Novela gráfica é ótima introdução ao pensamento de um dos teóricos fundamentais do século XX

Bruno Pernambuco, crítico da Fina

Nos últimos quarenta anos, o mundo das publicações em quadrinhos tem enfrentado uma mudança completa, envolvendo todas as suas etapas de produção e publicação. É possível ver nesse movimento como os quadrinhos são, hoje, apreciados pelo público em geral, em que obras de fôlego, e de uma construção elaborada de mundos e personagens, se transformaram no veículo principal de publicação em quadrinhos, em oposição às revistas e tiras de jornal que originalmente popularizaram a forma. 

Obras como Palestina, de Joe Sacco ou Persépolis, de Marjane Satrapi tornaram-se símbolos dessa transformação: graphic novels  que se propunham a, e muito bem o faziam, ilustrar narrativas “sérias”, de uma carga emocional, histórica ou lírica muito mais intensa do que se acreditava ser possível fazer em uma forma ilustrada.  Marcuse em Quadrinhos, descendente dessa geração, tenta elaborar uma outra questão: não apenas se é possível representar uma biografia em forma de comic, mas também sobre como é possível traduzir ideias e elaborações conceituais de um filósofo por meio de quadrinhos. Para fazê-lo seu autor, Nick Thorkelson se utiliza da própria história do teórico, e de recortes trazidos  do presente e de outras figuras que compartilharam a mesma época do pensador alemão.

A proposta de Marcuse em Quadrinhos se encontra num embate essencial entre imagem e texto- como representar num meio visual e dinâmico aquela construção pensada no texto?- e nesse sentido é muito agradável a escolha de Thorkelson por não tentar explicar os conceitos da obra de Marcuse através da analogia visual, mas, em vez disso, de dar espaço ao texto, lançando mão de boas, e feitas ainda melhores por sua concisão e simplicidade, explicações da obra do filósofo-personagem, ilustrando-as com representações de eventos de sua vida ou de acontecimentos que condizem com a época de cada obra abordada.

Herbert Marcuse em sua biografia ilustrada/imagem: editora Veneta/divulgação

A introdução à obra de Marcuse acontece naturalmente ao longo do livro. Vida e obra são misturadas, na composição narrativa de Torkelson, com muita habilidade, sem que em qualquer momento uma se reduza à outra. O carinho do autor pelo pensamento do filósofo alemão se mostra ao longo da história, e se evidencia naqueles momentos em que a realidade pessoal, de diferentes formas, se cruza com o fato histórico. A leitura filosófica aparece em passagens extremamente bem escritas, em que é possível acompanhar o desenvolvimento do pensamento do filósofo intrinsecamente ligado a acontecimentos de sua vida.

É penosamente redutor resumir toda a trajetória intelectual de Marcuse a um simples papel de “Professor popstar”, ou de “Guru da New Age”, e, embora o livro se demore nesta fase da recepção do filósofo, o grande mérito de Thorkelson em Marcuse em Quadrinhos é bem ilustrar o amadurecimento de um autor que mantém uma integridade intelectual ao longo das diferentes fases de sua produção- do aluno de mestrado à consagração acadêmica e popular nos Estados Unidos.A maior pena do livro é que o autor não se coloque na mesma posição de personagem multifacetado, vivo e contraditório onde desenha Marcuse.

Nas intromissões do presente espalhadas ao longo da narrativa linear da obra, Thorkelson, seus pais e outros membros de sua família, e mesmo Peter, o filho de Herbert, surgem mais como um dispositivo narrativo para prosseguir a história que como personagens totalmente formados. Isso não é necessariamente um problema- o artifício certamente funciona, e nessas elipses a história passa de maneira natural. Mas, ao contextualizar sua própria história dentro do tempo e dos acontecimentos de seu personagem-título, o autor desperta, sem mais trabalhá-la, em quem lê a obra uma vontade de se aprofundar em um outro lado dos fatos que está subentendido.

trecho do livro/ Veneta

Fica um sentimento de que entender as contradições inerentes a esses personagens, vê-los por um lado menos elogioso, poderia ser uma forma de aproximar aquela história que é relatada das mudanças culturais que se sucederam após a morte de Marcuse. Mas esse, de fato, não é mais do que um pormenor dentro da obra que é  um relato biográfico emocionante, profundamente expressivo em suas representações- da guerra, das manifestações populares contra a violência racista e o alistamento forçado para o Vietnã- e, também, uma biografia intelectual honesta, e que consegue apresentar de um modo cativante a obra de seu personagem.

De traço e roteiro excelentes, Marcuse em Quadrinhos não é somente uma ótima introdução ao pensamento de um dos teóricos fundamentais do século XX, mas também uma obra artística tocante e cheia de valor-  que afere, mais uma vez (como se ainda o fosse preciso) a capacidade dos quadrinhos de representar e revelar novos aspectos das mais diversas formas de história.

MARCUSE EM QUADRINHOS
páginas: 144
ano de edição: 2020
autor: Nick Thorkelsom
tradutor: Alexandre Barbosa de Souza