Você pode. Respira, engole o choro e vai à luta
Maria Paula Curto*
Quando lembro da minha infância, a primeira coisa que me vem à mente são as palavras da minha mãe de empoderamento feminino, na época em que o termo ainda nem existia. Para ela, o fato de eu ser mulher não significava que eu não poderia fazer o que quisesse. Se você gosta de matemática, filha, vai à luta! Eu fui. No terceiro ano do ensino médio havia 100 alunos na sala. Sabem quantas mulheres? 8, apenas 8. Isso não era um empecilho para mim. Nunca foi. Ao contrário, era quase um estimulante para provar que eu tinha todo o direito e a competência de estar no meio deles. Um simples falo não faria a diferença. A minha fenda era a abertura para um mergulho em inúmeras possibilidades. E ela, nascida em 34, pensava da mesma forma. E se, por acaso, eu reclamasse, baqueasse, esmorecesse, pensasse em desistir ou algo do gênero, lá vinha ela com o famoso: você pode. Respira, engole o choro e vai à luta.

Ponto para Dona Lucinda. Podia ser bem dura, às vezes, mas me preparou para os trancos do mundo. Outra coisa que sempre dizia era: o mais difícil em educar os filhos é saber dizer não .Foto: Acervo da Autora
Outra frase famosa, que eu ouvia incansavelmente desde a minha infância era: “aqui em casa ou estuda ou trabalha, vagabunda eu não sustento”! Como a grande preguiçosa que sou em trabalhos domésticos e a total falta de jeito com as coisas do lar – cozinhar, costurar, bordar, Deus meu, não é nem nunca foi comigo. Acho importante e bem bacana quem tem jeito com essas coisas, mas, infelizmente, não é o meu caso. Tenho duas mãos esquerdas! E caso você ainda tenha alguma dúvida, vale ressaltar que sou destra…- resolvi estudar. Era mais fácil. E mal sabia eu o quanto seria mais justo.
Também bem pequena, fui acostumada a assumir minhas responsabilidades. Nem adiantava dizer que “mas mãe, não fui eu” que ela não acreditava. Aliás, quando alguém dizia “a Paula não teve culpa, ela é muito pequena, foram as outras crianças que aprontaram”. A resposta era sempre a mesma: “Ela tem discernimento. Deveria saber o que era correto fazer”. Isso quando a coisa não era ainda pior, como: “Aposto que foi ideia da Paula. E os outros, tolinhos, embarcaram na lábia dela. Essa menina não é fácil.” É mole, ou tu quer mais? Então, antes de qualquer coisa, eu já assumia a responsabilidade, pedia desculpas e falava que da próxima vez seria diferente. Com isso, aprendi bem cedo que toda ação tem consequências. E tentar “tirar o seu da reta” não molda caráter de ninguém. Ponto para Dona Lucinda. Podia ser bem dura, às vezes, mas me preparou para os trancos do mundo. Outra coisa que sempre dizia era: o mais difícil em educar os filhos é saber dizer não. Um não fundamentado, consistente. O sim é fácil, mas costuma não ajudar ninguém. Pior é que hoje eu tenho que concordar com ela. Quando ouvi um antigo chefe falar que a estratégia de uma empresa é definida não por aquilo que ela quer fazer, mas por aquilo que ela Não vai fazer, lembrei logo da minha mãe. E como essa recusa é difícil. Espero ter aprendido o suficiente para passar essa mesma lógica para as minhas filhas. Que Deus me ajude!

“Nunca, nunca mesmo, saia de casa sem o dinheiro do taxi da volta! Discutiu com o bofe, brigou com o namorado, abre a porta do carro e vai embora. Volta pra casa. Não dependa dele nem de ninguém. Hoje ele pode dizer que te ama, amanhã, você não pode garantir nada. A sua única garantia é você mesma.” Foto: Acervo da Autora
Agora, não posso deixar de mencionar aquela que talvez seja a mais emblemática das falas da minha mãe para uma jovem mulher: “Nunca, nunca mesmo, saia de casa sem o dinheiro do taxi da volta! Discutiu com o bofe, brigou com o namorado, abre a porta do carro e vai embora. Volta pra casa. Não dependa dele nem de ninguém. Hoje ele pode dizer que te ama, amanhã, você não pode garantir nada. A sua única garantia é você mesma.” Muito cruel? Pode ser, mas sei que isso me moldou e que eu sempre saí de casa com os tais 20 reais do dinheiro do taxi (não tinha Uber na época e 20 reais eram suficientes, só para lembrar). Podia ser uma pequena quantia, mas esse dinheiro se transformou no meu passaporte da liberdade. O que aprendi com ele? Tenha as rédeas da sua vida. Não tenha medo de se posicionar ou de ter uma opinião contrária. Construa o caminho de volta. E o mais importante de tudo: a liberdade é o bem mais valioso de um ser humano.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP