Eça de Queirós, uma maneira de sentir

Eu sempre digo que sempre temos que voltar a ler os clássicos, o reencontro com a leitura de Eça é sempre uma das maiores e gratificantes experiências literárias que podemos ter. O primeiro contacto que tive foi quando vivia em Portugal a finais do século passado. Sempre ouvi falar maravilhas do Eça, mas não a especialistas em literatura ou professores formados, mas pessoas normais do dia a dia, companheiros do trabalho que diziam o melhor da prosa do Eça e recomendavam a leitura. Virgílio Ferreira disse “Com Eça de Queirós aprendi a escrever e com Henri Malroux aprendi a pensar”. Concordo completamente com esta frase, com Eça podemos aprender mesmo a escrever e por isso é que recomendo seus textos. Podemos gostar ou não dos livros ou temáticas mas com a sua leitura sempre teremos benefícios positivos. Será que como costumava escrever em pé estamos perante uma “prosa elevada”?

 Falar de Eça de Queirós é falar do quem é sem dúvida o maior escritor português do século XIX e um dos maiores escritores de todos os tempos. Conseguiu fama internacional e é considerado o precursor do realismo na literatura portuguesa. Foi muito crítico com o clero, a pátria, a burguesia, a política, e em consequência também foi muito contestado.

Nasceu em Póvoa de Varzim, seu pai o brasileiro José Maria Teixeira de Queirós foi um importante magistrado e foi baptizado tendo “mae desconhecida”, uma estratégia jurista do pai devida ao facto dos pais não estar casados (considerando indecente naquela época) e evitar que o filho tivesse outro apelido que não fosse o do verdadeiro pai. Esta terrível situação (o drama do nascimento de mae incógnita) e o facto de ser ocultado durante um tempo, sendo criado pelos avós paternos é considerado por muitos que marcou profundamente a sua personalidade, foi um menino sem mãe, sem lar familiar, faltou a ternura materna nos primeiros anos da sua vida, se calhar os anos mais importantes das pessoas.

Estudou na cidade  do Porto e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde teve contactos com movimentos estudantis e finalizada a formação foi para Lisboa onde exerceu algum tempo a advocacia. Iniciou sua carreira literária como romântico, evoluindo até o realismo nos seguintes anos. Numa primeira fase, a partir de 1867 publicou em diferentes jornais e até assistiu como jornalista à inauguração do Canal de Suez no Egipto. Colaborou com grupos de estudantes divulgadores de novas ideias e com o Cassino Lisbonense onde proferiu a palestra “O Realismo como Nova Expressão do Arte” e criou junto com o amigo e também escritor Ramalho Ortigao “As Farpas” textos críticos e humorados sobre a realidade portuguesa.

A partir do ingresso na carreira diplomática, foi cônsul em Havana e na Inglaterra, foi quando começa uma segunda fase literária. Publicou O Crime do Padre Amaro em 1875, considerado o início do realismo na literatura portuguesa. A seguir em 1878 publicou O Primo Basílio, criticando a decadência da burguesia e o romance O Mandarim.

Casou em 1886 aos 40 anos com Emília de Castro e a partir desse momento ve o mundo de outra maneira. Em 1888 foi nomeado cônsul em Paris e publica Os Maias, iniciando uma terceira fase, esquecendo o realismo para aprofundar nos valores moralizantes e construtivos, publicando A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras. Morreu em Paris no ano 1900.

Estamos portanto perante a mais bela prosa do século XIX, a prosa de um homem extremamente inteligente que costumava dizer “Os meus romances no fundo são franceses como eu sou no fundo um francês em quase tudo”, mas podemos afirmar que foi um francês muito português, como demostra as contínuas referências à sua terra natal e nomeadamente o facto de pretender manter contacto permanente na sua quinta de Tormes, na serra do norte de Portugal, da qual estava profundamente apaixonado.

