Cada leitor tem seus hábitos de leitura, lê de um jeito e possui um local preferido. Eu passo a maior parte do meu dia na rua. Saio de casa por volta das oito da manhã e volto às 20:00; 22:00 se for dia de aula.

Talvez por isso acabe lendo bastante fora de casa. Por padrão, leio uma hora e quarenta minutos por dia, entre ônibus e horário de almoço. Em dias de curso, esse horário de leitura ganha um adicional de uma hora entre a saída do trabalho e o início da aula.

Sigo este padrão de leitura já há alguns anos, e para mim funciona muito bem. Mas também gerou a minha bibliomania: manter uma minibiblioteca na minha bolsa. Eu (ainda) não me adaptei ao e-reader, apesar de possuir um bastante bom, e me enlouquece ficar sem nada para ler. Por isso, apesar de não conseguir ler mais de um livro por vez, sempre tenho de dois ou três livros na minha bolsa: o último livro lido, o livro que estou lendo e o próximo.

O último livro lido fica pelo menos dois dias na bolsa depois de acabado, “para o caso de eu querer buscar uma referência”, o que na prática é saudades de sua história. O que estou lendo  fica lá por motivos óbvios, e o próximo a ser lido está de plantão para o caso do livro anterior acabar.

Mais, o livro do momento fica do lado do meu teclado do trabalho, mesmo que lá eu não possa ler. Gosto de mantê-lo por perto, nem que seja para despertar a curiosidade dos  meus colegas de trabalho quanto ao que estou lendo.

Carrego um livro literário na bolsa desde os tempos de escola, mas a sistemática dickseniana de livro passado/livro presente/livro futuro começou com a minha participação na SLT (Sociedade dos Leitores Tortos), que nada mais é que um grupo de amigos que se reúne periodicamente em volta de uma mesa e algumas garrafas de vinho para conversar sobre livros.

Comecei a levar para as reuniões a trilogia antes/durante/depois para falar sobre os dois primeiros e pedir opiniões sobre o terceiro. Com o tempo, a presença do próximo livro se tornou uma necessidade, uma maneira de não ficar presa num engarrafamento ou numa fila sem nada para ler, meu paninho azul para momentos de crise. É algo quase instintivo, um ato mecânico, um sistema de proteção. Para não parecer tão maníaca, elaborei cinco motivos para manter minha mini biblioteca na bolsa.

1. Porque as pessoas se atrasam:  Costumo chegar muito cedo aos meus compromissos sociais. Por outro lado, por vários motivos, nem sempre meus amigos podem chegar no horário marcado. E nesse intervalo eu leio. E se o livro que estou lendo está acabando, nada melhor que já ter algo para continuar lendo, just in case.

2. Porque filas demoram: Como bancária eu sei por experiência que filas demoram mesmo, principalmente se a pessoa na sua frente precisa ser atendida com atenção especial. A experiência bancária também me ensinou que não vale a pena se irritar pelo tempo perdido em uma fila. Ler na fila serve tanto para não se estressar com a demora  – e consequentemente ser melhor atendido – quanto para aproveitar o “tempo perdido”. É também um excelente meio de evitar o número 3 da lista.

3. Porque pessoas podem ser inconvenientes: Por um motivo que não saberia explicar, tenho um daqueles rostos que convidam as pessoas a contarem seus problemas.  Quando estou de bom humor não é algo que atrapalhe muito, mas sempre há aquele dia em que não queremos conversar nem com nossos amigos, quanto mais com desconhecidos. Ler costuma afastar a maior parte dos inconvenientes de plantão e/ou ajuda a ignorá-los quando estão em seu pior estado.

4. Porque almoçar sozinho pode ser um saco: Por causa da necessidade de rodízio de horários no trabalho, quase sempre almoço sozinha. E almoço fora, num restaurante grande e cheio de barulho de talheres por todos os lados. Um livro substitui, para mim, a companhia de uma pessoa. Com ele eu converso, me divirto, passo uma hora tranquila no meio da minha quase sempre frenética jornada de trabalho. E como bônus, eu deixo de me irritar com a conversa dos outros ou o tilintar dos talheres.

5. Porque ônibus demoram: Neste caso nem sempre é problema do veículo em si. Vivo numa cidade em que o transporte público funciona quase sempre, e a linha que uso tem ônibus de 7 em 7 minutos. Mas entrar num desses ônibus às seis e meia da tarde é quase um martírio, e a última coisa que preciso no fim do dia é virar sardinha em lata. Por isso, sento no ponto de ônibus (aqueles tubos legais de Curitiba) e leio até chegar um ônibus no qual possa chegar sossegadamente em casa, de preferência sentada.

Em todas essas situações, o livro que estou lendo pode acabar, então é quase lógico que o próximo esteja à mão. Mas no fundo, no fundo, eu sei que é apenas a minha Bibliomania.