Você já viu o vídeo e se não viu esse em específico viu outro similar porque eles se multiplicam Brasil afora. A seleção perde e um homem desce a porrada na televisão, diante dos filhos que pedem desesperados pra ele parar. Circula como piada, mas o desespero das crianças ainda ecoa em minha cabeça. Talvez aquela fosse a única tv, o único meio pra ver um desenho, um filme, um “youtube” qualquer.
A piada é confortável porque liberta o espectador do eco ao qual me refiro, mas também é fruto e reflexo do próprio modelo que alimenta a cena.
No fundo sabemos disso e rimos para não olhar. Rimos pelo estouro de um pobre descontrolado que não sabe resistir a um evento completamente alheio a si. Sem pagar nada nos colocamos numa plataforma e seguimos a vida. Eu quero resgatar o incômodo. Quero voltar à cena, dispensar o riso e olhar para o que o alimenta. O que vou sustentar nas próximas linhas pode parecer absurdo no começo, mas garanto que soará óbvio ao fim. O mal que move este homem não está nele, na pobreza, na copa, nem na televisão. É algo anterior e todos temos uma parcela de culpa nisso.
Falei em pobreza, mas não estou fazendo dela a causa de coisa alguma. Note isso, pela caridade! Atribuir a atitude à falta de recursos financeiros ou falta de educação formal é algo que precisamos desarmar logo de início. A situação econômica desses indivíduos é uma circunstância, longe de ser causa disso tudo.
Entre o impulso e o gesto, entre sentir a derrota e socar o aparelho, deveria haver alguma coisa. Um repertório. Um estoque de formas, de contenções, de maneiras de significar a perda que não a converta em fúria bruta. Esse algo tem um nome antigo, que já foi valorizado e erguido e anda bem sofrido: *Cultura*. E cultura, convém lembrar, não é enfeite e muito menos um pedaço de papel que ostentamos na parede do consultório — é o que a gente tem entre o que sente e o que faz.
A raiz da palavra é de cultivo, plantação. Colocar uma semente no solo e cuidar para que frutifique. Ninguém vai plantar veneno para pôr na mesa de casa e alimentar a própria família. E ninguém vai plantar para ver apodrecer.
O debate que ergo aqui, portanto, vai muito além da provável “falta de cultura” desses indivíduos. Quero saber quem parou o cultivo e qual a razão disso. Essa é uma resposta difícil que adianto com honestidade minha incapacidade de responder. No entanto, suplico para que não me abandone desde já. Apesar de não conseguir a precisão positivista de uma resposta, invoco Platão para defender que o questionamento já é motivo suficiente para nos confortar no berço da razão.
Na década de 1930, Ortega y Gasset descreveu o homem-massa. Parece distante no tempo, mas o tipo descrito por ele lá no início do século passado é o mesmo que nos sufoca hoje. O indivíduo descrito pelo filósofo espanhol dispensa toda mediação e impõe suas vontades e sentimentos pelo gesto direto.
Ao contrário do que podemos pensar, o homem-massa não tem nada a ver com pobreza ou falta de escolaridade. Trata-se de um tipo psicológico e moral: um homem que não exige nada de si próprio, que se sente satisfeito em parecer cada vez mais “igual a todo mundo”, que toma a própria régua como um direito inalienável e até mesmo como virtude. Isso não é exclusivo da pobreza e existe muito entre os mais ricos. O herdeiro que vive de renda e nunca cobrou de si absolutamente nada; o professor universitário famoso que parou de questionar a realidade após o ingresso nas altas rodas sociais; o empresário que busca favores na prefeitura porque conhece o prefeito. Ao mesmo tempo, também encontramos na pobreza sujeitos que se cobram, que exigem de si o que precisam alcançar, que não aceitam ser mais um ponto na multidão. Espero que tenha ficado claro que não falamos, portanto, de dinheiro; mas do modo como cada sujeito enxerga a si e ao próprio mundo.
Quando se depara com o conflito, o homem-massa não busca um intermediário, não se abriga sob o guarda-chuva da norma, do argumento — o homem-massa se impõe. “A civilização é, antes de tudo, vontade de convivência”, diz Ortega. A ação direta é exatamente o inverso disso. É fazer da força a soberana da vida. Quando o punho soca o televisor, vemos a materialização disso. Antes do pensamento, antes do verbo, a força.
Por isso é importante citar Ortega logo de início. A imagem da qual partimos é de um homem pobre recorrendo à violência para dar vazão às suas frustrações. Esclarecer que isso não é sintoma de pobreza é passo fundamental para evitar o ataque materialista de que estou reduzindo o conflito a um economicismo rasteiro. Ao contrário do que muitos dizem, não acredito que “pobre é assim mesmo”. Definitivamente não! Quando constatamos com a ajuda de Ortega que há disso também entre os ricos, quando entendemos que isso está além do materialismo que nos seduz como se fosse possível de explicar toda a realidade, o raciocínio é invertido no mesmo instante. Precisamos agora perguntar o que acontece quando o homem-massa manifesta-se no topo. Quando quem deveria cultivar a forma alta, quem deveria guardá-la, transmiti-la, abdica dessa função.
Eu sei que sempre se fala muito em elite quando o assunto é cultura. Também sei que o discurso padrão é de ataque a essas mesmas elites, supostas detentoras de um padrão inacessível feito para excluir os pobres e manter uma hierarquia inescapável de poder. Sei de tudo isso!
Justamente por conta dessas imagens que a invocação aqui deste termo e conceito torna o terreno perigoso e abre flancos para as mais diversas críticas que tenho tentado rejeitar. Só que é inevitável tocarmos em seu nome, e também para criticá-las, embora em sentido inverso do que fazem os críticos usuais.
Para entender todo esse caldo até chegar na relação das elites com um homem socando uma tv, precisamos compreender e aceitar uma verdade universal: a cultura não sobe. A cultura desce.
Perigosa afirmação, não é? Estamos aqui mesmo andando na fronteira, precisamos encarar o problema sem pudores e com exageros provocativos. Claro que a cultura sobe. O jazz subiu, o samba subiu, o blues metamorfoseou-se e subiu. O romance que tanto gostamos, subiu. Verdade também que estas formas ascendentes nasceram de inspirações descendentes e esse debate pode ir mais longe do que suportam as linhas desse ensaio, por isso precisamos voltar ao cerne de nosso argumento. O que afirmo enquanto descendente é a forma, o molde, o padrão do refinamento, a beleza enfim. Esta vem de cima e vem com tanta força e intensidade que toda a base da pirâmide mantém os olhos erguidos esperando seu mínimo sinal.
Antes que me acusem de inventar asneiras, cito os antigos. Claudiano, poeta do final do século IV, destacava que o rei servia de exemplo, que todo o mundo se moldava por ele. Claudiano em sua percepção apontou para o óbvio: é do alto que vem a forma apropriada e refeita pela base.
E do mesmo modo que citei Claudiano para escapar da injúria de maluco, preciso agora aproximar o argumento para escapar do rótulo de reacionário decrépito. Muita gente hoje em dia opta por um padrão de móveis chamado de provençal. Esse modelo que soa tão bonito para nossos olhos modernos nasce de uma corruptela popular do molde fornecido pela corte de Versalhes. Os artesãos apropriaram-se do modelo e usando os recursos que tinham emularam a mobília da elite. A reprodução industrial consegue levar até a casa do mais humilde cidadão o móvel visivelmente muito similar ao que já foi usado por um rei. A forma, entretanto, vem vazia. A funcionalidade e o princípio se perdem pelo caminho. Resta apenas a casca bonita para admirar. O mesmo vemos acontecer com a arquitetura e é dela que extraímos o exemplo máximo para compor nossa alegoria. A coluna que servia de sustento é reapropriada pelo seu impacto estético. Impecável em aparência e incapaz de sustentar qualquer coisa, já que é vazia, feita de puro isopor.
Hoje, tendo o consumo ganhado contornos de cultura, basta olhar para automóveis e celulares. Aliás, a moda também é exemplar disso e o percurso foi descrito por Georg Simmel em seu “Filosofia da moda”. No vestuário, a base sempre imita o alto. Quando a base consegue alcançar o padrão do alto, este se desloca, muda e reinventa a fim de preservar a distância. Um gato e rato cultural que depende da altura, da verticalidade. A moda de baixo sobe porque há uma espécie de gravidade invertida, puxando-a para cima. O que acontece se retirarmos essa altura? Naturalmente, o jogo acaba.
A base não replica perfeitamente o referencial, ela o imita, arremeda. O arremedo é corruptela, é versão piorada, genérica e degradada. Toda cópia implica uma perda e essa perda costuma ser perceptível. Enquanto a coluna romana resolvia uma sustentação estrutural, a coluna de isopor na porta do salão granfino esquece a estrutura para focar na beleza acessória. O mesmo contorno com finalidades diferentes.
