Hoje é dia da criança e escolhi a poesia para o assinalar. Dedico estes poemas a todas as crianças que, neste dia, não brincam nem sorriem, que são obrigadas a crescer. Choram de frio, de fome e saudade. Estes poemas são de três grandes poetas: António Nobre, Manuel Lopes Fonseca e Cecília Meireles. 

"Menino e Moço"

Tombou da haste a flor da minha infância alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus Sta Águia, linda fada,
Que dantes estendia as azas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as águias de oiro, águias da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais…

(António Nobre)

"Menino"

No colo da mãe
a criança vai e vem
vem e vai
balança.
Nos olhos do pai
nos olhos da mãe
vem e vai
vai e vem
a esperança.

Ao sonhado
futuro
sorri a mãe
sorri o pai.
Maravilhado
o rosto puro
da criança
vai e vem
vem e vai
balança.

De seio a seio
a criança
em seu vogar
ao meio
do colo-berço
balança.

Balança
como o rimar
de um verso
de esperança.

Depois quando
com o tempo
a criança
vem crescendo
vai a esperança
minguando.
E ao acabar-se de vez
fica a exacta medida
da vida
de um português.

Criança
portuguesa
da esperança
na vida
faz certeza
conseguida.
Só nossa vontade
alcança
da esperança
humana realidade.

(Manuel Lopes Fonseca)

"A bailarina"

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

(Cecília Meireles)

A poesia é um excelente recurso para trabalhar com as crianças. A "repetição de rimas e cantigas é como que um exercício para a memória das crianças." Além da "memória semântica," a poesia é rica pelo seu contributo na "memória afetiva." De facto, quando a criança é exposta à poesia, à leitura de poemas infantis, ela irá fazer registos "semânticos e afetivos" na sua mente, podendo depois vir a recordá-los quando se deparar noutras ocasiões "com palavras componentes do poema." O que fica, além do sentido atribuído às palavras que compõem o poema, são as "sensações que experimentaram" da primeira vez que com ele tiveram contato.

Desenvolver o bom uso da linguagem é algo fundamental para o processo cognitivo da criança e que irá ter um impacto enorme na sua vida futura, independentemente do caminho que escolha.

Fontes:

https://comofazerumpoema.com/poemas-infantis-curtos-e-famosos-ler-criancas/