“…o intrincado jogo
Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo”
“Hoje somos noite e nada”
“Eu cometi o pior dos pecados
Possíveis a um homem. Não ter sido
Feliz…”
‘A firme trama é de incessante ferro”
São 36 os poemas dessa coletânea de 1976, muito marcada pelo tema do “sonho” (e também pela nostalgia do épico, claro, e também pelo “remordimiento”, o remorso de não viver plenamente e o apego a “naderías”, e também pelas perpétuas águas de Heráclito, que seguem nos arrastando, através dos “hábitos do Tempo”) e pela forma soneto. Ele começa, no entanto, com uma bela elegia:
“Que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com muros baixos,
De um alto cavaleiro invadindo a alvorada
(Longo e surrado o poncho)
Em um dia qualquer sobre a planura,
Em um dia sem data.
Que não daria eu pela memória
De minha mãe contemplando a manhã
Na estância de Santa Irene,
Sem saber que seu nome ia ser Borges.
Que não daria eu pela memória
De haver combatido em Cepeda
E de ter visto Estanilao del Campo
Cumprimentando a primeira bala
Com a alegria da coragem (…)
Que não daria eu pela memória
(Que já tive e perdi)
De uma tela de ouro de Turner,
Extensa como a música.
Que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte de Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões (…)
Que não daria eu pela memória
De que tivesses dito que me amavas
E de não adormecer até a aurora,
Perdido e feliz.” (“Elegia da lembrança impossível”).
Que não daria ele para ser, talvez, como o coronel Suárez, com seu “sombrio semblante de metal e melancolia” (veja-se que junção maravilhosa, essa do metal e da melancolia) ou o “antigo rei”(“Sei que me sonha e que me julga…”): “Já não há rostos assim. A firme espada/ Vem acatá-lo, como seu cão, leal”. Ou ter, talvez, o destino de Hilário Ascasubi: “Houve um dia a felicidade. O homem/ Aceitava o amor e a batalha/ Com o mesmo regozijo…” Que não daria ele para falar como Einar Tambarskever: “Não há outra obrigação que ser valente”. E que pena que ele seja apenas aquele que diz, desse episódio da saga islandesa: “Agora eu a traslado/ Tão longe desses mares e desse ânimo”.
Que não daria ele para ser, talvez, o aedo épico da Pátria:
“Pompas do mármore, árduos monumentos,
E pompas da palavra, parlamentos,
Centenários e sesquicentenários,
São apenas a cinza, a menor flama
Dos vestígios de uma antiga chama.” (“Elegia da Pátria”)
“Tua versão da Pátria, com seus faustos brilhantes,
Entra na minha vaga sombra como se entrasse o dia
E a ode zomba da Ode. (É apenas nostalgia
–Minha própria versão –de facas ignorantes
E de velha coragem.) Já estremece o Canto,
Já, a custo contidas pela prisão do verso,
Surgem as multidões do futuro e diverso
Reino que será teu, seu júbilo e seu pranto.
Manuel Mujica Lainez, algum dia tivemos
Uma pátria—recordas?—e os dois a perdemos.” (“A Manuel Mujica Lainez”)
Que não daria ele para escrever em outra língua que não “esse latim decaído, o castelhano”. Que não daria ele para ser aquele que fixou uma batalha memorável em 991 a.D.: “As pessoas o seguiam com atenção. Iam recordando os fatos que Aidan [aedo] enumerava e que pareciam compreender só agora, quando uma voz cunhava as palavras”. Que não daria ele para ser o filho de Aidan que o pai pede para renunciar à contenda e escreva versos “para que perdure o dia de hoje na memória dos homens”.
Que não daria ele para não morrer “sem ter visto minha infindável casa”, ainda que vivo, “sou uma sombra que a Sombra ameaça”.
Que não daria ele para ser um dos homens do Arquétipo do Conquistador: “Eu sou o Arquétipo. Eles, os homens…”, para dizer, ao final: “O resto não importa. Eu fui valente”.
Que daria ele para que o futuro não fosse “…tão irrevogável/ Quanto o rígido ontem…”.
Que daria ele para não ser uma “procissão de sombras”, um “homem cinza”.
Que não daria ele para ser verdadeiramente o poeta que fizesse justiça a Brahms:
“Quem te honre há de ser nobre e valente.
