma espécie de história da humanidade numa escala cósmica que se confronta com o monólito misterioso (e enigmático) que pontua o filme, mas também biológica, revista pelo astronauta David Bowman (Keir Dullea) do nascimento a um super-envelhecimento, num quarto da infância aí de estilo Luís XVI.

O final de O Dia da Revelação lança-nos no percurso iniciático de um novo casal, como Eva e Adão numa nova humanidade, a revelar-se liberta agora, no acesso não ao conhecimento mas a todas as informações que possa ter, como significativamente hoje a inteligência artificial nos vem prometer, e sob a direcção/encenação de Wakefield tudo se passa noutro quarto de infância, de Margaret, recriado em cenário, mas não para um psicodrama que se empodera na re-presentação e na autoria de um significado criativo, mas submete-se a uma verdade já morta e arquivada, seja nas fotografias que documentam encontros imediatos com seres de outro mundo, quer na história unívoca de dois miúdos predestinados nos termos mais básicos.

E afinal a revelação do inicial dia final não é o que se , mas o que se ouve e pode imaginar-se nesse milagre tecnológico que o cinema continua a saber fazer. Na realidade o que se revela não é a existência de ETs. O que se revela é que é possível terem-nos escondido informações essenciais. “Ouçam…”