Celebra-se hoje o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que coincide com a data da morte do poeta Luís de Camões. Por isso faz sentido hoje falar desta referência da cultura e da literatura portuguesa. Para começar, das pesquisas que fiz, há como é normal para personalidades desta época, uma certa incoerência em datas e locais, desde onde terá nascido e da sua própria genealogia. Os seus primeiros biógrafos, geralmente indicam que a descendência da Casa ancestral dos Camões tinha as suas origens na Galiza. Por via paterna, Luís de Camões seria descendente de Vasco Pires (ou Perez) de Camões, que era trovador e fidalgo. Vasco Pires terá vindo para Portugal no tempo de D. Fernando I, e recebido do rei alguns benefícios, cargos e terras pelos seus serviços militares. Não é minha pretensão, nem nada que se pareça, efetuar qualquer biografia de tal ilustre pessoa, mas como uma apaixonada pela História do meu país e pela Língua Portuguesa, hoje fez para mim todo o sentido dedicar umas horas do meu dia a estudar (de novo) o grande Camões (que os meus alunos detestam, posso já dizer, mas que eu adoro).
Apesar de os primeiros biógrafos de Camões, Severim de Faria e Manoel Correa, terem inicialmente dado o seu ano de nascimento como 1517, registos das Listas da Casa da Índia, mais tarde consultados por Manuel de Faria e Sousa, parecem estabelecer que Camões nasceu efectivamente em Lisboa, em 1524. Na dúvida fica o local do seu nascimento, apesar de se referir Lisboa como o local do seu nascimento, outros registos levam a crer que Luís Vaz de Camões nasceu em Coimbra em 1524 ou 1525. Neto de Vasco Pires, seria então filho de Simão Vaz de Camões (que serviu na Marinha Real e fez comércio na Guiné e na Índia) e de Ana de Sá e Macedo, oriunda de Santarém e aparentada com a casa de Vimioso, da alta nobreza portuguesa, e sobrinho de D. Bento de Camões, cônego da Igreja de Santa Cruz de Coimbra.
Com apenas três anos, em 1527, durante a epidemia de Peste que atingiu Portugal, D. João III (Rei de Portugal e Algarves de 1521 até sua morte) e a corte transferiram-se de Lisboa para Coimbra, e Simão, a mulher e o filho de ambos, acompanharam o rei. Assim, Luís de Camões, acabou por viver a sua infância na época das grandes descobertas marítimas e também no início do Classicismo em Portugal. Sobre a sua infância pensa-se que terá recebido uma sólida educação nos moldes clássicos, dominando o latim e conhecendo a literatura e a história antigas e modernas. Tudo indica que pertencia à pequena nobreza e pensa-se que tenha sido aluno do colégio do convento de Santa Maria e daí ganho os conhecimentos que demonstraria mais tarde na sua obra, em áreas tão vastas como a história, a geografia e a literatura. É possível que o próprio tio o tenha instruído, sendo a esta altura chanceler da Universidade e prior do Mosteiro de Santa Cruz, ou tenha estudado no colégio do mosteiro.
Em 1537, D. João III transferiu a Universidade de Lisboa para Coimbra, sendo nessa altura que Camões se transfere para o curso de Teologia. Mas conta-se que levava uma vida irrequieta, desordeira, além da fama de conquistador, mostrando pouca vocação para a Igreja, sendo que não há qualquer registo da passagem do poeta pela Universidade de Coimbra. No entanto, a grande bagagem das suas obras terá sido adquirida em algum lado.
Aos 20 anos, terá então deixado as aulas de Teologia e começado a estudar Literatura e Filosofia, tendo tido como protetor o seu tio paterno, D. Bento de Camões, frade de Santa Cruz e chanceler da Universidade. Já era conhecido como poeta na época, tendo composto uma elegia à Paixão de Cristo, que ofereceu a seu tio. Os seus versos revelam um grande conhecimento dos clássicos da Antiguidade e dos humanistas italianos.