Aparte dos romances escreveu folhetins, cartas e contos, alguns dos quais foram seleccionados para a leitura e análise.

Singularidades de uma rapariga é um dos mais famosos de Eça. O seu início é mesmo um desafio e uma intriga, um dos começos mais conhecidos na prosa portuguesa: “Começou por me dizer que o seu caso era simples – e que se chamava Macário...” Adoro esta simplicidade de palavras, consegue dizer tanto e incentivar a continuação da leitura. Porque o “caso” é certamente muito simples, já desde o início o leitor entende o que está a acontecer, mas o coitadinho Macário só abre os olhos no fim da história, talvez fechados pela beleza da rapariga loura. Tinha mesmo que ser loura?. As descrições das diferentes cenas são mesmo sublimes, podemos ler e reler e é sempre gratificante.

Civilização é a história do Jacinto, o protagonista do romance “A Cidade e As Serras”. A procura da simplicidade da vida, de voltar aos origens, à terra familiar. Certamente o escritor decidiu que havia tanta coisa por dizer e ampliar que o conto acabou em romance, ou será que o romance também procurou simplicidade e acabou por se converter  num conto? Cada um pode extrair as suas conclusões. Aprofunda na ideia do homem à procura da casa, do lar, da mãe que tanto procura. Gosto muito de lembrar o comentário do Jacinto ao chegar às serras acolhedoras de Tormes: Que beleza! Que beleza! Adoro também a parte em que o fonógrafo não para de dizer “quem não admirará os progressos deste seculo?”, as vezes gostaria saber o que pensaria Eça dos progressos digitais do século XXI, antes era o fonógrafo e agora são as redes sociais a repetir como papagaios as mesmas coisas sem fundamento.

O tesouro é mesmo um conto redondo. Escolhi este texto porque gosto muito das histórias que tem um início bem definido desde o início. Só na primeira página já temos informação sobre os protagonistas, nomes, atividades, época do ano, forma de viver, inquietudes. Ler esta página é mesmo aprender a escrever! E o fim, dramático e previsível fecha perfeitamente a história, não há lugar para finais abertos em que ficamos a fantasear sobre o que poderá acontecer no futuro. É curioso descobrir que o que pensamos que pode ser a solução de nossa vida pode ser finalmente o fim da nossa vida.

Nos últimos contos propostos Frei Genebro e A Aia as histórias sao parecidas, utiliza a exageração extrema para expor vidas ou situações das quais podemos extrair nossas próprias conclusões. A vida do Frei é uma crítica ao catolicismo ou realmente está a fazer uma crítica, chamada de atenção ou aviso aos que se consideram bons católicos. Claro, pensemos no tempo em que foi escrita e como seria recebida a leitura. Mais uma vez estamos perante uma situação de extrema atualidade, pensamos e dizemos uma coisa e fazemos o contrário, as leis estão feitas para outros, eu defendo isto mas faço o contrário...

Enquanto A Aia, é uma exaltação dos valores das pessoas, neste caso a lealdade. Eu fico a pensar até que ponto estaríamos dispostos a chegar para demonstrar e defender nossa lealdade em diferentes âmbitos da vida (familiar, trabajo, comunidade...). É um valor que ainda existe ou só pertence a outras épocas? Uma pessoa leal até a morte é admirável ou é uma mostra de pessoa parva?

Finalmente com estas histórias, aparte de aprender a escrever, aprendemos também a pensar. Não acham?


Deixo alguns links de programas do admirado Prof. José Hermano Saraiva para ampliar informação

A alma e a gente 

https://www.youtube.com/watch?v=VvosXAidctA

Horizontes da memória

https://www.youtube.com/watch?v=Gw2T_5UCrYQ






 Foi um grande prazer partilhar este encontro convosco.

O Eça


Voltem sempre aos clássicos... e às serras!



Boas leituras e boas caminhadas!




Máquinas do inferno, tenham cuidado!