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Em conversa com a Fina, Humberto Werneck analisa relançamento de coletânea de crônicas e fala sobre novos projetos

Bruno Pernambuco

“Você já ouviu aquela história do sujeito que sai de Lisboa pra comprar noz-moscada na  Índia e no meio do caminho ‘descobre’ um Brasil?”. O tempo da crônica, assim descrito por Humberto Werneck, por meio da anedota, é desta maneira: acidental, improvisado, que sucede na época e no espaço errados, mas que com rapidez deles se apropria para construir o relato. 

A busca de um substantivo no dicionário, que leva à redescoberta de um nome, é material para uma história. Igualmente uma confusão linguística e geográfica, numa época em que se inicia o ofício com as palavras. Óculos que só depois de muito tempo encontram o que enxergar. Os desencontros criam os motivos que fazem a crônica necessária. 

Fiapos de impressões e ideias, registrados em sua incompletude, são as portas que eventualmente vão dar para esses lugares, diz Humberto, avaliando seu processo pessoal. “A gente tem que merecer a inspiração”, lembra o cronista, e em O Espalhador de Passarinhos, recente relançamento, esse aspecto deslocado e cambaleante do processo criativo se faz sentir, seja registrando com rapidez acontecimentos vistos, seja redescobrindo coincidências trabalhadas pela memória.

Re-espalhada

A edição lançada esse ano pela Arquipélago Editorial é a segunda de O Espalhador de Passarinhos. Alguns detalhes, na troca de alguns textos, que dão lugar a novos escritos, se diferem do primeiro volume, lançado em 2009. “Ao contrário do que costuma acontecer com nosso corpo, que se envilece à medida que envelhece, o amadurecimento pode nos tornar mais exigentes e rigorosos”, comenta o autor a respeito das alterações feitas frente ao lançamento original. Se trata de uma leitura que retoma conselhos antigos, que se refazem necessários, dos mestres: vem de Otto Lara Resende o verbo “despiorar”, traduzindo o trabalho constante que é requerido no ofício do texto

Estes esforços incluem, também, o de permitir que as crônicas se apropriem uma nova roupagem, e que entre eles se construam novas rimas internas. A arte de “ordenar os textos, de forma que surja uma cadeia fluente, por vezes surpreendente e, se possível, sedutora” é destacada pelo autor, a respeito do projeto editorial. O sentimento aí colocado ensina novamente uma verdade: a de como, em um compêndio que nem esse, os textos se alimentam, e a relação do todo eleva a cada uma das partes, amplificando seu significado e, no melhor sentido possível, causando espantos no leitor.

Assim, no volume, os tempos se alternam com naturalidade. A remissão da memória caminha junto da agilidade da ironia, o cotidiano junto do tocante. Caso se imagine cada um dos textos do volume como um espécime de uma hipotética coleção mais volumosa de Hugo, o Espalhador original, certamente alguns acusaram imediatamente parentesco, visto na aproximação de detalhes dos bicos ou das asas, alguns se distinguiram por uma penugem vibrante e exótica, alguns, supõe-se, evitariam chamar a atenção, preservando assim sua cantoria íntima. O viveiro se enche e enriquece, e os diferentes cantos produzem um som harmonioso, mas não um trino que homogeniza as impurezas e as dissonâncias- ao contrário, uma música que faz sua beleza a partir delas.

A palavra da notícia e a palavra da prosa

“Crônica não é jornalismo, não é ensaio, é literatura, com tudo de voo cego que ela tem”, descreve Humberto, assim separando o gênero do trabalho jornalístico, que também lhe trouxe fama.  A narrativa se distancia, também, da ocupação principal do autor no momento, dedicada ao ofício de biógrafo.

“O trabalho de biógrafo, pelo menos como o vejo, é mais próximo do jornalismo do que da literatura. Nele não cabem voos da fantasia”, coloca Humberto. Uma declaração que, em seu realismo, mesmo que sem secura, poderia se contrapor à imagem do personagem biografado: Carlos Drummond de Andrade, cujas histórias o biógrafo vem coletando nos últimos anos, no esforço de um trabalho que, em seu passo atual, impõe um tempo que é da pesquisa de documentos, da leitura de bons e maus escritos, do encontro de referências que dão a referenciar outros textos.

Humberto, porém, explica que não é o caso que nada se aproveite da escrita da ficção, ou que o fazer literário não possa ser de alguma maneira abordado ao se lidar com um personagem tão próximo do ofício. Descreve, com elegância: “A biografia é um irmão mais encorpado do perfil jornalístico. É mais ambiciosa e mais extensa do que ele, mas a natureza de ambos, guardadas as proporções, é semelhante. Trata-se de compor um personagem – seja ele um espírito fino como o poeta Drummond ou um troglodita como aquele torturador que o Bolsonaro venera. O importante é que ele corresponda com fidelidade ao biografado. E, com o mesmo espírito, retraçar a trajetória desse personagem.”

As palavras, vindo de quem trabalhou com esmero o gênero do perfil jornalístico, e tão bem se apropriou do metiê, revelam muito a respeito da escrita do gênero biográfico. Se todo autor busca fidelidade em sua escrita, quem se aventura pelo gênero da biografia assume um compromisso que é com os fatos acontecidos, e com um retrato completo do personagem abordado, que muitas vezes contradiz e desmente aquela fantasia que na escrita de ficção serve de material.

Sempre se está, no jornalismo, e na escrita biográfica, procurando os pontos de partida- afinal, nos acontecimentos os caminhos estão sempre entrelaçados no meio, e é difícil enxergar suas pontas, e determinar onde começa uma linha e termina outra. Para apontar onde os diferentes gêneros se intersectam, e onde os dois tempos se cruzam, diz, afinal, Werneck: “Do jornalista, creio que um bom cronista pode aproveitar a capacidade de dizer sem se derramar. Além disso, a capacidade de ver o que para a maioria das pessoas está menos visível. Do autor de ficção, o bom jornalista pode – deve! – aprender as artes de uma escrita sedutora.”

(Humberto Werneck é escritor, jornalista e editor. Editor sênior da revista Quatro Cinco Um e do Portal da Crônica Brasileira, além de cronista, no momento licenciado, do Estado de São Paulo, tem passagens pelo Jornal da Tarde, pela revista Playboy e pelo Suplemento Literário Minas Gerais, dentre tantas outras publicações.)

O Espalhador de Passarinhos

Arquipélago Editorial

176pp.

R$45,00