Nesse mesmo ano, encontra-se com D. Catarina de Ataíde, dama da rainha D. Catarina da Áustria, esposa de D. João III e, desse encontro nasce uma ardente paixão, mais tarde imortalizada pelo poeta, que se referia à dama do paço, com o anagrama “Natércia”.
Nessa época, a intelectualidade nacional era incentivada, sobressaindo-se escritores, pensadores e poetas, como Garcia de Resende, Sá de Miranda, Bernardim Ribeiro, João de Barros.
Num sarau, acontecimento comum na época, seguido de um torneio poético, o espanhol Juan Ramon, sobrinho de um professor da Universidade, sentiu-se ofendido por causa dos versos de Camões. Seguiu-se um duelo (algo também comum, na defesa da honra) e o espanhol saiu ferido. Camões acabou preso, sob o protesto dos estudantes. No final de muitas discussões, Camões é perdoado, com a condição de ser desterrado durante um ano em Lisboa.
Na capital, os versos do poeta eram apreciados pelas damas da corte. Era perseguido por outros poetas, sendo vítima de muitas intrigas para desprestigiá-lo e afastá-lo da corte. Para fugir das perseguições, em 1547, Camões resolve embarcar, como soldado, para a África. Serviu dois anos em Ceuta. Combateu contra os mouros e acabou por perder um olho numa batalha naval no Estreito de Gibraltar.
Em 1549, Luís de Camões retorna para Lisboa e entrega-se a uma vida desregrada. São-lhe atribuídos vários amores, não só por damas da corte mas até pela própria Infanta D. Maria, irmã do Rei D. Manuel I. Em 1553, envolve-se em novo incidente, ferindo um empregado do paço. Foi preso e permaneceu um ano encarcerado.
Posto em Liberdade, Camões embarca para as Índias. Viajou na nau São Bento, da frota de Fernão Álvares Cabral, filho de Pedro Álvares Cabral, que largou do Tejo em 24 de março desse ano. Durante a viagem passou pelas regiões onde Vasco da Gama navegara, enfrentou uma tempestade no Cabo da Boa Esperança onde se perderam as três outras naus da frota, e aportou em Goa.
Fixou-se na cidade de Goa onde terá escrito grande parte da sua obra. Nessa época, inspirado nas conquistas ultramarinas, nas viagens por mares desconhecidos, na descoberta de novas terras e no encontro com costumes diferentes. Diz a tradição que ali teria escrito parte d’Os Lusíadas numa gruta, que mais tarde recebeu o seu nome. Surge assim o Primeiro Canto da sua imortal poesia épica.
É nomeado provedor em Macau, na China e durante sua estada aí, escreveu mais 6 contos de seu poema épico. Em 1556, parte novamente para Goa, mas a sua embarcação naufraga na foz do rio Nekong. Diz-se que Camões se consegue salvar nadando até terra, levando consigo os originais dos Lusíadas. Este evento inspirou as célebres redondilhas Sobre os rios que vão, consideradas por António Sérgio a coluna vertebral da lírica camoniana. Chegando a Goa, é preso novamente em consequência de novas intrigas. Ali recebeu a notícia da morte prematura de D. Catarina de Ataíde.
A convite, ou aproveitando a oportunidade de vencer parte da distância que o separava da pátria, não se sabe ao certo, em dezembro de 1567 Camões embarcou na nau de Pedro Barreto para Sofala, na ilha de Moçambique, onde este havia sido designado governador, e lá esperaria por um transporte para Lisboa em data futura. Apesar das promessas de Pedro Barreto, não consegue regressar a Portugal e é forçado, por falta de meios para prosseguir a viagem, a ficar aí. Foi em Moçambique que seu amigo Diogo do Couto o encontrou, encontro que relata na sua obra, acrescentando que o poeta estava então “tão pobre que vivia de amigos”, ou seja, vivia do que os amigos podiam dar-lhe. Diz Diogo do Couto que "E aquele inverno que esteve em Moçambique, acabando de aperfeiçoar as suas Lusíadas para as imprimir, foi escrevendo muito em um livro, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe juntaram (roubaram). E nunca pude saber, no reino dele, por muito que inquiri."
