Gustavo Nascimento  

Créditos da imagem: Teleranha Edições, Instagram, 2024 

O livro João criado por Ronnie Rodrigues é uma narrativa construída a partir da apropriação  do romance Harmada de João Gilberto Noll. Desse modo, a narrativa de trânsito pela cidade, escrita por Noll, dá lugar a uma nova narrativa, na qual o diálogo entre os dois livros emerge das lacunas, daquilo que é apagado e do que resta do procedimento de recorte e cole feito por Rodrigues. 

Lançado em 2024, pela editora Teleranha Edições, a narrativa tem como personagem central João que aparece como um fantasma durante todo o texto.  Esse apagamento também é reproduzido pela materialidade do livro. Não só a capa branca, com o título do livro e o nome do autor em relevo de mesma cor, apontam para um procedimento de montagem que sugere ao mesmo tempo uma apagamento e uma emergência sugerida pelo alto relevo. Quando abrimos o livro vemos que a montagem também é a força estruturante da narrativa, pois nos deparamos com as marcas de apagamento das sentenças que deixam aqui e ali na página quase em branco mínimos indícios de outra história que aparece sobre as palavras do romance de Noll. Usando o procedimento do recorte e cole, característico do que Kenneth Goldsmith chamou de escrita não criativa, Rodrigues propõe uma integração entre forma e conteúdo, já que em João, a escrita é um acordo delicado entre o lembrar e o esquecer. Diante de eventos traumáticos, o personagem reprime seus desejos e replica o desafio de esquecer a escrita.  Como escrever sem lembrar? Apropriando-se. Essa parece ser a resposta dada pelo autor. 

O procedimento de escrita adotado por Rodrigues tem um parentesco com o  livro Tree of codes de Jonathan Safran Foer, que já comentei em outro post do blog. Em Foer, as folhas são recortadas e coladas de modo que as brechas entre as páginas oferecem novas significações a cada mudança de página, por vezes por uma mínima intervenção como adição ou subtração de uma palavra.  A apropriação em ambos os livros é feita de forma material. O corpo do texto é recortado, apagado e colado para compor algo novo. Tanto em Foer quanto em Rodrigues o ato de escrita exige um trabalho que vai além do gesto de escrever, ambos os autores também parecem negociar com uma presença do autor original.

Créditos da imagem: Ronnie Rodrigues, Instagram, 2024 

Em Pós-produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo, Nicolas Bourriaud discute sobre um grupo de produções artísticas contemporâneas que trabalham com materiais já registrados. Para Bourriaud, “artistas vêm interpretando, reproduzindo, reexpondo ou utilizando produtos culturais disponíveis ou obras já realizadas por terceiros”. Nesse sentido, a produção do artista na contemporaneidade se assemelha ao do pós-produtor, em que a força do seu trabalho não consistirá na criação de um material original, mas na finalização ou reutilização de outras obras.  

Ao se apropriar do texto Harmada, o autor de João estabelece um diálogo direto com as formas de pós-produção  e com a noção de escrita não-criativa. As supressões feitas no texto com marcador branco, como se as palavras de Noll tivessem sido rasuradas, permitem uma recontextualização das páginas apropriadas e ao mesmo tempo dão origem a uma nova forma. A relação com a fonte original  e o trabalho de pós-produção podem ser observados no posfácio que conta ao leitor sobre o procedimento adotado. Em Ronnie Rodrigues, podemos acompanhar ao mesmo tempo o trabalho de montagem por meio da seleção e combinação do romance de Noll e também a emergência de uma outra autoria, uma nova história, a de João, construída pela montagem de um outro autor.