É uma belezura o poder de abstração humano ao “criar a matemática”. Já se deram conta disso? Afinal, como diria um antigo professor, você nunca viu um número dois passeando pela rua, não é mesmo?

Maria Paula Curto *

Vocês vão dizer assim: “lá vem ela novamente com essa coisa de matemática!!! Afff! Você não dá sossego pra gente. Nem nas férias. Deixa eu quietinho aqui sem ver nenhum número pela frente. Eita felicidade”. Discordo muito. Pra mim, nada me traz mais calma e tranquilidade do que um bom e velho número. Fiquei louca? Ou melhor, pirei de vez com uma afirmação dessas? Bem, deixa eu tentar me explicar. Tenha um pouquinho de paciência e se você não concordar comigo “ao fim e ao cabo” (essa expressão é tão portuguesa… lembrei do meu avô. Ou melhor, dos meus avós, pois o sangue lusitano corre nas veias pelos dois lados… sim, eu sou “burrinha” ao quadrado, para já entrar no tema), tudo bem, eu ficarei de boa. Eu consigo conviver em um mundo onde existem diferenças. De jeitos, de posturas, de gostos, de opiniões. Eu prezo pela liberdade. Desde que o respeito seja mantido. Mas isso já é papo para uma outra conversa…

Eu não entendia direito porque, em momentos de stress, eu buscava os números. Achava que poderia ser algum tipo de patologia. Durante engarrafamentos, nem a música no rádio conseguia me acalmar. O que me tranquilizava, no lugar de acordes suaves (ou nem tanto), era fazer cálculos com os números da placa do carro da frente. Eu tinha que montar uma espécie de equação envolvendo todos os números e que o resultado fosse zero. Usava soma, subtração, multiplicação, potência, tanto faz. O importante era chegar ao meu querido zero. Só isso me mantinha distraída na marginal às 18:30, fazendo o caminho do trabalho, na altura da ponte Transamérica, até a PUC-SP em Perdizes. Para quem não é de SP é algo como sair de Botafogo e ir até o Fundão no RJ (coisa que eu fazia na época da primeira graduação). Eu media o tamanho da encrenca que eu teria pela frente pela quantidade de vendedores de água e pipoca do saquinho cor-de-rosa. Se passasse de uns dois ou três, a coisa estava complicada. Eu levaria uma hora e meia, brincando. Ah, e para a nova geração, lembro que nessa época não tinha WhatsApp não. Nem internet nem smartphone. Eram os celulares tipo tijolo e cada ligação custava uma verdadeira fortuna, ou seja, não era para o meu bico. Então, diversão era o rádio ou esse meu querido joguinho com os números. E eu gostava quando a coisa encrencava e não era tão simples como uma placa tipo 3241. A coisa ficava boa quando as operações tinham que ser mais complexas. Envolviam potência. Amo potência! Mesmo antes de saber que somos exatamente isso: seres em potencial. Sempre em busca de mais. A matemática traz em si desejo. Vai dizer que isso não é bonito?

A coisa ficava boa quando as operações tinham que ser mais complexas. Envolviam potência. Amo potência! Mesmo antes de saber que somos exatamente isso: seres em potencial. Sempre em busca de mais. A matemática traz em si desejo. Foto: Chapéu manufaturado com fibras vegetais segundo a técnica de espiral cosida, Guiné Bissau/Reprodução.

Outra belezura é o poder de abstração humano ao “criar a matemática”. Já se deram conta disso? Afinal, como diria um antigo professor, você nunca viu um número dois passeando pela rua, não é mesmo? Sem falar que a matemática não teve um “inventor” como a lâmpada, o telefone ou o avião. Ela nasce de uma necessidade humana de medir, de contar, de trocar. Já pensou o que seria uma vida sem números? Como faríamos para adquirir alguma coisa, trabalhar e ser remunerado por isso? Pensando bem, poderia ser interessante… estaríamos ainda na natureza, como animais que somos. Caçando e pescando para comer e dormindo nas cavernas. Começo a desconfiar que a civilização não seria possível sem a minha querida matemática…

E o número zero então? Esse não-número que foi criado muito tempo depois e representa esse vazio que tentamos insistentemente evitar. Que número mais poderoso. Sozinho ou somado não significa nada. Porém, não existe um ser humano que não sonhe com milhões de zeros dispostos à direita na sua conta bancária. Com um simples movimento, ele vai do nada à ambição de muitos, se não de todos… E muito cuidado com ele numa multiplicação, pois ele pode destruir todos os outros números, com um simples sinal de vezes. Por isso, respeite-o ou lá se vai uma vida de trabalho por água abaixo. Por outro lado, se ele for colocado no denominador de uma divisão, ele explode ao infinito! Que poder tem esse tal de zero, não? A gente deveria aprender com ele a não evitar os nossos vazios, mas a transformá-los no infinito das nossas possibilidades…

Permanência, objetividade e honestidade. Eis as qualidades que mantêm a matemática eterna. Foto: Reprodução.

Talvez a grande magia da matemática – e é aqui que ela se transforma no meu Prozac de plantão – resida na sua permanência, objetividade e honestidade. Um número três, por exemplo, é um número três hoje, ontem e sempre; aqui, na França ou na Austrália. Se somarmos o três com o dois, o resultado é cinco. E pronto. Sem questionamento. Sem maquiagem. Números não mentem. Jamais. Até mesmo quando ele está escondido num x ou num y, é só a gente calcular direitinho, seguindo a trilha correta da equação, que o resultado será o mesmo. Para mim ou para você. Claro e cristalino. Sem nuances. Sem disfarces. Sem segundas intenções. Com a matemática, não há traição nem covardia. Número não muda de ideia. Nem nos vira a cara. Pode não afagar (será?), mas não nos bate nem nos cospe. Não age por baixo dos panos. Não precisa de anestesia nem de habeas corpus. Não se esconde nas entrelinhas, nas esquinas, no armário. Com os números, não é necessário esperar o lugar adequado, o momento propício, nem a melhor forma de dizer. Número já nasce dito. Inteiro, mesmo que em frações.

Medo da matemática? Jamais. Medo mesmo, eu tenho é de gente…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.