A professora Dirce Waltrick do Amarante é tradutora, escritora e colunista de literatura da Folha de S. Paulo. Esta newsletter começou por causa de uma coluna dela, como expliquei no meu primeiro post. Ou seja, ela é madrinha de bateria aqui na Unidos do Machado.
Ainda por cima, me mandou uma mensagem que assinou como “Dircinha”, então automaticamente já somos amigos…
Ontem ela citou esta newsletter em sua coluna:
Agradeço a gentileza de dar visibilidade à minha atividade, modesta porém sincera.
Abaixo, reproduzo o artigo dela na íntegra.
Listas de melhores livros expõem consenso fabricado por mercado editorial
Dirce Waltrick do Amarante
Um ano termina e outro começa sempre com as famosas listas de melhores livros (os já publicados e os anunciados), selecionados muitas vezes por críticos especializados e leitores influentes. Neste frescor de 2026, como não poderia ser diferente, já circulam as seleções de livros e de autores imperdíveis, e haverá certamente leitores e clubes de leitura que se guiarão por elas.
Quem acompanha essas indicações, publicadas em jornais, revistas, blogs etc., notará que muitos títulos e autores se repetem em boa parte delas. Pode-se elencar muitas razões para essa aparente unanimidade, entre outras, o gosto pessoal de quem assina as listas e o desejo de mencionar o que está na moda. No ano passado, vale destacar, participei como jurada da lista dos melhores livros do primeiro quarto deste século, publicada neste jornal.
Não se pode, porém, ignorar que por trás disso possa estar uma aceitação das políticas editoriais, que colocam nas vitrines apenas certos títulos e uns poucos autores, potenciais campeões de venda.
Ao falar em vitrine, estou aludindo não só às livrarias do eixo Rio-São Paulo, onde convém fazer lançamentos, mas também a programas e podcasts sobre livros, os quais convidam apenas (há poucas exceções) aqueles autores que possam estar ao vivo e em cores num estúdio paulistano ou carioca, na maioria das vezes.
Depois do que se viveu no Brasil durante a pandemia, quando praticamente tudo era virtual, ou feito online, esse cenário de eventos presenciais, que exclui as periferias, parece hoje bastante anacrônico e, diria mesmo, inaceitável.
O leitor comum parece aceitar todas as listas sem questionar muito os seus critérios (se estéticos, sociológicos ou mercadológicos), demonstrando, com isso, um certo desinteresse em buscar uma valorização mais crítica que se proponha a eleger outras obras, algumas talvez mais relevantes.
Foi o escritor austríaco Robert Musil quem propôs, na minha opinião, uma das teses mais instigante e humoradas sobre o tema. Para o autor de “O Homem Sem Qualidades”, uma pergunta crucial deveria ser feita a quem vota nas melhores obras e nos melhores escritores do ano, do século etc.: “O senhor saberia dizer o que é um poeta?”, ou “O que é um escritor sem lastro?”, ou ainda, “Uma criatura que escreve com simplicidade é um escritor?”.
Contudo, como adverte o escritor, na tradução de Nicolino de Simone Neto, não se pode esperar que “um jornal venha a propor, sem mais nem menos, tal questão e, ainda que a fizesse, haveria de formulá-la de maneira bem mais interessante. Viria, no mínimo, desta forma: ‘Quem é o seu poeta favorito?’ Ou talvez: ‘Na sua opinião, quem é atualmente o maior poeta?’, ou ainda: ‘Qual foi o melhor livro deste ano (também deste mês)?’. Essas perguntas parecem ser mais recomendáveis, dado o seu caráter sugestivo”.
Com ironia, Musil conclui que, graças a essas perguntas, descobre-se de tempos em tempos escritores que são “sempre os maiores, mais significativos, mais autênticos, mais reconhecidos e lidos”.
Quando se lê hoje essa conclusão, não se pode deixar de pensar o quanto ela continua válida, sobretudo no Brasil, onde o mercado do livro parece sempre em busca de um novo sucesso, seja ele de um grande ou de um pequeno autor.
O papel da crítica, nesse contexto, merece uma reflexão à parte. Alguns afirmam que a crítica está definhando, outros dizem que ela já morreu. Mas, a meu ver, essa discussão não pode ignorar que críticos e escritores se sobressaem, atualmente, quando pertencem ao mesmo círculo social, frequentando-se como velhos amigos e, não poucas vezes, fazendo das páginas de jornais extensões de suas respectivas salas de estar.
É exatamente nessa intimidade que reside o problema: como é que o crítico analisará imparcialmente a obra do amigo? Discutir um texto a fundo implica não só sinceridade, mas também uma visão aguçada, que não faça concessões à moda do momento. O crítico também escreve romance e poderá ser amanhã lido e comentado pelo autor que ele lê e comenta hoje... Há publicações especializadas que se sustentam nessa prática viciosa de forma quase escancarada...
A amizade, particularmente a promíscua, parece ser um princípio que a crítica rejeita. No ensaio “Da Amizade”, de Montaigne, na tradução de Julia da Rosa Simões, o pensador lembra que “não há nada a que a natureza pareça nos ter encaminhado mais do que à vida em sociedade. E diz Aristóteles que os bons legisladores tiveram mais preocupação com a amizade do que com a justiça. Ora o ponto máximo da perfeição da vida em sociedade é a amizade”.
Esse elogio à amizade é comovente, mas, trazido para o âmbito da atividade crítica, torna-se um veneno, que levará à deformação ética e profissional do crítico, o qual, em razão da amizade com determinado escritor, venderá gato por lebre para o leitor e deste acabará sendo inimigo.
Assim, o discurso lúcido e confiável vai dando gradativamente lugar ao texto retórico, sem qualquer fundo crítico relevante. Em outro ensaio, “Da Vanidade das Palavras”, para seguirmos com Montaigne, o pensador francês afirma que “um retórico dos tempos passados dizia que seu ofício era fazer as coisas pequenas parecerem e serem consideradas grandes”.
Não há problema nisso, desde que, reforça o ensaísta, não se pretenda com esse discurso enganar nosso “julgamento, e aviltar e corromper a essência das coisas”.
Na história da literatura ocidental, em diferentes épocas, críticos tiveram de se esconder atrás de pseudônimos, para garantir a isenção das suas posturas críticas. Essa prática continua atual, no Brasil, inclusive. Mencionarei o caso de Décio Machado, “nom du plume” humoradíssimo de um excelente crítico, que oferece nas redes sociais consistentes dicas de leitura, destacando-se por não ignorar os que estão fora do circuito e raramente aparecem em jornais e programas de televisão.
Além disso, suas análises de livros badalados não se furtam a apontar, quando julga necessário, as falhas da obra, cuja fama muitas vezes não se baseia em valor literário. Mas o faz sempre citando fragmentos do livro, o que ajuda o leitor a entender a sua linha de raciocínio.
Minha conclusão —melancólica talvez— é que a visão crítica, sobretudo nas listas dos melhores livros, melhores autores etc., não raramente abre mão de seus critérios em prol da amizade pessoal.
A reação mais sadia, por parte do leitor, talvez seja a de não levar tão a sério essas seleções, que acabam promovendo a circulação de certas obras nos ambientes mais disputados do cenário cultural brasileiro, em detrimento de outras, escritas por solitários, desconhecidos, periféricos...
