Manuela, vinte e seis anos, mora na região metropolitana da capital. Mulata de cor clara. Há mulatas de todos os tipos no país. Mulata é palavra pejorativa, vem de mula, é possível que se refira ao fato de mulatos serem híbridos de brancos e negros ou à capacidade de trabalho deles, trabalham como mulas. Talvez Manuela seja descendente de negro e índio. Ou mameluca, mestiça de índio com branco. Ou a mistura de tudo isso. País de gente misturada. Manuela tem a pele café com leite, mas nem ela mesma sabe de onde vem essa cor.

Na cidade dela, uma feia e suja cidade de periferia de metrópole, há uma lagoa. Ela não conhece a lagoa, nunca foi lá. A lagoa é de origem artificial, começou como uma pedreira, um dia minou água lá no fundo da pedreira, virou a lagoa.

A mãe de Manuela é feia, baixinha, atarracada. O pai foi morto, a menina era pequena, não lembra do acontecimento, a mãe não fala no assunto, a coisa toda ficou nebulosa, a menina não sabe se o pai estava envolvido em crimes, algo assim. O pai devia ser um cara alto, Manuela ficou com um metro e setenta e dois de altura. A mãe trabalhou de lavadeira e empregada em um supermercado do bairro, começou a trabalhar de babá e daí veio a ideia de abrir uma creche improvisada na casinha que habitavam. As mulheres da vizinhança precisavam ir trabalhar e a creche foi crescendo. A mãe mandou construir um puxado no quintal, ela e Manu foram morar no puxadinho e a casa toda virou a creche.

Manuela está atrasada nos estudos como a maioria do pessoal do bairro. Poderia estar formada se fosse de outra origem. Em lugar disso, faz um curso técnico de edificações. Falta um ano para terminar. Quando começou o curso, ela estava animada, pois o país vivia uma onda de crescimento, muitas obras em todas as cidades, mas, agora, perto do fim do curso, há uma crise, obras paradas. Manuela tem uma moto de cento e vinte e cinco cilindradas. Caiu uma única vez, no centro da capital, ao dobrar em uma rua, arranhou o joelho, rasgou a calça jeans, mas foi só. O curso técnico e as prestações da moto, ela paga com o trabalho na casa de massagens.

A casa de massagens é, de fato, umas salas de massagem no décimo andar de um edifício do centro da capital. O prédio fica na esquina de uma grande avenida, de frente para o rio, é um edifício confuso, compartilhado por um hotel e infinitas salas de contadores, advogados, pequenas empresas, dentistas, despachantes, de um tudo. A empresa de massagem não deve ser algo legalizado, Manuela não sabe como a dona faz para manter o negócio, mas a polícia nunca aparece por lá. A não ser para usar os serviços. A casa tem uma tabela na recepção. Massagem com masturbação, cem reais, com sexo oral, cento e quarenta, com sexo oral e vaginal, cento e oitenta reais. A casa fica com cinquenta por cento, a moça com cinquenta por cento. Os clientes escolhem as moças em uma sala após a recepção, paga primeiro, escolhe depois, elas ficam vestidas de calcinha e sutiã. Manuela comparece ao trabalho nas quintas, sextas e sábados, durante quatro horas de cada vez. É obrigatório ficar quatro horas.

Manuela faz, às vezes, algum atendimento por fora, mas é raro, pois sobra pouco tempo, há o estudo, o trabalho em casa para ajudar a mãe. No último final de semana, ela foi a uma praia distante oitenta quilômetros da capital. Foi o lugar mais distante em que ela já esteve. Alguns amigos e conhecidos do bairro combinaram de ir até essa praia, alguns de moto, outros de automóvel. De início, não gostou da praia, muitas casas, bares e gente. Ela e uma amiga afastaram-se do furdunço, caminharam na direção do rio, ao norte. Ali, a praia era deserta, silenciosa, tranquila. O mar era calmo, ondinhas bem pequenas, elas tomaram banho, gostaram, elas têm medo de mar, nenhuma delas sabe nadar. Manuela saiu da água, vestiu um shortinho branco, trançado, sentou na areia, em um tronco de coqueiro caído, olhava o mar e pensava na vida. A amiga saiu da água, enxugou-se, afastou-se e bateu uma foto de Manuela pensativa, em frente ao mar, sentada no tronco de coqueiro. Manuela adora essa foto.