Como editora de jovens autores, ou de autores estreantes (o que não é exactamente a mesma coisa), interessa-me obviamente ler o que os meus confrades publicam nessa área; e, se ainda por cima conheço os autores, é natural que espreite com alguma urgência o que vai saindo. Nas Correntes d'Escritas, o Manuel comprou o romance de estreia de Inês Bernardo, jornalista que, durante vários anos, embora com interrupções, foi responsável, ao lado de José Mário Silva, pelo blogue Biblioteca de Bolso (no qual há muitos anos fui entrevistada, por acaso, também nas Correntes) e que apoia outros blogues no jornal Público. O seu romance de estreia, curtinho e com capítulos em geral de não mais de duas páginas, chama-se sugestivamente Agarrar a Faca pelo Gume e tem a qualidade de ser de facto agudo e penetrante. Os homens mal estão presentes, e a protagonista, que viveu até à idade adulta sem conhecer o pai, morou sempre com mulheres: a mãe, mas também as avós (a que chama com graça a Avó e a Outra Avó), sendo que as últimas pouco interferem numa educação de que, mesmo assim, são talvez as principais responsáveis. A vida destas três gerações faz-se a pulso e é sempre muito bruta, quase como se as personagens dissessem tudo umas às outras secamente e com maus-modos (ouço-as assim, pelo menos); mesmo quando se trata das cenas de amor da protagonista, o belo faz-se assustado, ignorante e um tanto feio (não na escrita, entenda-se, mas no que provoca em imagens na cabeça do leitor). Mas ao mesmo tempo as coisas funcionam bem assim, porque agarrar a faca pelo gume comporta sempre o risco do sangue, e as relações de sangue nem sempre são as melhores, especialmente quando as mortes espreitam, iminentes. É uma boa estreia, fico à espera de mais.