Este poema de Beirão fez-me lembrar, pelo título e pela temática, de um outro poema já aqui postado, nomeadamente, “País da Ausência”, da chilena Gabriela Mistral (1889-1957): ambos se fixam na ausência para enfatizar o quanto a verdadeira essência da existência se revela, por mais paradoxal que seja, na fugacidade do momento.

Na abordagem de Beirão, contudo, a efemeridade da vida vincula-se a um momento de epifania experimentado diante do que é inerentemente transitório – impossível de se fixar ou de se possuir, quer seja tangível – como uma rosa – quer intangível – a exemplo de um pensamento ou da própria identidade –, sem que se deixe, nada obstante, de contemplar a beleza que lhe corresponde num vislumbre indicativo do eterno.

A presença neste mundo, sob tal contexto, passa a ser percebida como uma ilusão, uma “cega miragem, no deserto triste”, haja vista que tudo o que apreendemos como real e palpável nada mais se equipara do que a um espelhismo no ermo da existência. Contudo, daquilo que se perde a cada instante, do vazio que sobrevém à ausência das coisas, assoma a graça de uma força espiritual reveladora, uma “Manhã de Anunciação” grávida de promessas, de esperanças numa dádiva divina.

J.A.R. – H.C.

António Botto: Retrato em preto e branco de um homem jovem vestindo terno e gravata.

Mário P. G. Beirão

(1890-1965)

Da Ausência Miraculosa

Incerta é a Vida; incerto, o instante...

Essa rosa de seda e mármore, de lindo

Esplandecer, toda em louçãos

Brincos de Abril, aroma penetrante,

Morreu, desfeita, em minhas mãos,

Quando a colhi, morreu,

No mesmo instante em que, sorrindo,

Me entremostrara o Céu!

Esta imagem do inquieto pensamento,

Que, de surpresa, acode e me fascina,

Vou a fixá-la e já se vai no vento,

E, no vento, saudosa, peregrina...

Quando falamos,

É para além de nós

Que, súbito, escutamos,

Nos ecos, longe, o mar da nossa voz...

Tudo nos foge e deixa,

No pó da estrada, míseros, a olhar:

Seja estrela a nascer... sonho a florir...

Música em fumos de perdida endecha...

Nuvem que doira o ar...

Partir! Partir! Não há senão partir!

Quero ter o sentido,

Quero apreender o fim

Do que me cerca... (e o imaginar cansa, vencido!).

Sei lá quem sou, quando reparo em mim!

Este instante que passa, este instante que passa,

Fulge e apaga-se... existe e não existe...

– Presença, és outra forma da Ilusão,

Cega miragem, no deserto triste!

É só na Ausência

Que a vida se revela, em sua essência...

A Ausência é luz, espírito da Graça,

Manhã de Anunciação!

Em: “O Pão da Ceia” (1964)

A virada do tempo

(Natali Antonovich: artista bielorrussa)

Referência:

BEIRÃO, Mário. Da ausência miraculosa. In: __________. Poesias completas. Edição organizada por António Cândido Franco e Luís Amaro. Prefácio de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa, PT: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, jun. 1996. p. 587. (“Biblioteca de Autores Portugueses”)