Sou um covarde. Sou um triste. Nada
Poderá justificar esta ousadia
De cantar a magnífica alegria
–Fogo e cristal—de tua alma enamorada.” (“A Johannes Brahms”)
Se ainda fosse Shakespeare:
“… alguns séculos
E o rei volta a morrer na Dinamarca
E ao mesmo tempo, curiosa magia,
Em um tablado em meio aos arrabaldes
De Londres…” (“Os ecos”)
Ou Espinosa:
“…O assíduo manuscrito
Aguarda, já repleto de infinito (…)
O feiticeiro insiste e lavra
Deus com geometria delicada…” (“Baruch Espinosa”)
Mesmo que sentisse o horror de Heráclito, ao descobrir sua fórmula:
“… E então sente
Com o assombro de um horror sagrado
Que também ele é um rio e uma fuga.
Deseja recobrar essa manhã
E sua noite e a véspera. Não pode”. (“Heráclito”)
Mas resta o consolo dos espantos singelos:
“não há no orbe
Uma coisa que não seja outra, ou contrária, ou nenhuma.
A mim só inquietam os espantos singelos.
Assombra-me que a chave tenha uma porta aberta;
Assombra-me que minha mão seja um fato certo;
Assombra-me que do grego a eleática seta
Instantânea não alcance a inalcançável meta;
Assombra-me que a espada cruel seja formosa,
E que a rosa tenha o perfume da rosa.” (“O ingênuo”)
Um dos poemas mais bonitos é sobre a onipresente memória do pai:
“Nós te vimos morrer risonho e cego.
Nada esperavas ver do outro lado,
Mas tua sombra talvez tenha avistado
Os arquétipos que Platão, o Grego,
Sonhou e que me explicavas. Ninguém sabe
De que manhã o mármore é a chave.” (“A meu pai”)
Assim como o poema a Melville:
“Sempre o cercou o mar dos ancestrais,
Os saxões, que ao mar deram o nome
De rota da baleia, em que se juntam
As duas enormes coisas (…)
Sempre foi seu o mar. Quando seus olhos
Viram em alto-mar as grandes águas,
Já o havia desejado e possuído
Naquele outro mar, que é da Escritura (…)
…o prazer, por fim, de avistar Ítaca (…)
Melville cruza nas tardes New England.
Mas o habita o mar…” (“Herman Melville”)
Ou o sonho com Kafka:
“Ela era a companheira de Kafka.
Kafka a sonhara…
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka o sonhara…
A mulher disse ao amigo:
Quero que esta noite me queiras…
O homem lhe respondeu: Se pecarmos,
Kafka deixará de sonhar-nos…
Kafka disse a si mesmo:
Agora que os dois partiram, fiquei sozinho.
Deixarei de sonhar-me”. (“Ein Traum”)
Duas citações bonitas poderiam ser a “summa” de angústia (“que não daria ele…”) do livro: uma, tirada de “Signos”, com aquela formulação lapidar típica: “Posso ser tudo. Deixa-me na sombra”; a outra de “Não és os outros”: “Não és os outros e te vês agora/ Centro do labirinto que tramaram/ Os teus passos”.
Mas outras duas citações bonitas são mais esperançosas, menos atadas a essa trama de incessante ferro.
De “Para uma versão do I-Ching”:
“A firme trama é de incessante ferro.
Porém em algum canto de teu encerro
Pode haver um descuido, a rachadura.
O caminho é fatal como a seta,
Mas Deus está à espreita entre a greta”.
E do poema-título:
“Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos
As duas contrárias faces que serão a resposta
Da pertinaz pergunta que ninguém já se fez:
Por que um homem precisa que uma mulher o queira?”
Isso me lembra “O palácio” (de O ouro dos tigres): “já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto”.
(anotações de julho de 2009; passagens traduzidas por Josely Vianna Baptista)
Dentro da mesma linha, acesse também:
https://armonte.wordpress.com/2012/11/02/historia-da-noite-o-que-a-memoria-concede/
https://armonte.wordpress.com/2012/10/26/borges-e-o-nome-da-rosa/
https://armonte.wordpress.com/2012/10/25/o-ontem-fatal-e-inevitavel-borges-e-o-ouro-dos-tigres/






