Que tal mudarmos esse jogo? Topa vir comigo? Já sei, não vai ser fácil. E ninguém aqui disse que seria moleza. Mas eu sei que é possível. Como eu sei? Eu tenho um exemplo bem perto de mim.

Maria Paula Curto *

Para vocês não falarem que eu sou muito negativa e que fico martelando a tecla do NÃO, como uma pessimista enlouquecida, resolvi inverter a moeda e contar que o bom e velho SIM também é um exercício necessário e complexo, se levado para um caminho que a gente costuma deixar de lado. Parece mentira, mas a gente esquece de dizer sim à vida. Não à vida cotidiana, da ralação, do piloto automático do “viver para pagar boletos”, do corre-corre “em busca de um sono tranquilo” ou de troféus na estante para mostrar a outrem – ou a nós mesmos? – o quão “incrivelmente tops” (sic) nós somos. Não, eu não me refiro a essa vida. Mas a outra. Aquela que a gente anda engavetando na mesa de cabeceira, enfiando debaixo da cama, ou no armário do quartinho da bagunça, à espera do momento ideal. Amanhã, quem sabe. Mês que vem, talvez. Quando eu tiver mais grana. Quando eu comprar um celular melhor, um apê maior. Quando eu tiver mais tempo livre… E presos, na ilusão do “presente eternamente adiado”, sentimos um cheiro azedo, da vida já apodrecendo, vindo do tal quartinho…

Que tal mudarmos esse jogo? Topa vir comigo? Já sei, não vai ser fácil. E ninguém aqui disse que seria moleza. Mas eu sei que é possível. Como eu sei? Eu tenho um exemplo bem perto de mim. Um homem que, do alto dos seus 81 anos – e quase 1,90m – está pronto para mudar de cidade e de vida. Já pensou? Após 81 anos sentindo a brisa do mar carioca envolvendo a pele (como eu tenho saudade do cheiro de maresia), ele se dispôs a mudar para a Pauliceia desvairada. Coragem? Também. E disposição para a vida. Aquela, guardadinha.

Já pensou? Após 81 anos sentindo a brisa do mar carioca envolvendo a pele (como eu tenho saudade do cheiro de maresia), ele se dispôs a mudar para a Pauliceia desvairada. Coragem? Também. E disposição para a vida. Aquela, guardadinha.” Foto: Acervo da autora, em San Andreas, Colombia.

Ele não guarda, ele desfruta. De imediato. Se ganha uma camisa de presente hoje, pode ter certeza de que amanhã ele sairá com ela para o seu passeio matinal. Cores? Usa todas. E não é porque é meu pai não, mas o coroa é muito elegante. E não teme a ousadia. Usa vermelho, laranja e até rosa, como se não houvesse amanhã. E há?

Bater perna? É com ele mesmo. Ver vitrine? Já está prontinho e perfumado. E se tiver uma liquidação, “não custa experimentar, né filha”? Viajar? Só esperar o tempo para ele fazer a mala que, geralmente, é um pouco mais cheinha do que seria o meu padrão, mas ele quer estar bonito para conhecer novas cidades, novas culturas. Vaidade? Pode ser, mas com uma pitada de autocuidado e autoestima que, na dose certa, faz um bem danado para a alma da gente. Experimentar comidas diferentes? Por que não? Basta estar bem temperada e o garfo está lá, a postos. Mesmo que depois ele tenha que rir de nervoso, ao descobrir que o filé maravilhoso que acabou de saborear não custava 9 euros como dizia o cardápio, mas 36, pois 9 era somente para 100 gramas e o filé era muito mais gordinho…. Mas tudo bem. Estava delicioso. E a gente pode se dar a esse luxo uma vez na vida, certo? Fora que o engano rendeu – e ainda rende – boas risadas…

“Viajar? Só esperar o tempo para ele fazer a mala que, geralmente, é um pouco mais cheinha do que seria o meu padrão, mas ele quer estar bonito para conhecer novas cidades, novas culturas.” Foto: Acervo da autora na Itália.

Programa cultural? Gosta também. E se for uma ópera então, os olhinhos chegam a brilhar. E eu, até hoje, guardo na memória Mimi morrendo e a neve caindo no palco do Teatro Municipal do RJ. Detalhe: eu tinha apenas 11 anos. Lá se vão quase 45…Conhece MPB como ninguém e se tiver que acompanhar, no gogó, um bom violão, é bem afinadinho (devo confessar que a família é composta por cantores frustrados. Euzinha incluída). Emocionar-se com as vozes, o repertório e as histórias do The Voice +. Brega? Talvez, mas quem nunca? Eu mesma confesso que já tive alguns ciscos nos olhos ao ver senhorinhas de 90, no palco, maquiadas, sorridentes e com aquele baita vozeirão. Carnaval? Não sabe sambar, é fato, mas fazia questão de me levar na Sapucaí. Gostava da bagunça do metrô – que nessa época vira uma espécie de pré-concentração, com os vagões parecendo as alas aquecendo os tamborins – e esperava eu terminar o desfile, comendo um belo salsichão com cerveja em uma barraquinha qualquer. Esteve comigo mesmo quando o samba enredo da Estácio de Sá homenageava o arquirrival Flamengo e ainda aplaudiu a filha, vascaína até hoje, cantando “sou Flamengo até morrer”… O que a gente não faz por um bom desfile na avenida…

Esporte então, é com ele mesmo. No momento, as partidas de futebol pela televisão andam meio prejudicadas já que o time cruz-maltino amarga um repeteco na segunda divisão, mas curte quase tudo: vôlei, basquete, tênis, e até aquele esporte de inverno que parece uma bocha no gelo, com a tal da panela de granito escorregando pela pista com um monte de gente varrendo ensandecidamente o caminho. Não só curte, como comenta e dá palpite. Aliás, esse é um capítulo à parte. Sua empolgação com as partidas é tanta, mas tanta, que o diálogo com os comentaristas – nacionais ou estrangeiros, tanto faz – soa tão alto que parece que tem umas 10 pessoas na sala. Ou que o Galvão Bueno vai ouvir o que ele está dizendo. SQN. Pouco importa. O que vale é ter sempre essa animação, esse entusiasmo. Com a partida de futebol. Com a final do vôlei. Com o reality show dos cabelos brancos. Com as vitrines, as ruas, os filés gordos e caros. Com uma nova possibilidade de viver.

“Enquanto houver anima, há de haver vida. Com 80, 20 ou 50. Basta se permitir. Abrir a porta do tal quartinho. E deixar a vida ser.” Foto: Acervo da autora, em Catargena, Colombia.

Talvez aí resida a chave do mistério. Trazer dentro de si esse entusiasmo. Essa animação. Hoje. Sempre. Não interessa se estamos sozinhos na sala, na quadra, na avenida. Enquanto houver anima, há de haver vida. Com 80, 20 ou 50. Basta se permitir. Abrir a porta do tal quartinho. E deixar a vida ser.  

Vamos fazer como meu pai e dizer SIM à vida?

E eu fico com a pureza

Da resposta das crianças

É a vida, é bonita

E é bonita

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.