Neruda nos conta como a poesia o alcançou, sob a forma de um rompante vital e primordial que se deflagrou em determinado momento de sua vida, transformando e redefinindo a percepção que, até então, tinha da realidade, elevando-lhe a perspectiva do meramente individual ao mistério maior da própria existência, permitindo-lhe, assim, conectar-se a uma visão mais ampla do universo.
A inspiração poética, sob tal mirada, seria um chamado irresistível, ou melhor, um evento avassalador que, nascendo do não-saber, revelar-se-ia robusto o suficiente para conduzir o poeta à sabedoria última de sentir-se parte do todo, num ato epifânico de comunhão total com o cosmos.
J.A.R. – H.C.
Pablo Neruda
(1904-1973)
Y fue a esa edad... Llegó la poesía
a buscarme. No sé, no sé de dónde
salió, de invierno o río.
No sé cómo ni cuándo,
no, no eran voces, no eran
palabras, ni silencio,
pero desde una calle me llamaba,
desde las ramas de la noche,
de pronto entre los otros,
entre fuegos violentos
o regresando solo,
allí estaba sin rostro
y me tocaba.
Yo no sabía qué decir, mi boca
no sabía
nombrar,
mis ojos eran ciegos,
y algo golpeaba en mi alma,
fiebre o alas perdidas,
y me fui haciendo solo,
descifrando
aquella quemadura,
y escribí la primera línea vaga,
vaga, sin cuerpo, pura
tontería,
pura sabiduría
del que no sabe nada,
y vi de pronto
el cielo
desgranado
y abierto,
planetas,
plantaciones palpitantes,
la sombra perforada,
acribillada
por flechas, fuego y flores,
la noche arrolladora, el universo.
ebrio del gran vacío
constelado,
a semejanza, a imagen
del misterio,
me sentí parte pura
del abismo,
rodé con las estrellas,
mi corazón se desató en el viento.
En: “Memorial de Isla Negra” (1962-1964)
O sonho do poeta
(John Faed: pintor escocês)
A poesia
E foi nessa idade... A poesia chegou
para me buscar. Não sei, não sei de onde
saiu, se do inverno ou de um rio.
Não sei como nem quando,
não, não eram vozes, não eram
palavras, nem silêncio,
mas de uma rua ela me chamava,
dos ramos da noite,
de súbito entre os outros,
entre fogos violentos
ou, em regresso a sós,
eis que ali se me afigurava sem rosto
e me tocava.
Eu não sabia o que dizer, minha boca
não sabia
nomear,
meus olhos estavam cegos,
e algo percutia em minha alma,
febre ou asas perdidas,
e me fui fazendo sozinho,
a decifrar
aquela queimadura,
e escrevi a vaga primeira linha,
vaga, sem corpo, pura
tolice,
pura sabedoria
de quem nada sabe,
e de repente vi
o céu
debulhado
e aberto,
planetas,
plantações pulsantes,
a sombra trespassada,
crivada
de flechas, fogo e flores,
a noite avassaladora, o universo.
E eu, um mínimo ser,
inebriado pelo grande vazio
constelado,
à semelhança, à imagem
do mistério,
senti-me parte pura
do abismo,
girei com as estrelas,
meu coração desatou-se ao vento.
Em: “Memorial da Ilha Negra” (1962-1964)
Referência:
NERUDA, Pablo. La poesía. In: __________. Obras completas: volume II (De “Odas elementales” a “Memorial de Isla Negra” - 1954-1964). Edición y notas de Hernán Loyola, con el asesoramiento de Saúl Yurkievich; prólogo de Saúl Yurkievich. 1. ed. Barcelona, ES: Círculo de Lectores; Galaxia Gutenberg, 1999. p. 1155-1156.
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