Isso sempre existiu. Nada de novo! O que diferencia nosso tempo, entretanto, é a falta da verticalidade. Mesmo que a base seja sempre o arremedo, mesmo que seja cópia pobre, havendo um modelo, a falha é também vertical, também pro alto. A igreja do interior que imita sofridamente os adereços góticos aponta com sua simplicidade para a Catedral. Por mais que seja sofrida e desajeitada, há um referente superior para onde aponta. Por vezes, o alto pode até beber no baixo alguma influência porque, por mais que seja canhestra, essa elaboração tem o mesmo desígnio. Logo, tendemos sempre à ascensão.
Essa dinâmica depende de uma condição: que o topo assuma sua posição e continue sendo topo, e não ponta. Infelizmente, é justamente o que tem faltado. Ao contrário do que pensa o senso comum, não veio a queda com uma invasão “bárbara” das bases — que invadiram e vulgarizaram tudo. O senso comum é preguiçoso. O rompimento veio de dentro, do próprio topo, de cima.
Evidente que mais uma vez vale o que já apontei lá atrás: não é sobre dinheiro. Topo e elite são termos sequestrados pelo campo financeiro, mas não estamos aqui bebendo da mesma semântica. Um professor de ensino médio ou educação infantil, um dirigente de sindicato, um presidente de DCE, um curador de museu, um jornalista, um blogueiro, influencer, uma plataforma, uma universidade. Pessoas e instituições que ensinam, replicam e legitimam modelos. O pessoal que segura o carimbo e diz o que é permitido ocupar espaço nas prateleiras e nas telas. Foi esse pessoal que abriu mão de seu papel.
Fui longe? Calma que vou mostrar como isso sai de lá até chegar no vídeo do cara socando a tv. O professor universitário assumiu como vergonhoso ensinar e explicar o cânone. O aluno dele, professor de escola, assume essa premissa e dispensa o ensino dessas coisas. O moleque da escola amanhã será um trabalhador que ontem lia Jorge Amado e ouvia bossa nova, mas que na sua vez ouve funk e torra o salário com copão. A cadeia de consumo foi remodelada e enquanto isso outros tantos ex-alunos ocupam espaços em editorias de redes sociais, balanceando o algoritmo e o like. Decidindo no edital quem deve ocupar o palco principal na festa da cidade. Organizando a prateleira e decidindo quem vai ocupar as fileiras de destaque. Subestimamos essa corrente de transmissão.
Eis que vivemos um tempo em que os ocupantes do topo da cadeia decidiram que o que vem do alto é suspeito, que é sintoma e ferramenta opressora, máscara de dominação. Se o que temos lá em baixo já é cópia e arremedo, o que havemos de ter em tempos assim? A corrente que explicamos no parágrafo anterior continua existindo, ela é inescapável, mas agora é uma serpente devorando o próprio rabo, sem referência e em eterna e contínua degradação.
Como chegamos a isso? Em algum momento — que é possível discutir especificamente quando — o cultivo da alta cultura foi rotulado como vergonhoso. Os que sustentavam a herança, responsáveis pelo cultivo e transmissão, passaram a temer seu sustento e sua defesa. Um medo do outro, de ser reconhecido como “elitista”, “reacionário”, inculto. Abaixaram o próprio modelo para agradar a massa. Preferiram o amor ao respeito. Essa nem Maquiavel previu.
Ressentimento é algo muito em voga e aposto que nem mesmo Nietzsche, que tão bem o mapeou, apostaria em tal vigência, com tanto vigor. O homem de ontem glorificava e desejava o inalcançável. O de hoje despreza. Como a raposa desejosa das uvas, verbaliza repulsa com o coração cheio de vontade. “Eu não queria mesmo...”. O nosso topo despreza o que já tem. Seu patrimônio e legado são jogados fora por interesses mil que não a própria cultura que possui ou o papel que desempenha.
Antes que me acusem mais uma vez de maluco ou ergam-me a uma posição de gênio — o que seria pior, claro — anuncio que a tese sequer é nova ou mesmo minha. Existe um livro de 1927 chamado *A traição dos intelectuais* que denuncia justamente o modo como os intelectuais — o topo, a elite — abandonaram valores e funções para defender interesses mesquinhos, alinhados a pautas ideológicas.
Repare que não é uma mudança de gosto, nos diz o autor Julien Benda. Estes homens e mulheres, os ditos intelectuais, traíram sua função por própria vontade. Abandonaram os valores que abraçam a civilização em nome do próprio umbigo. São guardiões que abandonaram o portão aberto para bater palma na praça, para ver a banda passar. O soldado que abandonou a vigia do castelo para observar de longe os saqueadores.
