No meu texto dessa semana no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon, eu falei sobre “Melancolia e Mistério de uma Rua” (1914), quadro repleto de mistérios pintado por Giorgio de Chirico. Uma obra que inquieta por nos colocar na desconfortável posição de testemunhas – voyeurs – de um crime que pode estar acontecendo ou existir somente na nossa imaginação, e não sei qual das duas alternativas é pior.
Boa leitura.
“Melancolia e Mistério de uma Rua” (1914), Giorgio de Chirico

Na placidez dos eventos mais calmos existe um universo furioso de átomos e de intenções que se esboroam e lutam entre si, ansiosos por se revelarem ao mundo. Essa é a história de um crime: se vai acontecer ou não é irrelevante, pois ele existe somente na nossa expectativa. Podemos ser os assassinos, ou a vítima, ou os salvadores, e ter tais possibilidades nos transforma em indesejados voyeurs da cena que não deveríamos – ou preferíamos – ver. A menina brinca na rua; a sua solidão mede-se através do som dos passos amortecidos pela areia, a sábia areia que sorve sangue humano desde que o início, a indiferente areia que esconde segredos, cadáveres, sonhos. A sua infância tem o sabor doce de um futuro que não conseguimos ver, mas pode ser glorioso ou medíocre, assim como são todas as inocências antes de se transformarem em flores ou em medos. A rua inteira dorme, mas a tensão se esconde nas reentrâncias das paredes, nos bocejos dos arcos, no céu impregnado de azul que ondula em meio às nuvens invisíveis. Longe do olhar sonolento da rua, a sombra espreita a alegria da menina, cobiçando a vida que se esgueira por entre as esquinas. Não existem coincidências, e a carreta com portas abertas também espera o momento em que será acionada. Somente o tempo sabe o que vai acontecer naquela anônima rua que reconhecemos como a paisagem incômoda de um pesadelo sem fim; a rua continua dormindo, enquanto a criança corre, a sombra se angustia de expectativa e a carreta espera ser acionada. Os melhores mistérios são aqueles que não serão nunca resolvidos, sobrevivendo no campo exíguo da imaginação, equilibrando-se no vazio. A menina gira a roda e corre em direção ao destino que nunca saberemos qual é, mas a sombra no horizonte sabe – e espera com a sabedoria daqueles que estão mortos antes mesmo de nascerem.
Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2017/04/09/obras-inquietas-27-melancolia-e-misterio-de-uma-rua-1914-giorgio-de-chirico/
Publicado por Gustavo
Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo