Com enredo sobre o desvelamento da inocência, o romance norte-americano ‘O sol é para todos’ se mantém atemporal
Justiça, Preconceito racial, Gótico Sulista, Literatura norte-americana, Inocência juvenil
imagem/divulgação Na produção de Lee, que resvala em rastros do chamado Gótico Sulista: a exposição das contradições do lado atrasado norte-americano Giovana Proença O sol é para todos? O acréscimo da interrogação ao título da mais aclamada obra da escritora norte-americana Harper Lee se justifica pelo caráter de questionamento que reflete temas como a justiça e a equidade nas páginas do livro. Ao tocar a complexidade de conceitos que se aproximam da filosofia e das ciências sociais, através da ótica de uma menina em processo de descobrimento do mundo e de suas contradições, a obra revela o desmantelamento da inocência. Scout, a jovem protagonista da obra de Harper Lee, se impacta com a realidade estilhaçada da sociedade que a cerca quando seu pai, o conceituado advogado Atticus, assume um polêmico caso que expõe o preconceito racial e as injustiças mundanas. Para aprofundar os fundamentos da visão que domina a realidade social da comunidade em que a pequena Scout está inserida, torna-se necessário a análise do contexto literário da produção de Lee, que resvala em rastros do chamado Gótico Sulista: a exposição das contradições do lado atrasado norte-americano. O Sul dos Estados Unidos, ainda sob alicerces dos vestígios da Guerra da Secessão – eclodida pela manutenção da escravidão nos estados sulistas – foi representado em decadência nas obras de William Faulkner, Flannery O’ Connor e Carson McCullers. Em O sol é para todos, a questão racial e a injustiça, enevoados pelo preconceito, ganham a nitidez da inocência juvenil, ao mesmo tempo que se desvelam na destruição da pureza, contradição arquitetada magistralmente pela autora. Atticus, grande referência de caráter dentro da comunidade – e da obra por suas belas declarações a favor da justiça – choca a mesma sociedade que o conceitua ao dedicar-se à defesa de um homem negro acusado de estupro por uma mulher branca. Sem direito ao julgamento e a presunção da inocência, Tom Robinson se vê acusado pelos olhares embebidos de preconceito de seus conterrâneos. Atemporal, o livro publicado na década de 60 ressoa os holofotes atuais da violência policial denunciada por grupos ativistas negros em movimentos como o Black Lives Matter e as noções da diferença de poder como resultado da violência, discutidas pelo pensador Michel Foucault. Para além das relações supracitadas, o trágico destino de Robinson dentro da prisão reflete a desumanização dentro do sistema carcerário e as ideias de Giorgio Agamben vinculadas ao conceito de homo sacer; termo do direito arcaico romano que se refere ao homem sacrificável pelo bem-estar social, evidenciando a vulnerabilidade de grupos marginalizados dentro de determinada comunidade, fator que se perpetua universalmente para fora do microcosmo temporal e especial criado por Harper Lee, e nos faz mais uma vez questionar se o sol é para todos. Scout se situa como uma narradora estrategicamente posicionada por sua condição limítrofe entre a visão livre de preconceitos estabelecidos socialmente e o princípio de sua percepção quanto as vulnerabilidades do mundo em que se insere. Dolorosamente, desvelamos por sua ótica as rupturas do universalismo de O sol é para todos. Em mais uma oposição, o livro carregado de motes densos e que tangem feridas históricas, é um marco dentro da cultura pop e da literatura voltada para jovens dentro da conjuntura norte-americana e mundial. A tradução literal do título original do romance de Lee, To Kill a Mockingbird – algo como Matar um rouxinal ou Como matar um rouxinol – adquire caráter dual ao referir-se tanto a Tom Robinson, morto pelo preconceito; quanto a inocência de Scout e a luta de Atticus. Se no Brasil repetimos o ditado “Tapar o Sol com a peneira”, para nos referirmos a ocultação de realidades incômodas, a jovem narradora de O sol é para todos tem sua peneira precocemente removida, queimando-se com a dolorosa ardência das injustiças. Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença
Texto originalmente publicado em Revista Fina