No meu querido setor, a literatura, o caso é conhecido e diagnosticado. Harold Bloom, de quem tanto gosto e falo, escreveu um livro monumental atacando este sintoma: “O Cânone Ocidental”. Um livro que acusam de elitismo sem evidentemente ter lido. Bloom não se lançou ali como detentor das normas, do portão do Cânone. Pelo contrário, seu livro é um grito de rebeldia contra o avanço aterrador de sua destruição. Os estudos literários cada vez mais embarcando em pautas que tinham a ver com tudo, menos com a própria literatura. Uma rejeição crescente e injustificada contra os clássicos, os grandes autores de sempre.
Ele chamou seus opositores, imensa maioria em seu tempo e ainda mais hoje, de “Escola do Ressentimento”. Bloom nos diz que essas pessoas retiraram as grandes obras de sua posição de patrimônio, herança, e as colocaram como um sintoma de opressão. O autor que antes ocupava um pedestal foi transferido para o banco dos réus. O respeito foi substituído pelo desprezo e a universidade e as escolas, ambiente primordial de conservação e transmissão desse tesouro, passaram a destruí-lo.
A mão que soca a tv até pode ser controlada por aquele homem, mas a sombra que a influencia e domina, que a levou até aquele momento, é do professor PhD que despreza o legado que o levou até ali e faz isso com um sorriso no rosto, revestido por um espírito da mais generosa intenção.
E eu sei que você pode ter entendido a lógica da degradação, mas ainda nos falta o arremate final: como que isso chega na tv despedaçada sob punhos furiosos. Chegaremos lá. Antes, após entendermos o princípio da máquina, vamos entender seu produto.
Já entendemos que a base sempre está olhando pra cima, sempre copiando, produzindo arremedo. Não tendo para onde olhar ou lá encontrando o próprio arremedo, essa cópia já será uma segunda degradação: o arremedo do arremedo.
Em 1939, Clement Greenberg descreveu o Kitsch. Quem tem Kundera como o autor favorito e *A insustentável leveza do ser* como livro da vida (perdoa, Senhor!), consegue lembrar desse termo. O kitsch é uma estética do saque. Rouba os efeitos da alta cultura mirando apenas no seu efeito imediato. É o que falávamos da coluna romana de isopor. Com a possibilidade de produção em massa, o kitsch vai tentar transformar a arte elevada em algo consumível, acessível para as massas. O problema é que isso esvazia sua função e inverte as finalidades. Porém, mesmo o kitsch precisa de um referente a ser saqueado. Com ele esvaziado, com a fonte seca, kitsch passa a copiar o próprio kitsch. Geração após geração, a arte fica vazia, oca, cada vez mais estéril. Isso explica porque a “cópia” de hoje é pior que a de trinta anos atrás. Quando seu avô apreciador de repente reclama do trap, ele não está só sendo reacionário, mas constatando o óbvio. O repente inspira-se em trovas, já o trap... arremedo do arremedo. E isso não se dá porque a base ficou pior, porque os artistas estão ruins ou porque o povo emburreceu. Perdemos a referência. A fonte que esta geração bebe está mais rasa que a da anterior, mais barrenta, cheia de detritos.
Essa baixa cultura, o que consumimos hoje com uma elite — essa sim — esnobe dizendo ser elevado não é ruim porque é uma cultura escancarada de massa, como diz Dwight Macdonald em *Masscult and Midcult*. A bobagem que se assume bobagem é inofensiva: a gente sabe exatamente o que é e sabe como se defender. O pior é o que chama de “midcult”: o baixo vendido como alto. A cultura fajuta que se vende como elevada enquanto dilui os valores, amacia, entrega tudo mastigado e regurgitado. O midcult afaga o ego do consumidor. Dá tapinha nas costas chamando a pessoa de inteligente, sofisticado. E esse isopor florido não é produzido nas bases, mas no alto. Aquela elite envergonhada não pegou “seus panos de bunda” e saiu de cena. Passa a entregar o ralé e rasteiro como se fosse grandioso enquanto a base iludida estica ainda mais o pescoço para apreciar.
Após tantas linhas e esperando que o público tenha me entendido, preciso abraçar agora um contraponto importante.
Como eu já disse neste texto, falar de alta cultura é sempre um flanco aberto ao ataque e acusações de elitismo. Não importa que esse raciocínio tenha sido elucidado lá atrás ou que essa tentativa de “envergonhamento”, o rótulo de elitista, seja parte essencial do mecanismo. Chegou a hora, portanto, de explicar esse ponto após explicar sua principal formulação.
