Em “As horas”, Michael Cunningham invoca o “Mrs. Dalloway” de Virginia Woolf, pintando um retrato da escritora enquanto personagem
Laura Pilan
Em uma troca de correspondências, Virginia Woolf demonstrou seu interesse em escrever quatro linhas ao mesmo tempo – como faria um músico. Isto porque reconhece que as coisas acontecem em vários níveis diferentes simultaneamente. Ao escrever As Horas, Michael Cunningham articula Virginia, Clarissa – a mesma de Mrs. Dalloway e, ao mesmo tempo, outra – e Laura como as vozes melódicas que compõem um contraponto musical. São três linhas, separadas por momento histórico e espaço, mas que só adquirem significado se lidas em conjunto – uma após a outra, encadeadas, soando em uníssono.
É bastante significativo que o romance receba o nome de As Horas. Trata-se do primeiro título que Virginia pensou para Mrs. Dalloway. Indubitavelmente, a decisão de Woolf atribui uma individualidade pungente para sua protagonista – ainda que seja interpelada pela posição social que ocupa e pela subjetividade de Septimus. A passagem do tempo, no entanto, nunca escapa ao seu olhar: as páginas ainda devem compreender a vida e as particularidades que cabem em vinte e quatro horas. Cunningham reconhece as propriedades do tempo na obra woolfiana, mas opta por estender o alcance de sua visão, dedicando-se a capturar fragmentos de três vidas distintas e intercalá-los como faria às peças de um mosaico – um quebra-cabeça confuso, formado por partes imperfeitas e de encaixe inexato. Perturbadas pela existência e seus acontecimentos, as horas são obstáculos que devem ser atravessados por suas protagonistas.
Que não sejam possíveis as confusões de qualquer tipo: Mrs. Woolf, àquela retratada por Cunningham em 1923, é uma personagem. As Horas não é uma biografia, apesar de partilhar características com a vida de Virginia – o indivíduo real, que caminhou pelas ruas de Londres e escreveu romances exemplares. A Woolf descrita por Cunningham é atormentada por uma aguda melancolia, por dores de cabeça lancinantes e vozes que falam em outras línguas. A artista verdadeira, feita de carne, sangue e ossos e não só de papel e tinta, também sofria dessas angústias. Todavia, transposta ao romance, recebe a condição de personagem – por meio da qual adquire uma liberdade que só pode ser garantida pela ficção, mas é limitada pelos mesmos princípios. Cunningham não pode nos oferecer mais do que um poderoso vislumbre de quem foi Virginia Woolf – assim como a representação de um objeto não pode ser nada além disso: uma reprodução. Interessante, mergulhada em cores, mas ilusória.
Clarissa Vaughan não é Clarissa Dalloway, apesar do que dizem a obsessão e a insistência de Richard Brown. Coincidentemente, a nova iorquina está cercada pela cidade, pelos ruídos da modernidade e também por indivíduos parecidos com os descritos por Woolf. Em paralelo às aparições de Mrs. D. – àquela idealizada por Richard e, em diferente nível, por Cunningham –, está o processo de composição de Virginia, esforçando-se para delimitar os contornos e agarrar a Clarissa Dalloway que lhe escapa feito fumaça entre os dedos. Chamá-las de “lados de uma mesma moeda” é um equívoco: aqui, as linhas narrativas são espelhos que apresentam reflexos distorcidos e, por isso, desiguais.
A figura comum e calculada de Clarissa Vaughan acompanha a imagem decadente e imprevisível de Richard Brown. Ele é vítima da mesma insatisfação existencial que abatia Woolf e receptáculo da insanidade que é atribuída à Septimus Warren Smith. Por meio da relação instável do casal trágico, Cunningham é capaz de recriar os motivos condutores que são essenciais para o enredo de Mrs. Dalloway: as dicotomias entre vida e morte e entre sanidade e loucura. Através deles, leva os debates abordados na década de 1920 para o final do século XX: refere-se às complexidades do exercício da sexualidade, às violentas consequências de uma enfermidade e ao suplício das ideações suicidas.
A guerra não é a fonte dos sofrimentos de Richard, ainda que seu pai seja um admirável sobrevivente dos conflitos bélicos. A origem do seu trauma está em sua mãe – Laura Brown, que vê no abandono do filho e na fuga da casa a única possibilidade de sobrevivência. É despertada de sua caminhada entorpecida por uma existência ordinária graças ao romance Mrs. Dalloway – cuja leitura torna impossível ignorar o quanto sua vida é dispensável. A perpétua insatisfação, a ininterrupta frustração e o contínuo sentimento de fracasso são características transmitidas a Richard como uma maldição inescapável. Laura consegue superá-la e, como resultado, condena o próprio filho à loucura e à morte.
Por meio de Virginia, Clarissa e Laura, o autor apresenta diferentes ângulos de uma mesma trajetória: existe a criadora de Mrs. Dalloway, uma mulher que vive como Mrs. D. e outra que sofre as consequências de lê-la. São realidades distintas que se alimentam, coexistem dentro de uma mesma obra literária e dividem espaço dentro da narrativa. Que isso seja possível reflete a precisão de um escritor enquanto artesão das palavras, competente nos usos inusitados de seu ofício. A estrutura incomum é notada, a nível metalinguístico, por Richard – e constitui parte de sua loucura. Ele é um sujeito capaz de distribuir os fragmentos de sua consciência entre presente e passado e, em profundo delírio, existir segmentado entre as várias temporalidades. A subjetividade cindida é sua grande tragédia.
Clarissa Vaughan também decide comprar as próprias flores para uma festa – e este é o acontecimento mais comum em que consegue pensar. Ela existe na linha tênue entre o livre-arbítrio e as amarras das quais não é capaz de se desvencilhar. Quando encerra a leitura de As Horas, o leitor deixa para trás uma personagem cujo conforto das convenções é abalado por uma morte súbita. Diante de Laura, a traidora que escolheu fugir, Clarissa Vaughan reconhece que não há saída além de viver por mais algumas horas. Pairando sobre todas essas mulheres, está a Mrs. Woolf de Cunningham, que só encontra a libertação – que é essencialmente distinta da liberdade – por meio da morte.