Empregando certa ironia num tom coloquial, o Nobel italiano expressa a sua visão desencantada sobre a vaidade da pretensão de imortalidade por parte de poetas e escritores, contrastando-a com a certeza instintiva da vida presente e a indiferença absoluta do mundo, nestas linhas representadas pela simplicidade existencial de um papa-figos – espécie de ave migratória, a servir de metáfora para a transitoriedade de todas as coisas –, e pelo ceticismo e dúvidas sistemáticas do filósofo – cujas luzes intelectivas não lhe dão, de modo algum, a segurança acerca das aludidas aspirações de glória perdurável.
Sob tal linha de raciocínio antiantropocêntrica, o título atribuído pelo poeta ao poema (“All’alba” / “Ao amanhecer”) ganha contornos mais desembaraçados: ou bem se refere a uma revelação fria e desapiedada sobre a condição humana e a sua insignificância na escala cósmica, ou bem sugere que a consciência dessa indiferença universal equivale a um despertar sobre a verdadeira realidade em que todos estamos imersos, por mais molesta que seja.
J.A.R. – H.C.
Eugenio Montale
(1896-1981)
All’alba
Lo scrittore suppone (e del poeta
non si parli nemmeno)
che morto lui le sue opere
lo rendano immortale.
L’ipotesi non è peregrina,
ve la do per quel che vale.
Nulla di simile penso nel beccafico
che consuma il suo breakfast giù nell’orto.
Egli è certo di vivere; il filosofo
che vive a pianterreno
ha invece più di un dubbio. Il mondo può
fare a meno di tutto, anche di sé.
In: “Altri versi” (1981)
Um papa-figos se alimentando
(Imagem sem créditos)
Ao amanhecer
O escritor supõe (e do poeta
nem sequer falemos)
que depois de morto suas obras
o tornem imortal.
A hipótese não é peregrina,
dou-a a vós pelo que vale.
Nada de similar penso acerca do papa-figos
a degustar o seu breakfast ali no pomar. (*)
Ele está certo de viver; o filósofo
que vive no rés do chão,
ao contrário, tem mais de uma dúvida. O mundo pode
prescindir de tudo, até de si mesmo.
Em: “Outros versos” (1981)
Nota:
(*). Breakfeast: palavra em inglês que significa “café da manhã”, “pequeno almoço” ou “desjejum”.
Referência:
MONTALE, Eugenio. All’alba. In: __________. Tutte le poesie. A cura di Giorgio Zampa. I ed. Milano, IT: Arnoldo Mondadori Editore, ott.1990. p. 688. (“Grandi Classici Oscar Mondadori”)
❁

