Agora, todo mundo deu pra ficar incomodado porque certa influencer resolveu com seu marido torrar não sei quantos mil reais com livros decorativos. Como se isso fosse novidade ou como se isso fosse algo sobrenatural.
Livros são mais que objetos, são artefatos que ao longo da história aprendemos a cultivar como receptáculos e transmissores do conhecimento. Rapidamente superamos o receio Socrático para abraçarmos estes itens como o maior tesouro a ser cultivado pela humanidade.
E falei em receio socrático porque o famoso filósofo grego era um ativista anti-livros. Seu argumento girava em torno da tecnologia e seus malefícios para o futuro: com livros para guardar a informação, não teremos mais porque exercitar a memória. Ora, ele tinha certa razão. Hoje é tarefa dificílima encontrar aqueles que saibam trechos ou pensamentos de cor. Contudo, isso tudo é outra discussão… voltemos pra decoração.
Desde os tempos do velhinho Sócrates que esses objetos são desejados.
Eles são uma invenção magnífica, afinal de contas. Em papéis sobrepostos, podemos acumular e reter o discurso e o pensamento. Homens mortos ganham vida eterna. Podemos hoje ter acesso ao pensamento dos alunos de Sócrates por meio deles. Imagine só tamanha feitiçaria. Eu estico aqui o meu braço e cato na prateleira uma urna mágica que retém parte importante do pensamento de Platão. Na outra ponta, quando cansado do discurso do grandalhão Grego, estico novamente o braço para acessar as lamentações do maluco Nietzsche. Posso também abrir um outro livro e sentar aos pés de Goethe pra acompanhar os sofrimentos do jovem Werther ou sentar num teatro elizabetano para acompanhar as desventuras amorosas de um casal que se ama enquanto suas famílias se odeiam.
Daí o encanto dos livros. Só papel e tinta. Na prática, pouco recurso e um encanto magnífico.
Alexandre, O Grande, tinha sua tara por livros e dele veio essa busca louca por construir em Alexandria a maior de todas as bibliotecas. Em um tempo sem imprensa, escribas precisavam copiar a mão obras inteiras. Não existia nosso conceito de direito autoral. Em tese, quando você tinha um livro você podia fazer com ele o que quisesse, inclusive copiar. Em um mundo escasso, em que obras tinham pouquíssimas cópias e com restrita circulação, fazia todo sentido. Afinal, a busca enlouquecida era por mero acesso. Obras eram negociadas a peso de ouro, viajantes encarregados de buscá-las e tratá-las como tesouro que eram. Chegavam até mesmo a verificar exemplar por exemplar que chegavam ao porto de Alexandria sob risco até mesmo de confisco: ora, essa aqui nossa biblioteca não tem.
Essas e outras histórias são relatadas por Irene Valejo, no seu livro O Infinito em um Junco, em que ela traz episódios de sua vida mescladas com momentos decisivos da história dos livros até o nosso tempo.
Com ela acompanhamos como sempre, em qualquer época e desde Alexandria, os livros são um objeto de conhecimento mas também de ostentação. Encadernações luxuosas sempre foram uma febre, um desejo. Dickens publicou seu clássico conto de Natal originalmente assim: encadernação bonita, ilustrada, feito pra ser um presente. Um mimo pra ser exibido em lugar especial na estante. E muitos afirmam que esse tratamento foi fundamental.
Por isso, não entendo muito a indignação das pessoas com a influencer torrar alguns milhares de reais – dos quais ela tem milhões, inclusive – pra enfeitar sua casa com livros. Qual o problema? Afinal, não fazemos isso também? Se tivéssemos milhões, não faríamos igual?
Eu certamente montaria minha biblioteca dos sonhos. Decoraria e abarrotaria ambientes com luxuosíssimas edições de encher os olhos.
Muitos podem contrapor dizendo que ela não vai ler. Que contratou especialista pra escolher os livros não pelo conteúdo e sim pela capa, pra ornar. E eu insisto: qual o problema? Livro não é também decoração? Agora você quer se o fiscal de leitura? Quer controlar o que a senhora lê ou não? Que tal emplacar logo uma lei pra proibir que compremos livros enquanto não dermos conta da nossa pilha hipotética de livros a serem lidos? Faça-me o favor!
Ah, mas tem também o argumento da influência. Afinal: influencer! Outros podem ver, querer fazer igual. E eu insisto: só vejo vantagens. Primeiro porque se influenciar alguém e quiser fazer igual, tem livro sendo comprado e mercado funcionando. No final, eu lucro porque – como leitor – quero muito esse mercado aquecido. Quanto mais livro vende, mais se produz e mais barato fica.
Podem ainda argumentar que só terá venda de livro pela capa e eu persisto: o que tem? Mesmo que o mercado seja alimentado com porcaria, um mercado aquecido tem dinheiro sobrando e sempre teremos uma editora querendo lucrar mais, explorar diferentes nichos. Pode mandar aquele autor dos confins desconhecidos que tô pronto pra comprar e ler!
O que precisamos entender é que livro é também decoração. Vamos parar com essa bobagem de colocar livro em pedestal e querer elitizar o consumo. Acho ótimo que a influencer famosa tenha adquirido milhares e por mim todo influencer podia fazer igual. Podia até seu Zé da Pipoca querer imitar e começar a montar uma prateleira em casa. Além dos motivos que já expliquei, livro disponível é sempre oportunidade. Ela pode não ler, mas a estante abarrotada vai inevitavelmente despertar curiosidade em alguém em algum momento.
Que tenhamos mais casas abarrotadas, decoradas com livros só para ver. Que o brasileiro possa em toda casa encontrar ao menos uma prateleira cheia de livros, que nossas crianças tenham tantos livros sempre e em todo lugar que seja inevitável pegar um, abrir em uma página qualquer e iniciar uma jornada sem volta.
Pra ler, basta começar!