Foi Diogo do Couto quem lhe pagou a viagem até Lisboa, na nau Santa Fé, levando consigo um escravo, que lhe acompanhou até seus últimos dias, onde Camões finalmente aportou a 7 de abril de 1570. Depois de 16 anos, estava de volta à sua pátria.
Terminada a sua obra, apresenta o seu trabalho em récita para o rei D. Sebastião. O rei, ainda um adolescente, determinou que o trabalho fosse publicado em 1572. A obra celebra os feitos marítimos portuguesese pode-se encontrar nela marcas da inspiração na Eneida, de Virgílio. Camões narra fatos heroicos da história de Portugal, em particular a descoberta do caminho marítimo para as Índias por Vasco da Gama. Faz do navegador uma espécie de símbolo da coletividade Lusitana e exalta a glória das conquistas, os novos reinos formados e o ideal de expansão da fé católica pelo mundo. O poema é composto de dez cantos, cada canto é formado por estrofes de oito versos. Com o sucesso, Camões recebe do rei D. Sebastião (neto e sucessor de João III), uma pensão anual, que mesmo assim não o livrou de viver os seus anos finais, num quarto de uma casa próxima da Igreja de Santa Ana, num estado, segundo narra a tradição, da mais indigna pobreza,
Um aspecto que diferencia Os Lusíadas das antigas epopeias clássicas é a presença de episódios líricos, sem nenhuma relação com o tema central que é a viagem de Vasco da Gama. Mas até a publicação de Os Lusíadas está envolta num pequeno mistério – há duas edições do mesmo ano e não se sabe qual foi a primeira.
Entre os episódios narrados na obra Os Lusíadas, destaca-se o Canto III que relata o assassinato de Inês de Castro, em 1355, pelos ministros do rei D. Afonso IV de Borgonha, pai de D. Pedro o amante de Inês. Os Lusíadas é considerado a epopeia portuguesa por excelência. O próprio título já sugere as suas intenções nacionalistas, sendo derivado da antiga denominação romana de Portugal, Lusitânia. É um dos mais importantes épicos da época moderna devido à sua grandeza e universalidade.
O poema abre com os célebres versos:
As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.
Sabiam que Taprobana é de facto o Sri Lanka ou Ceilão? Sim, de facto era chamado de Taprobana na Antiguidade e na Idade Média, é um país insular asiático, localizado ao largo da extremidade sul do subcontinente indiano. Os primeiros europeus a visitarem o Sri Lanka foram os portugueses, entre eles Dom Lourenço de Almeida. Ainda lá existem muitas famílias com nomes de família de origem portuguesa. A sua localização geográfica e portos profundos tornou de grande importância estratégica desde o tempo da antiga Rota da Seda e por isso referido por Camões no início de Os Lusíadas.
Luís de Camões morreu em Lisboa, no dia 10 de junho 1580, em absoluta pobreza, vítima de peste no hospital. Segundo alguns biógrafos, Camões não tinha sequer um lençol para lhe servir de mortalha e terá sido enterrado numa cova rasa. Mais tarde, em 1594, Dom Gonçalo Coutinho, mandou esculpir uma lápide com os dizeres: "Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos Poetas do seu tempo. Viveu pobre e assim morreu". A mãe, que lhe sobreviveu, terá ficado a receber a sua parca pensão, após a sua morte.
Depois do terramoto de 1755, que destruiu a maior parte de Lisboa, foram feitas tentativas para se reencontrar os despojos de Camões, todas frustradas. A ossada que foi depositada em 1880 numa tumba no Mosteiro dos Jerónimos é, com toda a probabilidade, de outra pessoa.