Pierre Bourdieu é incisivo sobre isso dizendo que essa tal alta cultura nada tem de elevada ou realmente alta. Ela é só uma convenção arbitrária de uma classe dominante qualquer e chamar isso de superior é precisamente o mecanismo de distinção com que os de cima se separam dos de baixo. A “boa vontade cultural” da base, aquele esforço meio desajeitado de imitar o gosto legítimo, não é ascensão nenhuma: é submissão a um jogo cujas regras ela nunca ajudou a fazer.
Não vou aqui tentar rebater cada ponto desse argumento porque isso sequer é necessário. O meu argumento, minha ideia central desse texto não depende de sua destruição. Mesmo sendo verdade, mesmo que a cultura das elites seja uma convenção arbitrária, imposição e etc e tal, o que nos interessa é o mecanismo. É o constante olhar pra cima que a base exerce. O tênis pirata ostentando o símbolo da Nike não me deixa mentir. E se o problema do exemplo for ser um “produto”, o que diremos do repente que já citei? Então...
Além disso, ainda ouvindo Bourdieu, se o gosto das elites é só opressão, essa valorização exacerbada da cultura dos guetos, das comunidades, esse funk em horário nobre, é só uma mudança de estratégia. Se antes a elite dizia “me imitem”, agora dizem “fiquem aí consumindo o que lhes convém”.
Mesmo assim, sei que meus opositores ainda torcerão o nariz e me acusarão de elitismo e outros ismos que prefiro nem mencionar.
O erro dessa resposta, entretanto, é fácil de demonstrar. Elitismo seria, por lógica e definição de quem me acusa, uma tentativa de segregação. Poupem-me de repetir Bourdieu, falamos agora há pouco disso.
Todo esse meu texto, contudo, é o inverso disso. Estou o tempo todo reclamando que certos “bens”, certo patrimônio, justamente pelo seu valor elevado, deveria ser acessível a todos. Quando defendo, com Harold Bloom, que a literatura precisa de um cânone, que precisamos berrar o valor de um Machado e de um Dostoiévski, eu não estou afirmando que a massa deve ficar longe desses autores magníficos, mas justamente o contrário. Enquanto meus opositores focam na matéria, reduzem tudo a uma luta de classes, eu falo de valores. Quem diz que a catedral vale mais que a coluna de isopor não está dizendo que uns homens valem mais que outros — está dizendo que todos os homens merecem a catedral.
A arte e muito especialmente a literatura são escapes, válvulas de sublimação. É o acesso à elaboração da linguagem que a literatura contém que proporciona a saída da selvageria, da profunda similaridade com os animais, para alcançarmos o território profundamente humano do verbo.
O elitista de verdade não é quem aponta o alto e diz “isto aqui é bom, venham”. O elitista de verdade é a elite que teve vergonha do alto e, pra ser amada pelos de baixo, entregou a eles o arremedo. Que baixou o modelo “em respeito ao povo” e, com esse respeito de mentira, condenou o povo a copiar o rebaixado pro resto da vida. A condescendência de verdade, a de fato humilhante, é a que diz no fundo do peito, sem nunca admitir em voz alta: *pra eles, o oco basta.* Matthew Arnold, lá em 1869, já tinha dito o contrário disso — que a cultura “busca abolir as classes, tornar o melhor que foi pensado e conhecido no mundo corrente em toda parte”. O alto como aquilo que se universaliza, que se estende a todos. Não como aquilo que se tranca a sete chaves. A elite envergonhada fez o inverso exato do que Arnold pedia, e ainda por cima se acha e se vende como generosa.
O homem da TV, relido uma última vez, não é o culpado nem o idiota da história. Ele é o último elo de uma corrente que gente culta cortou lá em cima. É a testemunha, no corpo e no gesto, de uma abdicação que aconteceu longe dele, décadas antes, em salas de aula e redações e departamentos onde ele nunca pôs os pés. Ele paga uma dívida que foi a ele legada.
O homem que as crianças veem perder o controle é o seu pai e também a materialização da privação de acesso à linguagem. É o fim visível de uma corrente que devia ter chegado até elas e parou no meio do caminho. Elas estão recebendo, em tempo real, a herança de uma coisa que não existe mais.
Resta apenas perguntar algo que não pretendo resolver, porque qualquer resposta seria fácil e, portanto — neste cenário, mentirosa. Uma cultura ainda pode voltar a ser cultivada de cima? Ou a vergonha da própria altura já é a água em que todos nadam a ponto de nem se enxergar mais como vergonha?
Olhando pra minha herança e abraçado a ela, sabendo o que deixarei para meus filhos, converso com Platão e sei com ele, e diante da minha incapacidade de resposta, só a pergunta já seria digna de elogio.
