O poeta colombiano fala-nos sobre a perda de sentido em relação ao sagrado e ao épico no mundo contemporâneo, sublinhando a amnésia histórica da vida urbana – algo voluntária –, sob a qual o passado jaz oculto nas circunjacências, na natureza, bem assim nos olores e ruídos cotidianos, porém como uma riqueza inútil.
Se a cidade esqueceu o seu passado violento e sangrento, o cimento mítico fundacional, nada obstante, ainda persiste de forma sutil no dia a dia, em detalhes aparentemente insignificantes que o poeta logra resgatar para criar uma atmosfera de memória desvanecida: a coluna de fumaça, os mendigos, os altares cobertos de poeira etc.
Sob tal perspectiva, sobrevive ele – o mito, bem se entenda – de forma latente, quase clandestina, nos interstícios da urbe – “perdido, irresgatável estéril” –, haja vista que os seus habitantes perderam a capacidade de conectar-se com ele, de extrair-lhe significado ou fecundidade, longe já, por conseguinte, de ser uma fonte de identidade ou de força, senão um eco distante, um resíduo sem potencial para descortinar novas e auspiciosas sendas.
J.A.R. – H.C.
Álvaro Mutis
(1923-2013)
De la ciudad
¿Quién ve a la entrada de la ciudad
la sangre vertida por antiguos guerreros?
¿Quién oye el golpe de las armas
y el chapoteo nocturno de las bestias?
¿Quién guía la columna de humo y dolor
que dejan las batallas al caer la tarde?
Ni el más miserable, ni el más vicioso
ni el más débil y olvidado de los habitantes
recuerda algo de esta historia.
Hoy, cuando al amanecer crece en los parques
el olor de los pinos recién cortados,
ese aroma resinoso y brillante
como el recuerdo vago de una hembra magnífica
o como el dolor de una bestia indefensa,
hoy, la ciudad se entrega de lleno
a su niebla sucia y a sus ruidos cotidianos.
Y sin embargo el mito está presente,
subsiste en los rincones donde los mendigos
inventan una temblorosa cadena de placer,
en los altares que muerde la polilla
y cubre el polvo con manso y terso olvido,
en las puertas que se abren de repente
para mostrar al sol un opulento torso
de mujer que despierta entre naranjos
– blanda fruta muerta, aire vano de alcoba –.
En la paz del mediodía, en las horas del alba,
en los trenes soñolientos cargados de animales
que lloran la ausencia de sus crías,
allí está el mito perdido, irrescatable, estéril.
Ponte de Charing Cross
(André Derain: pintor francês)
Da cidade
Quem vê, à entrada da cidade,
o sangue vertido por antigos guerreiros?
Quem ouve o canglor das armas
e o chapinhar noturno das bestas?
Quem guia a coluna de fumaça e dor
que as batalhas deixam ao cair da tarde?
Nem o mais miserável, nem o mais vicioso,
nem o mais fraco e esquecido dos habitantes
recorda algo desta história.
Hoje, quando ao amanhecer cresce nos parques
o odor dos pinheiros recém-cortados,
aquele aroma resinoso e brilhante
como a lembrança vaga de uma magnífica fêmea
ou como a dor de uma besta indefesa,
hoje, a cidade se entrega por completo
à sua suja neblina e aos seus ruídos cotidianos.
E, no entanto, o mito está presente,
subsiste nos recantos onde os mendigos
inventam uma trêmula cadeia de prazer,
nos altares que a traça corrói
e o pó cobre com manso e terso olvido,
nas portas que se abrem de repente
para mostrar ao sol um opulento torso
de mulher que desperta entre laranjeiras
– fruta macia e morta, ar vão de alcova –.
Na paz do meio-dia, nas horas da aurora,
nos trens sonolentos carregados de animais
que choram a ausência de suas crias,
ali está o mito perdido, irresgatável, estéril.
Referência:
MUTIS, Álvaro. De la ciudad. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 64. (Coedición “Latinoamericana”)
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