Camões viveu na fase final do Renascimento europeu, um período marcado por muitas mudanças na cultura e sociedade, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna e a transição do feudalismo para o capitalismo. Nesse período foram inventados diversos instrumentos científicos e foram descobertas diversas leis naturais e entidades físicas antes desconhecidas; o próprio conhecimento da face do planeta modificou-se depois dos descobrimentos das grandes navegações. Não podemos esquecer que desde meados do século XV que Portugal se afirmava como uma grande potência naval e comercial, o que levava a um grande entusiasmo pelas conquistas marítimas e à formação de um sentimento de orgulho nacional, expresso pelos artistas da época. No início do século XVI Garcia de Resende lamentava-se de que não houvesse quem pudesse celebrar dignamente tantas façanhas, afirmando que havia material épico superior ao dos romanos e troianos. Preenchendo esta lacuna, João de Barros escreveu a sua novela de cavalaria, A Crónica do Imperador Clarimundo (em 1520). Quando Camões surgiu, o terreno estava preparado para a apoteose da pátria, uma pátria que havia lutado encarniçadamente para conquistar a sua soberania, primeiro dos mouros e depois de Castela, havia desenvolvido um espírito aventureiro que a levara pelos oceanos afora, expandindo as fronteiras conhecidas do mundo e abrindo novas rotas de comércio e exploração.
Camões foi um poeta sofisticado e popular. Os testemunhos dos seus contemporâneos descrevem-no como um homem de porte mediano, com um cabelo loiro arruivado, cego do olho direito, hábil em todos os exercícios físicos e com uma disposição temperamental. Enquanto viveu queixou-se várias vezes de alegadas injustiças que sofrera, e da escassa atenção que a sua obra recebia, mas pouco depois de falecer a sua poesia começou a ser reconhecida como valiosa e de alto padrão estético por vários nomes importantes da literatura europeia, ganhando prestígio sempre crescente entre o público e os conhecedores e influenciando gerações de poetas em vários países. Camões foi um renovador da língua portuguesa e fixou-lhe um duradouro cânone. Tornou-se um dos mais fortes símbolos de identidade da sua pátria e é uma referência para toda a comunidade lusófona internacional.
Reconhecido como poeta erudito do Renascimento, inspirava-se por vezes em canções ou trovas populares. Escreveu poesias que lembram as velhas cantigas medievais. Além de Os Lusíadas, Camões escreveu também poemas líricos, versos bucólicos, as comédias El-rei Seleuco, Filodemo e Anfitriões e uma coleção de sonetos de amor, entre eles o mais famoso O Amor é fogo que arde sem se ver:
Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
A produção literária de Camões abrange quatro modos literários: o lírico (em Rimas, publicado logo depois da sua morte, 1595), o épico (com Os Lusíadas, 1572), o dramático (com os seus "autos" ou "comédias": Anfitriões,1587, Filodemo, 1587, e El-Rei Seleuco, 1645) e o didático (do qual fazem parte as suas cartas, em prosa e em verso, publicadas inicialmente também na obra Rimas). Ao longo dos séculos a imagem de Camões foi representada inúmeras vezes em gravura, pintura e escultura, por artistas portugueses e estrangeiros, e vários monumentos foram erguidos em sua honra, mas é de registar que da sua aparência, os verdadeiros registos são também poucos. Terá sido entre 1573 e 1575 executado o chamado "retrato pintado a vermelho", que foi considerado por Vasco Graça Moura como "o único e precioso documento fidedigno de que dispomos para conhecer as feições do épico, retratado em vida por um pintor profissional". O que se conhece desse retrato é uma cópia, feita a pedido do 3º duque de Lafões, executada por Luís José Pereira de Resende entre 1819 e 1844, a partir do original que foi encontrado num saco de seda verde nos escombros do incêndio do palácio dos Condes da Ericeira, e que entretanto acabou por também desaparecer. Sobreviveu também uma miniatura pintada na Índia em 1581, por encomenda de Fernão Teles de Meneses e oferecida ao vice-rei D. Luís de Ataíde, que, segundo testemunhos de época, seia muito semelhante à sua aparência. Maria Antonieta de Azevedo, encontra em 1970 um outro retrato datado de 1556 que mostra o poeta na prisão.
Fontes:
https://www.ebiografia.com/luis_camoes/
https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$luis-de-camoes
https://www.portalsaofrancisco.com.br/biografias/luis-de-camoes
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_III_de_Portugal