Frankito em Chamas, 160 páginas, é da Todavia
Felipe é roteirista de cinema e faz trabalhos esporádicos na área de publicidade. Tem trinta e poucos anos e acabou de se separar da namorada, depois de terem morado juntos por quatro anos. Ele chega a uma cidade de praia no Uruguai para acompanhar as filmagens de um longa metragem baseado em um roteiro seu.
O diretor do filme é seu amigo Guilherme, o astro é o respeitado ator Paulo Castelo, entre a equipe de som está Natália, uma ex-namoradinha com quem ele está disposto a encarar um repeteco, e o dublê é o personagem do título, que é introduzido com uma aura de mistério: “O Frankito é uma figura”, “Frankito es loco”, “Esse cara é maluco”.
Para surpresa de Felipe, o diretor sugere que lhe deem uma ponta no filme, alterando um pouco determinada cena para que ele apareça, representando sem falas uma versão mais jovem do protagonista. Acompanhamos um pouco o dia-a-dia de um set de filmagens.
A certa altura, Frankito convida os membros da produção para um churrasco em seu sítio. Ali, descobrimos que ele trabalhou por anos no circo, fazendo apresentações de grande risco, inclusive uma, sua favorita, na qual ele dirigia um carro pelo picadeiro e de repente o carro pegava fogo e então ele próprio emergia em chamas, sendo logo socorrido por um colega com um extintor de incêndio.
Felipe se interessa pela história do dublê, e decide tentar convencer os produtores a acrescentar ao final do filme uma cena em que o protagonista aparece em chamas, o que seria uma chance de Frankito reviver seu velho número, sua antiga glória.
Queria resgatar seu orgulho perdido de artista, oferecer a ele uma última chance de ser visto da maneira como imaginei que ele gostasse de ser enxergado e, mais que isso, deixar essa imagem registrada para sempre. Em outras palavras, eu queria ver Frankito em chamas.
Ao longo da história, temos algumas digressões que contam como Felipe e Guilherme ficaram amigos, como ele conheceu Natália, a maneira como Paulo Castelo começou a fazer teatro nos anos 60, o fim do último relacionamento de Felipe, a passagem da diretora de fotografia do filme pelo Japão, quando acompanhou a turnê de uma banda de Heavy Metal, a relação de Felipe com o pai.
Essa historietas paralelas encorpam um pouco o livro. De fato, a narração principal em torno do filme é um tanto magra de carnes literárias. Felipe está lá, passando uns dias no hotel, enquanto o pessoal filma as cenas. É morno. As digressões são sem dúvida as melhores partes. Mas elas são muito curtas e desconexas, janelas de meia dúzia de páginas sobre a vida de uma personagem, expondo não mais que um breve episódio cada uma. Fiquei com a impressão de que o autor tinha esses (bons) trechos guardados e deu um jeito de encaixá-los no livro.
É também nas digressões que aparecem alguns trechos mais reflexivos.
O sul é o lugar em que sempre nos encontramos, afinal todas as bússolas apontam pro sentido norte. Logicamente, estamos sempre presos ao sul desse ponto imaginário. Mas, se todas as bússolas apontam pro norte, o tempo inteiro, então sempre há norte pra ser apontado, enquanto o sul fica pra trás na medida em que o percorremos. O sul é a vida ficando pra trás, é a areia se depositando no fundo de uma ampulheta.
Não está mau, mas também é pouco para sustentar o interesse do leitor no texto.
Em suma, acredito que Matheus Borges tem potencial para ser um bom escritor, mas precisa se dedicar a um projeto de mais fôlego, no qual explore mais os personagens e seus dramas.
Duas machadadas.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
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